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Onze títulos em Monte-Carlo, outros tantos em Barcelona. Dez vezes campeão em Roland Garros (a caminho de uma provável 11.ª conquista em 2018). Heptacampeão do Masters de Roma. Vencedor de 55 finais sob pó-de-tijolo em 63 disputadas. Mesmo que o seu nome não estivesse no título do artigo, ninguém iria pensar noutro nome senão o do Rei da Terra Batida, Rafael Nadal.
A menos de um mês de celebrar o seu 32.º aniversário (que celebra já tradicionalmente com um bolo oferecido em pleno Court Philippe Chatrier, no início da segunda semana de Roland Garros), o espanhol nascido em Manacor está em modo “besta”, e parece impossível roubar-lhe sequer um set em encontros oficiais disputados nesta época de terra batida europeia. Mas terá Nadal algo que mais ninguém em todo o mundo tem? Será que, à semelhança do Obelix, o espanhol caiu num caldeirão cheio de pó-de-tijolo e isso fez dele o melhor de sempre nessa superfície? Ora vejamos.
Começando pela análise à própria superfície, é importante dizer que a sua composição argilosa faz da terra batida a superfície mais lenta do circuito profissional – ao bater no solo, a bola que muitas vezes é batida com violência abranda, dando tempo aos adversários para devolvê-la. Isto explica o facto de jogadores com golpes violentos como Pete Sampras ou Andy Roddick nunca terem tido sucesso nesta superfície. Para além disso, o ressalto é tradicionalmente mais alto do que aquele que se vê na relva e no piso duro.
Posto isto, à partida parece ser a superfície perfeita para jogadores com o estilo de jogo de Rafa. Não é por acaso que é a superfície de eleição de 90% dos tenistas espanhóis, tradicionalmente “ossos duros de roer”, amantes de longas “faenas” do fundo do campo e várias horas na arena. Nadal é precisamente o expoente máximo desta filosofia de jogo. Dotado de uma inacreditável força física e psicológica, encara cada encontro sabendo que o mesmo pode demorar uma eternidade, mas no que dele depender, todas as bolas serão golpeadas como se da última se tratasse, até à exaustão. E essa é a primeira grande vantagem do maiorquino face a todos os seus oponentes.

Fonte: IMG
De seguida, analisando a técnica do espanhol, Rafa é extremamente inteligente na abordagem a esta superfície. Capaz de cometer menos de dez erros não forçados ao longo de um encontro à melhor de cinco sets, a margem de segurança do espanhol é traduzida por muitas vezes se encontrar mais de três metros atrás do court, deslizando de ponta a ponta e correndo sprints fantásticos para devolver todas as bolas possíveis.
Para além disso, a pega da pancada de direita de canhoto de Rafa (forehand) é incrivelmente fechada (antes de golpear a bola, as cordas da sua raquete encontram-se paralelas ao chão) o que faz com que imprima na bola um topspin equivalente a entre 4000 e 5500 rotações por minuto (para se ter uma ideia, as pancadas de Federer rondam as 3000 RPM e as de Sampras ou Agassi, 1800 RPM).
A juntar a toda esta carga sobre a bola, o espanhol coloca a esmagadora maioria das bolas com mais de um metro de segurança acima da rede o que, tomando todo o efeito imprimido por Nadal, faz com que a bola caia abruptamente no solo e ressalte a mais de 1,60 metros de altura, no momento em que o adversário bate a bola – os “livros” do ténis dizem que o sweet spot é atingido quando o jogador bate na bola com esta a rondar os 1,25 até 1,35m de altura. 30 centímetros a mais faz com que jogadores de estatura média-alta como Federer batam recorrentemente a bola ao nível do peito/ombros, tornando-se assim muito difícil (não esquecendo o efeito que a bola traz) de controlar a devolução e, consequentemente, o ponto frente ao espanhol.
De ressalvar ainda que todas estas nuances técnicas ganham expressão quando o clima é quente e seco – exemplos de Monte-Carlo e Barcelona -, pois quando o mesmo não acontece e tanto a terra como a bola se encontram mais húmidas – exemplos de Roma em que o torneio se disputa muitas vezes ao fim de tarde/noite, ou mesmo Madrid em que devido à estrutura da Caja Magica, o court central passa a maioria do tempo escondido do sol – ganham peso, e isso anula parte do efeito que Rafa imprime em cada golpe, sendo assim possível para os adversários encontrarem um ponto de encontro com a bola mais regular e mais baixo, podendo assim disputar os pontos de forma mais equilibrada.

Fonte: Roland-Garros
Em tempos julgava-se ser impossível contrariar este estilo de jogo de Rafa. Porém com o passar dos tempos, Federer (e alguns outros, seguindo as pegadas do suíço) lá foram encontrando atalhos para anular esta vantagem do maiorquino (começando, por exemplo, a avançar no court procurando encontrar a bola ainda no seu trajeto ascendente depois de bater no solo, roubando tempo e espaço ao espanhol).
Certo é que Rafa parece ter encontrado novamente antídoto (técnico, tático, mas acima de tudo psicológico e emocional) para qualquer tipo de barreira e fruto disso mesmo são as constantes (desculpem-me a expressão) “sovas” que tem pregado a muito craque no circuito desde Thiem – último a conseguir derrotar Rafa em terra batida – a Zverev passando por Dimitrov.
Irá alguém a tempo de roubar um set sequer ao espanhol durante este ano? Irá ele continuar a “limpar” os troféus da primavera europeia até se retirar? Os meus prognósticos? Não, ninguém conseguirá roubar um set este ano a Nadal em encontros disputados em terra batida e, sim, parece-me que todos os recordes possíveis e imaginários desta superfície serão batidos por Rafa, chegando ele provavelmente à marca dos 13 ou 14 vitórias no principal palco de terra batida, Roland Garros.
Foto de Capa: Roland-Garros
Artigo revisto por: Rita Asseiceiro













