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A arte de complicar

João Amaral Santos · 3 min

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Quando eu era pequenino, acabado de nascer, ainda mal abrira os olhos e já exasperava pai e mãe no mais quotidiano e corriqueiro passeio ao pôr-do-sol. Contra as altas recomendações progenitoras, pese o tom e o conteúdo das advertências, era incapaz de seguir caminhando em linha recta, optando sempre, por razões que ainda hoje ignoro, pela alternativa mais longa, mais lenta e mais cheia de obstáculos.

Deparando-me com um trajecto rectilíneo, com suficiente largueza e visibilidade, agradáveis sombras de dia e bem iluminado à noite, daqueles sempre a direito, que praticamente levam ao colo todo e qualquer caminheiro, resolvia, invariavelmente, dificultar a tarefa, ziguezaguear por ali, subir ou descer de patamar, arranjar um ou dois obstáculos com que me entreter; e assumia-o como uma insondável questão de honra.

A fórmula não variava muito: se bastassem dois passos, subia ao muro, fazia um pouco de equilibrismo, saltava ao pé-coxinho, ou cumpria o resto do passeio de costas para a meta ou com os olhos bem cerrados; se bastassem dois degraus, subia-os de uma só vez, de pés muito juntinhos, ou contornava a escadaria pela rampa escorregadia de relva ou de terra batida; se houvesse poças saltava-lhes para cima; se existissem buracos ou fendas ia-lhes ao encontro; num dia recusava pisar os quadrados pretos; noutro não calcava os brancos.

Esta característica, tão própria da infância, nunca representou verdadeiramente qualquer dissabor. O risco assumido, ingénuo e porquanto moderado, tinha somente o efeito – para além de enfadar os pais – de me fazer perder o dobro (por vezes o triplo) do tempo que os demais, de me ser mais trabalhoso, suado e dorido chegar finalmente à meta. Concebia obstáculos à minha volta, demorava-me em contendas evitáveis, apenas e só movido por um ingénuo desejo de aventura; conclui sempre tais caminhadas com nota positiva – mas expunha-me positivamente ao erro, proporcionava a falha, e quando assim é o sucesso torna-se mais difícil de alcançar.

Chegamos finalmente ao ponto que motiva o leitor a frequentar estas páginas – agradeço-lhe desde já a paciência demonstrada e prometo explicar-me rapidamente: é natural, até mesmo um sinal de saúde desportiva e financeira, ver cobiçados e contratados por milhões, pelos mais poderosos clubes do mundo, os jovens e talentosos jogadores capazes envergar com sucesso a pesada camisola do Benfica; é o preço da glória e ninguém, do topo à base (esta última feita dos sócios e adeptos), rejeita tal fórmula. Parece-me, porém, mais incompreensível a falta de capacidade demonstrada pelos responsáveis do clube em colmatar, chegados a este ponto, essas mesmas saídas. Recorde-se que neste defeso foram vendidos Ederson, Nelson Semedo e Lindelof, três pilares do sector defensivo tetracampeão, o que motivaria, obviamente, a uma ida ao mercado objectiva e responsável, numa lógica de preenchimento directo das vagas. Entretanto, cumprida a Supertaça e mais duas jornadas da Liga, essas lacunas continuam por solucionar.

A confiança que os benfiquistas depositam em Bruno Varela, André Almeida e Jardel – no valor comprovado destes elementos – não está minimamente em causa. No entanto, é inegável que, neste momento, existem deficiências, em quantidade e qualidade, no sector mais recuado da equipa. Torna-se difícil perceber o timing com que tudo foi tratado, pois é patente que existe a convicção, de forma mais ou menos unânime – partilhada pela própria estrutura – que são necessários reforços: por um lado, o discurso oficial, de dirigentes e treinadores, rejeita, para já, dar por encerrados os processos quanto a saídas e entradas, retirando, assim, garantias de titularidade indiscutível aos jogadores supracitados (e até mesmo a Júlio César); por outro, a dispensa de Pedro Pereira e de Hermes, soluções assumidamente adiadas, devidamente avaliados na segunda metade da época passada, confirmou-os como impreparados (ou verdes) para o presente.

Pedro Pereira ainda não está preparado Fonte: SL Benfica
Pedro Pereira ainda não está preparado
Fonte: SL Benfica

Neste caso, a direcção não se mostrou à altura para resolver a questão em tempo útil, o que cria dores de cabeça evitáveis, prejudica a dinâmica do colectivo, e a adaptação e o rendimento de quem, eventualmente, possa ainda vir a integrar este plantel. O Benfica tem tudo o que é necessário para voltar a vencer, mas também tem, de uma vez por todas, de deixar de criar obstáculos a si mesmo a cada arranque de temporada. A capacidade para reinventar soluções, para identificar e aplicar o necessário e o indispensável, é fundamental para a manutenção da fórmula do sucesso – cada vez mais replicada pelos esforçados adversários. Só assim, poderá o Benfica manter a dianteira sobre os seus rivais, e a hegemonia no futebol português.

A caminhada que dá mais garantias é aquela feita em linha recta, de forma fácil, rápida e segura.

João Amaral Santos

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