ATP Challenger Tour Maia Open: Borges cumpre sonho de criança e volta ao Top 70

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    Os courts do Complexo de Ténis da Maia voltavam a abrir portas para acolher jogadores de monta a nível nacional e internacional. Pelas mãos do diretor da prova, João Franco, com o apoio da Câmara Municipal da Maia e com a entusiasta organização por parte da Federação Portuguesa de Ténis, FPT, e restantes entidades, estava em marcha a sexta edição deste tradicional Challenger de encerramento de temporada, o Maia Open.

    A apresentar o quadro mais forte de sempre eram 100 os pontos ATP a somar ao pecúlio do grande vencedor, numa competição que no ano transato havia sido conquistada pelo jovem francês Lucca Van Acssche, que este ano jogou as ATP Next Jan Finals em Jidá, Arábia Saudita, não indo além da fase de grupos. A encabeçar a lista de pré-designados tínhamos o herói da casa, Nuno Borges, com o 78.º colocado da tabela ATP a pretender chegar, finalmente, ao título em casa após a final perdida em 2021. O

    outro atleta do Top 100 a viajar até território maiato foi o catalão e ex-vencedor do Millennium Estoril Open Albert Ramos-Vinolas, com o atual 92.º da hierarquia a desejar terminar uma temporada bastante discreta com um motivador título. Contudo, os geniais, irreverentes e imprevisíveis Benoît Paire de França e Fábio Fognini de Itália eram igualmente nomes de peso presentes a norte. Assim como o sueco Elias Ymer ou o italiano Andrea Vavassori, que fechavam o lote de seis maiores favoritos ao caneco!

    Ainda de destacar a presença na fase de qualificação do antigo Top 20 mundial, o georgiano Nicoloz Basilashvili, que não resistiu à intensidade do caseiro Rodrigo Fernandes, com o atleta de 17 anos a “tombar” este suo-generis tenista. Com as entradas diretas no quadro de João Sousa e Henrique Rocha, Duarte Vale, Francisco Rocha e Jaime Faria seriam agraciados com um Wild Card por parte da organização. De salientar ainda que de entre os oito membros da armada lusitana participantes na fase de qualificação, apenas o jovem da capital Pedro Araújo logrou ultrapassá-la, isto num torneio jogado sob terra batida, indoor.

    Com efeito, aqui ficam os cinco factos que mais me chamaram a atenção no decurso de mais uma semana de excelência a todos os níveis para os amantes do ténis nacional.

    5.

    Prestação global do exército nacional – Ainda que desfalcados de unidades como: Frederico Silva, Gonçalo Oliveira ou Gastão Elias, todos devido a lesão, a verdade é que ficou provado que a nova vaga do ténis nacional está aí já a demonstrar uma valia bem assinalável e os resultados conseguidos na Maia não me deixam mentir!

    Retirando o veterano João Sousa e o melhor tenista luso da atualidade, Nuno Borges, o que é facto é que: Jaime Faria e Henrique e Francisco Rocha, todos integrantes dessa nova geração, lograram alcançar os oitavos de final, resultado que foi sem dúvida a melhor prestação conjunta dos nossos tenistas nos Challengers organizados em solo pátrio ao longo da época.

    Com tão boa mão de obra ao dispor, serão os responsáveis pela modalidade a nível nacional capazes de extrair destes o melhor que podem e sabem? E já agora terão apoios por parte de entidades superiores para o fazer? Ou mais uma vez o futebol será privilegiado? Salvo melhor opinião estamos perante a geração com mais capacidade tenística a nível nacional dos últimos largos anos, seremos capazes de a tratar condignamente?

    4.

    Matteo Martineau – Com apenas 24 anos e ainda à margem dos 250 melhores tenistas mundiais, certamente que o gaulês não demorará muito a aí chegar, acreditando que o veremos a jogar algum dos qualifyings alusivos aos GS da temporada vindoura. Bem sólido em termos de serviço e com uma direita bem precisa, concisa e capaz de provocar grandes aberturas de ângulo, a verdade é que é mesmo a técnica, subtileza, acutilância e facilidade com que executa todas as pancadas, fatores que mais me impressionaram neste jogador que tem tudo para se afirmar nos mais altos voos do ténis a nível mundial.

    Ainda que “beneficiado” pela não comparência no campo de ténis da Maia de Fábio Fognini nos oitavos de final, podemos considerar que foi uma das boas surpresas da semana, pois mesmo no encontro em que se despediu, diante do futuro campeão, jamais deixou de se bater, acabando por cair bem de pé. Saudável e com a margem de progressão que parece ter, será certamente mais um a levar a conceituada escola francesa bem longe na modalidade!

    3.

    Maxime Janvier – Sem grandes referências a este nível e com resultados a primar pela discrição, a verdade é que o tenista gaulês assinou uma prestação nos courts da Maia que o pode levar a afirmar-se em provas deste nível já na temporada próxima.

    Com um gesto técnico de serviço bem curtinho, quase como se fosse bater um smash, a verdade é que consegue fazer desse golpe uma arma bem relevante no seu jogo, sem esquecer as suas valentes “chapadas” de direita, mas que, ao mesmo tempo, não são bolas vencedoras de pontos, mas sim para ir vencendo lentamente o ponto e quebrar a resistência contrária.

    O mesmo verificou-se diante do experientíssimo Ramos Vinolas que nunca foi capaz de contrariar este estilo de jogo. A milhas deste recital nas meias-finais diante de Benoît Paire, creio, que o peso da ocasião, o nome do adversário e o desgaste físico e mental do resto da semana, podem ter conduzido Janvier a uma tão precária atuação ante o compatriota. O jogo e os fundamentos técnicos estão todos lá, mas terá Maxime arcaboiço físico e mais que tudo mental para aguentar as exigências de um circuito cada vez mais pautado pela igualdade de forças, pela qualidade e pela competitividade?

    2.

    Benoît Paire – Um verdadeiro “cromo” do circuito, falo de uma das mais fortes e vincadas personalidades que o ténis mundial conheceu ao longo da última década.

    Capaz de momentos de pura genialidade e de uma capacidade técnica invulgar, também é bem capaz de proporcionar momentos de verdadeiro “circo” algo que muitas vezes conduz a derrotas pouco normais e admissíveis, provocadas por um súbito desinteresse por parte deste verdadeiro Mago das raquetes.

    O já veterano gaulês voltou a provar, mais uma vez, na Maia, que quando está para aí virado e tem “tudo alinhado”, algo que infelizmente pouco vimos ao longo da época que agora termina, até consegue apresentar um nível mais condizente com o que o levou a figurar entre os 20 melhores do mundo, bem como a alcançar quartos de final em Grand Slams e a conquistar três títulos ATP. Algo que comprova na perfeição a personalidade algo bizarra, mas também fascinante de Paire é o facto de ter confessado vir ao torneio da Maia após dez dias de férias sem pegar sequer por uma vez no seu instrumento de trabalho, algo que não foi impedimento para alcançar a final, praticando até ao encontro das decisões algum do melhor ténis da semana.

    Chegado à final do ATP Challenger Tour Maia Open voltou a aparecer aquele Paire: rabugento, resmungão, pouco importado com o encontro e mais que tudo sem chama. E em pouco mais de uma hora desperdiçou a possibilidade de se aproximar novamente do Top 100 de onde saiu graças a si próprio! Ele é a prova provada de que por vezes o maior adversário no ténis é o próprio tenista e não tanto quem está do outro lado!

    1.

    Nuno Borges – Como forma de finalizar uma época, fortemente, condicionada pela lesão contraída na relva de Wimbledon, que o levou a parar mais de mês e meio, mas na qual havia conquistado dois títulos Challenger em Monterrey no México e o seu troféu mais importante da carreira, o Super Torneio de Phoenix, o pupilo de Rui Machado resolveu regressar a casa, que é como quem diz à cidade da Maia!

    Número um nacional aos 26 anos, a ex-glória do ténis universitário norte-americano, que viu a sua entrada na alta roda condicionada pela paragem devido à pandemia, é já o sucessor legítimo de João Sousa, sendo que me parece ter um jogo mais atraente quando comparado com o do “conquistador”.

    Com uma semana quase perfeita na Maia, o grande teste surgiu diante do italiano Vavassori nos quartos de final, de onde veio ao de cima toda a sua força mental para lidar com a adversidade e com o marcador a registar um 6-2, 5-4 e 30-0, eis que o maiato de gema virou de pernas para o ar o encontro, com alguns nos quais me incluo a ficar desde logo com a sensação de que dificilmente se veria outra coisa que não fosse a vitória do herói local!

    Com as bancadas dos courts da Maia repletas para a grande final, Nuno foi capaz de entender eximiamente todas as fases do jogo, isto para além de ter de ler a mente tão intrigante e imprevisível como é a de Benoît Paire. Com um primeiro parcial resolvido em apenas 21’ pelo score de 6-1, o prodígio da Maia apenas pareceu sentir o momento quando liderava já por 5-1 na segunda partida, permitindo uma ligeira aproximação por parte do antagonista, contudo nada que o impedisse de concretizar um “sonho de criança” e com um 6-4 vencer no clube de sempre, vingando assim a final perdida.

    Com Nuno a brilhar e a exibir-se a este nível, aposto o meu dinheiro, em que o Top 50, pelo menos, será um objetivo realista para ser atingido na temporada que aí vem, tal como grandes desempenhos em torneios ATP e até melhores resultados em Grand Slams.

    Como já anteriormente referi e reitero, Borges tem, claramente, armas bem mais letais quando comparadas com o jogo de João Sousa em igual idade, contudo falta saber se será tão forte nas outras vertentes do jogo como o vimaranense o foi, e ainda é! Porque o ténis é muito mais do que simplesmente bater na bola!

    Na próxima temporada o BnR continuará a levar-lhe o que de mais relevante acontece no ténis a nível nacional e mundial, com o rigor, qualidade e objetividade que se exige.

    Até lá fique bem, sempre na melhor companhia.

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    O Diogo é licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto. É desde cedo que descobre a sua vocação para opinar e relatar tudo o que se relaciona com o mundo do desporto. Foram muitas horas a ouvir as emissões desportivas na rádio e serões em família a comentar os últimos acontecimentos/eventos desportivos. Sonha poder um dia realizar comentário desportivo e ser uma lufada de ar fresco no jornalismo. Proatividade, curiosidade e espírito crítico são caraterísticas que o definem pessoal e profissionalmente.