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“Enquanto se preocuparem mais com pintar o CAR por fora, do que com tapar os buracos, não vamos a lado nenhum”
Quase um ano depois de ter embarcado para os Estados Unidos da América em busca do “sonho americano”, o Bola na Rede esteve à conversa com o Alexandre Ribeiro, tenista oriundo de Lisboa, de 18 anos, que vive e treina atualmente na Virginia Tech, em Blacksburg.
Bola na Rede (BnR): Para começarmos, podes fazer uma breve descrição da cidade onde vives e da Universidade onde estudas?
Alexandre Ribeiro (AR): Eu vivo no estado de Virginia, numa pequena cidade chamada Blacksburg e estou a estudar Gestão na universidade Virginia Tech. É uma cidade relativamente pequena com cerca de 70 mil habitantes, e a Universidade tem 30 mil estudantes portanto dá para entender que está tudo muito centrado na Universidade, que é enorme. Para dar uma ideia, demoro cerca de 15 minutos a chegar de uma ponta à outra do campus.
BnR: Visto que consegues conciliar o ténis de alto-rendimento com os estudos, o que para alguns parece missão impossível, como é um dia teu em Blacksburg? E em períodos de competição, a Universidade permite-te adaptar os horários das aulas ou compensar as aulas perdidas?
AR: Um dia normal para mim começa às 07h15 no ginásio, seguido de aulas até perto das 13h, hora a que treino. Depois do treino tenho tempo para descansar e estudar ou fazer algum trabalho que tenha, por isso posso dizer que até tive alguma sorte com o meu horário. Em relação aos estudos, eu fui para os Estados Unidos precisamente para poder conciliar os estudos com o ténis de competição, porque em Portugal isso é impossível e é por isso que há tanta gente a ir embora do país agora. Aqui na Virginia Tech justificam-me sempre as faltas quando eu estou em representação deles e os professores, sabendo que há tantos alunos-atletas, facilitam sempre com a troca e compensação de aulas ou realização de trabalhos. Por exemplo, a nível de trabalhos estão sempre abertos a trocar e-mails com os alunos e arranjam forma de juntar em grupos vários atletas que também estejam fora em representação da universidade, por isso nunca me sinto prejudicado.

Fonte: Galeria Pessoal de Alexandre Ribeiro
BnR: Quais foram as maiores dificuldades que encontraste ao deslocares-te para os EUA, para uma realidade (suponho) completamente diferente da que conhecias em Lisboa? Como foi a adaptação? Alguma história caricata, que nos possas contar?
AR: A parte mais difícil da minha ida foi obviamente a questão familiar, foi difícil deixar a minha família toda e amigos em Portugal para ir para um país onde não conhecia ninguém. Também o facto de as aulas serem todas em inglês foi complicado numa fase inicial visto que o meu nível de inglês não era grande coisa, mas agora já me sinto completamente à vontade e isso já não é um problema. O que eu sinto que me fez integrar melhor foi o acolhimento do treinador e dos meus colegas de equipa, são todos espetaculares e receberam-me como se fosse família e isso foi muito bom para mim. As histórias engraçadas que tenho foram todas relacionadas com os “disparates” que eu dizia em inglês durante as aulas, faziam toda a gente rir e no início tinha a sua piada.
BnR: Ricardo Jorge, Ricardo Almeida, João Monteiro, Joana Valle Costa, Francisco Ramos são apenas alguns dos atletas portugueses que deram, há alguns anos, os mesmos passos que estás a dar agora. Procuraste falar com alguém com experiência semelhante, que te desse algumas referências antes de tomar a decisão final de ir ou seguiste a tua intuição?
AR: Devido à minha vontade de continuar a competir, já tinha a decisão mais ou menos tomada mas ainda assim falei com o João Monteiro, que recentemente concluiu os estudos na mesma universidade onde eu estudo agora e aproveitei para perceber como era viver naquela cidade, como era a equipa e os treinadores e perceber também mais detalhes sobre a universidade, o que foi uma boa ajuda.
BnR: Focando-nos agora no tema principal, o ténis, explica-nos, 1 ano depois de estares a treinar e competir numa das maiores “fábricas” de tenistas de topo do mundo, qual é o balanço que fazes dessa experiência?
AR: Bem, um ano depois, uma das certezas que tenho é que o meu nível tenístico aumentou, visto que sou obrigado a treinar e competir com jogadores de topo, todos aqui jogam muitíssimo bem e digo mesmo que aqui, se não quisessem continuar a estudar, muitos atletas estariam ou estão prontos para jogar torneios ATP. Joguei, por exemplo, contra um rapaz [Carl Soderlund – atual 439º ATP] que está no 1º ano universitário como eu, e que no ano passado defrontou o João Sousa no ATP250 de Bastad. A nível de condições também é completamente diferente, temos 6 courts outdoor e 6 cobertos o que faz com que possamos treinar bem quando chove ou faz muito frio. Temos também disponíveis para nós salas de fisioterapia mesmo muito grandes e bem equipadas, sempre cheias de pessoal especializado pronto para nos ajudar e posso garantir que nunca ficamos mal tratados. Neste verão, a universidade tem o projeto de alargar o centro de ténis, o que demonstra um pouco a dimensão da universidade e também a mentalidade que existe, pois mesmo que as condições sejam boas, sempre que se pode melhorar alguma coisa, não hesitam.
BnR: De forma breve, consegues explicar o sistema de competição universitário americano? Achas que é possível um dia existir algo semelhante em Portugal?
AR: O campeonato universitário está dividido por conferências e a nossa equipa tem jogos dentro da conferência, em que jogamos contra as equipas das universidades que estão mais próximas em termos geográficos e que são os jogos “mais importantes”. Para além desses jogos temos outros, contra equipas fora da conferência, que são marcados entre treinadores que se conhecem e têm boas relações, se acharem que é benéfico para os atletas defrontarem-se. Depois, tendo em conta os resultados que tivermos frente a todas as equipas da conferência, podemos ou não ser apurados para o torneio nacional (NCAA Championship). Na nossa conferência competimos, por exemplo, contra as equipas das universidades de Wake Forest, North Carolina ou Virginia – que acabaram de se sagrar campeões nacionais. Relativamente a Portugal, pessoalmente acho que seria possível existir um sistema de competição semelhante, não do tamanho americano obviamente pois em Portugal há muito menos universidades e muito menos pessoas, mas para isso era necessário existir uma organização à altura e, não querendo entrar muito no campo da política, acho que isso não existe em Portugal infelizmente. Acho que é também um pouco por isso que o ténis português não vai mais longe e que alguns países nos ultrapassam com alguma facilidade.
BnR: Como olhas para o apoio que as universidades dão aos atletas que as representam? Estás satisfeito? AR: Sim, completamente. A universidade apoia-nos a todos os níveis, quer a nível desportivo quer a nível pessoal, e tenho a sorte de contar com uma bolsa de quase 100%. Eles [Virginia Tech] cobrem todas as despesas sempre que viajamos e preparam todos os jogos com o máximo de condições, basta pedirmos bebidas energéticas, equipamentos, sapatilhas ou qualquer outra coisa que eles oferecem na hora. Chegaram inclusive a pagar-me as despesas de um torneio Future que fiz individualmente, por isso não me posso queixar do apoio da universidade.
BnR: Na equipa da tua universidade os americanos estão em maioria? E ao chegar aos EUA, deparaste-te com uma grande diferença de nível tenístico (técnico, competitivo) para os teus colegas e adversários?
AR: Por acaso não, a minha equipa, para além de mim, é constituída por 3 americanos, 2 australianos, 1 dinamarquês, 1 lituano e 1 ganês. A nível técnico, eu não diria que eles são muito melhores, mas que se destacam principalmente pela sua organização e pela intensidade que imprimem cada vez que pisam o court. Esse creio que é o fator que mais os faz diferenciar-se, pois o ritmo é muito elevado, e jogar contra jogadores de topo quase todos os dias obriga-nos a subir o nível, dar o tudo por tudo e nunca baixar os braços.
BnR: Para além do orçamento, na tua opinião há algum fator metodológico, cultural, que justifique a grandeza dos EUA no ténis – o que não acontece em todos os desportos (como por exemplo o Futebol – soccer)?
AR: Por acaso não sei o que está na origem de eles não ligarem tanto àquilo que nós europeus chamamos Futebol. Nota-se sim que eles são “loucos” por Futebol Americano e Basquetebol, e é muito por causa destes desportos que as universidades têm tanto dinheiro para investir nas restantes modalidades através de doações dos adeptos, patrocínios significativos ou claro do público que assiste aos jogos (por exemplo, o nosso próprio estádio de Futebol Americano esgota sempre a sua capacidade, 68 mil lugares, quando a equipa da universidade joga). Relativamente ao sucesso do país, penso que é um pouco como o caso da China, tendo tantos milhões de pessoas é mais provável que haja mais gente com talento para o jogo, pelo que o facto de eles treinarem de forma tão organizada, tão concentrada e tão intensa é o que os faz, a meu ver, distinguirem-se do resto do mundo.
BnR: Visto de longe, tens acompanhado o ténis em Portugal? Como vês o seu desenvolvimento e até onde achas que pode chegar?
AR: Não tenho acompanhado muito os torneios nacionais mas sei que temos alguns bons juniores a fazer bons resultados, o que é ótimo para o futuro. Apesar disso tenho-me apercebido que há cada vez mais interessados em sair do país e vir jogar para os EUA, como o Duarte Vale que deve vir quase de certeza. Temos o exemplo também do Nuno Borges que teve uma época muito boa aqui nos EUA, o que é muito bom para ele, e apesar de não conseguir jogar tantos torneios ATP como outros, de certeza que quando acabar o curso irá tentar apostar no ténis tendo em conta os resultados que tem tido que deixam boas indicações para o futuro. De resto, é pena que o João Sousa não esteja a atravessar o seu melhor momento de forma, espero que melhore agora para Roland Garros, ao contrário do João Domingues que está a um nível muito bom, tal como o Pedro Sousa e o Gastão Elias. Por isso acho que apesar de não termos tantos jogadores novos a aparecer, os que temos têm mostrado que podem vir a ter sucesso no futuro.
BnR: Tendo em conta as grandes diferenças em termos de condições (instalações, orçamento, nº de atletas, cultura) na tua opinião, o que é que o ténis e os responsáveis por ele em Portugal podem e devem aprender com os Estados Unidos, para que o nosso ténis possa atingir patamares superiores?
AR: Na minha opinião acho que tudo começa pelas prioridades daqueles que mandam no ténis em Portugal, creio que estão muito mal definidas. Enquanto se preocuparem mais com pintar o Centro de Alto Rendimento do Jamor [CAR] por fora, do que com tapar os buracos que estão no teto há muito tempo não vamos a lado nenhum, para dar um exemplo concreto. Os diretores da Federação Portuguesa de Ténis responsáveis não fazem ideia do que hão-de fazer, simplesmente não sabem o que fazer para melhorar o ténis em Portugal. Fica muito difícil para os atletas com talento darem passos para a frente se não tiverem os conhecidos certos, e isso acaba por ditar o futuro de muita gente.
BnR: A responsabilidade passa também pelos treinadores e clubes?
AR: Acho que há bons treinadores mas muitos dos clubes não têm condições para suportar e apoiar devidamente um bom grupo de atletas de alta-competição. Uma das coisas que senti enquanto estava em Portugal foi que muitas vezes o facto de um atleta não estar a entregar-se como devia ao treino era meio indiferente para o treinador. Aqui isso é impensável pois os treinadores preocupam-se muito connosco e procuram ajudar-nos sempre e motivar-nos de forma a rendermos mais. Recordo-me de um episódio engraçado, em que o meu treinador me estava sempre a relembrar de que tinha de ficar mais forte (o que obviamente é verdade [risos]) então enquanto esperávamos o avião para o Texas ele não só me obrigou como me acompanhou em várias séries de flexões mesmo em frente à porta de embarque.

Fonte: Galeria Pessoal de Alexandre Ribeiro
BnR: Achas que em Portugal os atletas têm de fazer muito mais esforços para conseguir ter sucesso?
AR: Sendo o país que é em termos económicos, não fica fácil para os atletas pagarem deslocações regulares ao estrangeiro para jogar torneios melhores, mas também vejo com bons olhos o esforço que tem sido feito em conjunto com a ITF [Federação Internacional de Ténis] para que haja cada vez mais Futures em Portugal, só beneficia os nossos atletas e por aí os responsáveis estão de parabéns.
BnR: Tens ambição de regressar a curto-prazo a Portugal, ou achas que os EUA te oferecem as condições que desejas para continuar a competir?
AR: Sinceramente ainda não sei o que quero fazer no futuro, se jogar ou trabalhar, mas claramente que gostava muito e é o que tenho na minha cabeça, regressar a Portugal quando terminar o curso para me juntar à minha família mas tudo depende das ofertas tenísticas ou profissionais que eu tiver nessa altura, ainda tenho mais de dois anos para perceber o que quero fazer. Gostava muito de voltar a Portugal como resultado de uma chamada à seleção nacional, seria um sonho tornado realidade, mas vamos ver o que acontece nos próximos anos.
Perguntas Rápidas:
BnR: Se tiveres bilhete para um jogo da NFL (futebol americano) ou da NBA (Basquetebol) a qual preferes ir?
AR: Tendo em conta que um jogo da NFL pode demorar quase 4 horas, escolhia obviamente NBA.
BnR: Comida tradicional Portuguesa ou fast-food Americano?
AR: Mil vezes mais a comida portuguesa!
BnR: Sol no Algarve ou em Virginia?
AR: Tendo em conta que cheguei a apanhar 19 graus negativos em Virginia, claramente o sol algarvio.
BnR: Quem vence daqui a sensivelmente 15 dias, em Roland Garros?
AR: Rafa [Nadal] ganha o 10º em Roland Garros.
Foto de Capa: Facebook de Alexandre Ribeiro












