Cabeçalho modalidades“O futebol são 11 contra 11.. e no fim ganha a Alemanha”, disse Gary Lineker, após a vitória da antiga FRA sobre a Inglaterra no Mundial de 1990. Esta é uma das mais célebres frases da história do desporto mundial e, não raras vezes, é usada para ilustrar a frieza competitiva dos germânicos, seja qual for a modalidade. Desta vez, a modalidade foi o ténis e a competição a única que coloca as nações frente a frente : a Taça Davis. Em cada eliminatória, são disputados quatro encontros de singulares e um de pares, todos à melhor de cinco sets, para apurar o país vencedor.

Portugal não pode, no entanto, reclamar de falta de sorte, pois a temível comitiva alemã (na qual figuram habitualmente os irmãos Mischa e Alexander Zverev, acompanhados por Philip Kohlschreiber) viu-se “reduzida” a nomes tão famosos como Jan-Leonnard Struff, Cedrik-Marcel Stebe e Tim Putz. Portugal, por sua vez, apresentou-se com a dupla habitual João Sousa e Gastão Elias, desta vez acompanhados por Pedro Sousa e João Domingues. Nenhum dos oito atletas presentes no Jamor para a disputa pelo acesso ao Grupo Mundial da Taça Davis figura presentemente no top-50 do ranking ATP, o que (à partida) já constituía uma vantagem para a equipa das quinas. Ainda por cima, Portugal teve o privilégio de jogar em casa, no seu piso favorito e perante um público que fez jus à expressão “ambiente de Taça Davis” e revelou ser o maior ativo da seleção nacional. Dentro do campo, a atuação não foi (de todo) tão boa como a dos presentes no Centralito, durante sexta-feira, sábado e domingo.

Como mandam as regras, o primeiro encontro colocou frente a frente o atleta português com melhor classificação (João Sousa) e o segundo melhor germânico Cedrik-Marcel Stebe. E foi nesse mesmo encontro que se tornou claro que João não está, neste momento particular da sua carreira, à altura das responsabilidades que lhe são concebidas.

Fonte: Davis Cup
Fonte: Davis Cup

Em jogo estava a inédita presença lusitana no principal lote de nações do ténis mundial, onde estão países com tanta História tenística como Espanha, França ou Estados Unidos da América. João não conseguiu, no entanto, fazer valer o seu estatuto de vencedor de dois torneios ATP e a distância de 33 postos no ranking ATP foi só mesmo um número, pois dentro do court, o (limitado) ténis do alemão foi, ainda assim, em tudo superior ao de João Sousa e o primeiro de cinco encontros foi para a Alemanha de forma categórica (Stebe d. J.Sousa 4/6, 6/3, 6/3, 6/0). Seguiu-se o encontro daquele que muitos consideram o tenista português mais talentoso no circuito, Pedro Sousa, que apesar de não ser o segundo melhor classificado dos portugueses, assumiu o lugar que seria, em princípio, de Gastão Elias, num encontro em que teria pela frente o número um da comitiva alemã e 57º do circuito, Jan-Leonnard Struff. Mais uma vez, o ténis encarregou-se de mostrar ao mundo do desporto a sua beleza e fez os números e probabilidades serem isso mesmo… meros números e probabilidades.

Ao contrário de João, este Sousa adora jogar perante o seu público, o seu ténis melhora nessas condições e Pedro mostrou que parece estar de volta à sua melhor forma, trazendo o segundo encontro para Portugal (P.Sousa d. Struff 6/2, 7/5, 7/6). 1-1 no fim do primeiro dia, seguia-se o famoso Sábado em que é disputado o encontro de pares, e que tantas vezes acaba por se revelar um momento fulcral da eliminatória. Aqui, Nuno Marques – capitão da seleção portuguesa – optou pela dupla de sempre (Gastão e João Sousa), para derrubar Struff e Tim Putz. Os portugueses entraram mais uma vez mal na partida, mas até conseguiram virar o marcador a seu favor, vencendo o segundo e terceiro sets. Contudo, no momento decisivo, os alemães foram mais felizes (e competentes) e acabaram por vencer os seguintes sets para, ao fim de mais de três horas e 30 minutos de ténis, vencerem o par e poderem partir para o último dia de prova, sabendo que uma vitória bastava para carimbar a vitória sobre Portugal e a consequente passagem ao World Group (Puetz/Struff d. J.Sousa/Elias 2/6, 6/4, 7/6, 4/6, 4/6).

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Nos jogos de singulares que restavam, Nuno Marques não tinha muito por onde escolher: o jogador que jogasse o quarto encontro tinha que ser mais bem classificado do que aquele que jogasse o quinto e, por isso, se Gastão não estava em condições (caso Nuno Marques decidisse que seria melhor escolha), João avançou, como sempre, em primeiro lugar para defrontar o melhor alemão dos convocados, Struff.

Fonte: Davis Cup
Fonte: Davis Cup

Desta vez não era “apenas importante” a vitória frente ao alemão, pois a derrota significava que Portugal tinha “morrido na praia” e não alcançava o tão desejado Grupo Mundial. E foi isso mesmo que aconteceu: João voltou a não ser suficientemente forte, a todos os níveis mas principalmente no capítulo psicológico, não conseguindo encontrar soluções para aquele que foi um jogo mais inteligente do que propriamente bem jogado tecnicamente por Struff. Ao contrário do alemão, João “tremeu” nos momentos chave de um encontro, que começou com um humilhante “pneu” que fez de imediato soar os alarmes na bancada e despoletar um magnífico apoio que, infelizmente, não teve o fim desejado mas que tem de ser elogiado (Struff d. J.Sousa 6/0, 6/7, 3/6, 7/6, 6/4).

Fica para a história do ténis português mais um “quase”, nada tendo a ver com a última vez em que Portugal esteve tão perto do Grupo Mundial (em 2011, Portugal disputou o acesso ao play-off do Grupo Mundial – fase que disputou agora – frente à super Suíça, que contou com Federer e Wawrinka). Fica, por isso, um grande amargo de boca, mas a competência alemã deve ser reconhecida e aplaudida – e assim venceu, mais uma vez, a Alemanha.

Foto de Capa: Davis Cup

Artigo revisto por: Francisca Carvalho