Regressamos ao dia 5 de janeiro de 2014. Lembro-me de acordar cedo naquela manhã; estava um típico dia de janeiro: nublado e frio. Liguei a televisão e só se falava de uma coisa: tinha falecido Eusébio da Silva Ferreira. O choque foi grande. No fundo, era a partida de um símbolo de Portugal e Moçambique, uma lenda do Benfica e um ícone da história do futebol mundial. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira, muitas vidas são melhores devido ao Benfica e o Benfica é melhor por causa de Eusébio. Naquele dia não morreu apenas um, morreu um pequeno pedaço de milhões.

Apesar do grande impacto que a partida da “pantera negra” teve no mundo benfiquista, a tristeza alargou-se a todo o país e a toda a comunidade lusófona. A estátua de Eusébio, à entrada do Estádio da Luz, foi inundada com cachecóis e bandeiras de todos os clubes, mas o que foi “deixado” na estátua foi sobretudo gratidão e admiração. Seguiu-se uma triste, mas mais do que merecida, homenagem no centro do relvado, pelo qual o “King” passou na sua última viagem.

No meio deste clima de luto e tristeza, a vida teve de continuar a seguir o seu rumo natural. Logo no fim de semana seguinte a esta grande perda, o Sport Lisboa e Benfica recebia em sua casa o Futebol Clube de Porto. Os duelos recentes com os dragões não traziam boas memórias à equipa encarnada, que tinha ainda bem presente na memória o golo de Kelvin no dragão.

Apesar do mau registo frente aos azuis e brancos, reinava um clima de anormal positivismo entre os adeptos benfiquistas. Eu próprio nunca tive tanta certeza do resultado de um jogo. Não interessava quem era o adversário: o Benfica iria sair da Luz com a vitória.

Naquela tarde, o Porto entrou em campo com Helton, Danilo, Mangala, Otamendi, Alex Sandro, Fernando, Lucho Gonzalez, Carlos Eduardo, Jackson Martinez, Silvestre Varela e Licá. No lado dos encarnados foram a jogo Oblak, Maxi Pereira, Luisão, Garay, Siqueira, Matic, Enzo Perez, Markovic, Gaitan, Lima e Rodrigo. Todos os jogadores do Benfica tiveram neste jogo uma coisa em comum: o nome que transportavam na camisola. Nesta partida, entravam em campo 11 “Eusébios”. Nenhuma equipa teria hipóteses.

Por vezes, ouve-se a velha máxima do futebol que proclama que o símbolo na frente da camisola é mais importante do que o nome nas costas. Neste jogo, o nome nas costas ascendeu em importância e sobretudo em mística. Todos aqueles jogadores carregavam consigo a história do Benfica e a responsabilidade de dar uma grande despedida ao melhor jogador de sempre do clube.

As três equipas entraram em campo, enquanto mais de 60 mil benfiquistas cantavam, de forma ensurdecedora, o hino do Sport Lisboa e Benfica. Todos os cânticos de apoio a ambas as equipas e o barulho que se fazia sentir no estádio terminou quando Artur Soares Dias apitou, indicando o início do minuto de silêncio em homenagem a Eusébio. A euforia transformou-se rapidamente em luto e tristeza. O estádio coloriu-se de preto e o silêncio, mantido pela maioria, arrepiou todos os presentes nas bancadas. Com um novo apito do árbitro, as lágrimas e a tristeza depressa se transformaram em esperança e vontade no apoio à equipa, numa simbiose perfeita e única entre público e jogadores, a um nível que não é facilmente observável nos estádios portugueses.

Este jogo serviu de homenagem ao “pantera negra”
Fonte: SL Benfica

Passando ao jogo em si, o esférico começou a rolar às quatro da tarde daquele dia. Depressa se percebeu que existia um certo nervosismo entre os jogadores, devido à importância desportiva do jogo e ao seu simbolismo, mas a sua vontade de vencer era ainda maior. Logo aos 13 minutos, a bola caiu nos pés de Markovic, que arrancou de forma brilhante, ultrapassando dois jogadores do FC Porto, numa jogada que fez lembrar o incrível golo que marcou ao Sporting CP. Subsequentemente, o sérvio passou a bola na perfeição para Rodrigo, que na cara do golo “fuzilou” autenticamente Helton, que nada pôde fazer.

60 mil pessoas saltaram em uníssono das suas cadeiras, gritando “GOLO” do fundo dos seus pulmões. Naquele minuto, a terra tremeu e o estádio foi, metaforicamente, abaixo. Certamente um dos golos com mais significado na história do Benfica e um dos mais celebrados no Estádio da Luz. Aquele remate fulgurante em tudo se assemelhou a um “tiro” da “pantera negra”, que naquela altura parecia ter descido do seu pedestal de divindade para ajudar o Benfica.

O grito de raiva de Rodrigo, enquanto se agarrava à sua própria camisola, ficaria igualmente marcado na memória de muitos benfiquistas. Era um grito por Eusébio, era um grito pela vantagem frente ao FC Porto, era um grito sobretudo pelo Benfica. A imagem de todos os jogadores abraçados e do braço de Rodrigo, lá no meio, bem esticado a apontar para o céu, entrou, certamente, para a história do clube encarnado.

Aos 53′, Mangala cortou a bola e cedeu o pontapé de canto ao Benfica. Enzo Pérez bateu a bola para o centro da área, Garay antecipou-se a Mangala e cabeceou a bola de forma fulminante, fazendo abanar novamente as redes de Helton. O “vulcão da Luz” voltou a eclodir, enquanto Garay celebrava o golo abraçado aos seus colegas e a alguns adeptos que invadiram o terreno. Este golo deu finalmente tranquilidade à equipa, que dominaria o jogo até ao final e homenagearia Eusébio, conseguindo uma vitória preponderante e os três pontos.

A vitória foi decisiva pois isolou o Benfica na liderança do campeonato, liderança que não largou mais até à conquista do 33º título de campeão nacional. Finalmente, os encarnados conseguiam vencer o grande rival e ultrapassar os traumas do final desastroso da época passada.  O “Rei” Eusébio teve neste jogo uma justíssima e feliz homenagem por parte do Benfica. Se estivesse cá, estaria certamente risonho naquela mítica cadeira nº 10, no camarote da Luz, que só a ele pertencia.

Este triunfo foi uma enorme conquista do Benfica, tanto do ponto de vista desportivo como psicológico. Mas a maior vitória naquela tarde foi sem dúvida do futebol e do desporto. A tristeza provocada pela partida do “King” transformou-se ao longo da partida em alegria e felicidade. É este o efeito incrível que o desporto tem na vida de muita gente: uma fonte de felicidade, uma escapatória de uma realidade não desejada, um porto de abrigo para muitos. Desporto é emoção. Não é – nem nunca será – “só” futebol.

Foto de capa: SL Benfica

Artigo revisto por Joana Mendes

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