Em Defesa do Ténis

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O começo da temporada de 2016 está a ser assombrado pelo alegado escândalo, ainda sob investigação e sem quaisquer conclusões, de viciação de resultados. Gostaria de deixar uma nota prévia: não vou contribuir em nada para o espetáculo mediático que tem sido criado à volta da suspeita sobre determinados jogadores, antes pelo contrário.

Deixem-me começar por contar-vos um pouco da minha experiência enquanto jogador federado por quase uma década. Nuns momentos mais empolgado do que noutros, a paixão esteve sempre lá: aquele nervoso miudinho antes de entrar em campo fosse qual fosse o torneio; a insatisfação quando as coisas não corriam bem; o braço tenso antes dos momentos mais importantes; entre muitas outras coisas.

Todavia, relembro-me bem de um episódio que me marcou e que gostaria de partilhar com os meus prezados leitores. O meu clube jogava o nacional de equipas; a eliminatória já estava resolvida, ficando apenas por realizar, naquela altura, o habitual par misto. Jogámos (demasiado) descontraídos, perdemos e saímos a rir do court. Resumidamente, não fomos sérios. O meu treinador, que até costumava ser benevolente quando as coisas não corriam tão bem, chamou-nos à parte e, com toda a razão, disse-nos que o que tínhamos acabado de fazer era uma vergonha e uma falta de respeito, no mínimo, para com os colegas de equipa. Obviamente não se tratou de uma falta de respeito apenas para com os nossos colegas de equipa, mas sim para com todos os praticantes da modalidade.

Andy Murray tem tecido duras críticas  a alegadas viciações de resultados Fonte: Facebook Oficial de Andy Murray
Andy Murray tem tecido duras críticas a alegadas viciações de resultados
Fonte: Australian Open

O que esta história simboliza é que, independentemente de um dia menos bom (no ténis, até os melhores de sempre os tiveram), a seriedade e o profissionalismo são princípios que tem de estar sempre presentes.

Nos últimos dias têm sido inúmeros os nomes lançados para o circo mediático. Não vou, porque não quero contribuir para tudo isto e porque o meu exercício tornar-se-ia meramente especulativo, comentar qualquer um deles. O que quero realçar é o facto de que as alegadas viciações – ou pelo menos tentativas – de resultados eram do conhecimento geral do circuito; como se fosse uma situação normal. Não posso tolerar, nem deviam as pessoas com responsabilidades no circuito ATP, esta situação.

Se é do conhecimento de todos porque é que ainda não foram tomadas as devidas medidas? Quais? o cultivar do fair play ao invés dos níveis de competitividade a que hoje são sujeitos os jovens tenistas; a irradiação do ténis de qualquer jogador, seja ele top 10 ou top 1000, que esteja envolvido no esquema de viciação de resultados; um maior equilíbrio entre aquilo que ganham os jogadores que normalmente jogam no circuito ATP e aqueles que disputam torneios challenger e/ou futures; entre muitas outras. Este não é um problema que tenha uma resolução a curto prazo, bem pelo contrário, mas precisa de ser rapidamente atacado.

O ténis é um desporto único; o meu favorito. Só quero que não o estraguem. Termino dizendo-vos que não devem temer que algum dos vossos ídolos – Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic ou qualquer outro – esteja envolvido neste escândalo; esses são, e hão de sê-lo sempre, um exemplo. Todavia, é com os outros que temos que nos preocupar. Os outros são aqueles que nunca vingaram como esperavam no ténis, aqueles que gostamos de ver apenas de vez em quando. Os outros podem manchar a reputação daquele que é um desporto apaixonante.

Foto de Capa: Australian Open

Duarte Pereira da Silva
Duarte Pereira da Silva
Do ciclismo ao futebol, passando pelo futsal ou o andebol, quase todos os desportos apaixonam o Duarte. Mas a sua especialidade é o ténis, modalidade que praticou durante 9 anos.                                                                                                                                                 O Duarte escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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