camisolasberrantes

Corria o ano de 1949. O Mundo recuperava ainda dos traumas da II Guerra Mundial. Nos Estados Unidos da América a vida voltava à normalidade, e na Base da Força Aérea Edwards decorria um estudo concebido para apurar qual a máxima súbita desaceleração a que uma pessoa pode ser exposta num acidente aéreo. O responsável por tal hercúlea tarefa era o capitão Edward A. Murphy.

Senhor dedicado a tal projecto e compenetrado em aprimorar a tecnologia aeroespacial, Murphy era também um tipo cheio de sorte. Tanta que a falta de resultados das suas experiências se justificava muitas vezes com erros técnicos ridículos. Por isso decidiu, certo dia, e depois de dar de caras com um transdutor mal ligado, bradar aos sete ventos que o técnico que trabalhava com ele era um homem capaz de encontrar sempre uma maneira de fazer mal as coisas, desse por onde desse. Vale ainda a pena referir que Murphy morreu atropelado…por um turista britânico que conduzia na via contrária…depois do seu carro ficar sem gasolina. Ou assim reza a lenda.

Em dois parágrafos está contada também a lenda que foi o jogo de ontem do Benfica: “qualquer coisa que possa dar errado, vai dar errado”. Com um pequeno, mas pervertido twist: tudo deu errado! A equipa da casa não conseguiu sequer mostrar as pratas no espaço de 90 minutos e, logo à entrada, vê Jardel tropeçar nos seus muitos nervos e dar a bola a Shatov que, fazendo jus ao seu muito propício nome, entrega de forma subliminar a Hulk. O brasileiro trouxe os fantasmas de volta à Luz e picou por cima de Artur para um golo igual àqueles que se fazem na escola. Se é de facto difícil gostar do brasileiro, é ainda mais difícil não gostar. Ainda não tinham aquecido as gargantas no Inferno e já se ouviam os russos no topo norte a festejar. Cinco minutos de jogo.

Eram tão poucas as saudades... Fonte: AP (Francisco Seco)
Eram tão poucas as saudades…
Fonte: AP (Francisco Seco)

Ora, se a tela não se pintava bonita, só o improvável poderia borrar ainda mais a pintura: Jardel – que imbecilidade na noite de ontem – repetiu a gracinha e colocou um recorrentemente nervoso Artur no caminho de um artista Danny. O português estatelou-se ao comprido e o árbitro, Oddvar Moen, nada pôde fazer a não ser mostrar o vermelho ao redes do Benfica. Um golo e um jogador a menos. Bonito.

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Talisca foi chorar a sua estreia na Champions para o banco e Paulo Lopes veio festejar a sua para a baliza, aos 36 anos de idade. E a coisa correu tão bem, mais uma vez, que nem cinco minutos depois o nosso carequinha estava já a defender bolas para lá da linha. Golo caricato de Witsel, que não festejou. Era o mínimo.

Tudo o que poderia correr mal, correu pior ainda. O Benfica estava destroçado logo aos 22 minutos de jogo perante um conjunto russo cheio de capacidades, fruto dos pozinhos de perlimpimpim característicos de Villas Boas. O técnico português limitou-se, daí para a frente, a tentar manter a sisudez dos azuis – onde é que já vimos tal coisa?.. – e conseguiu-o na perfeição até ao apito para o descanso.

Depois disso entrou em campo uma qualquer força milagrosa e indescritível que arrebatou os aplausos das decepcionadas gentes na bancada e a paciência do banco russo. Enzo voltou à partida depois de uma primeira parte a jogar ao berlinde, Salvio continuou a decidir mal mas veio imprimir uma capacidade de reacção única no conjunto da casa, Gaitán tomou ainda mais na perfeição as rédeas da equipa e Lima lá conseguiu reagir à frustração que lhe vai tirando horas de sono, sem fazer, no entanto, qualquer golo. Ele e o Benfica. Não se trata de tentos. Trata-se de atitude. E o Glorioso soube tê-la como só ele. Os minutos 59, 66, 72 e 76 provam-no. Valeu o perde-tempo Lodygin na baliza russa, um considerável azar e as decisões apertadas do juiz norueguês que conseguiu não ver – é mesmo essa a expressão – duas bem possíveis penalidades na área do visitante (uma sobre Salvio aos 52 minutos, outra sobre Enzo lá para os 88).

O Benfica ficou-se sem se ficar. E tinha todos os argumentos para mostrar que é superior ao Zenit. Tal não aconteceu. Mas a vontade e o benfiquismo que vieram do balneário fizeram lembrar os tempos de glória do ano passado…e o público percebeu. Tanto que os últimos 15 minutos foram de ininterrupto clamor. Amor. Fervor. Cânticos, palmas e vénias. Sem cessar. Os benfiquistas a dizerem que não faz mal perder em casa depois de 51 jogos a vencer muitas vezes e a empatar pouquíssimas. Não faz mal entrar com o pé esquerdo na Liga dos Campeões. Não faz mal tentar e não conseguir. Porque mesmo no desaire, estamos juntos como nunca. E mesmo que Murphy nos venha lixar a cabeça, somos malta para o pintar todinho de encarnado.

Troca de carinhos entre um público e um plantel únicos Fonte: http://aspapoilasdobiscaia.blogspot.pt
Troca de carinhos entre um público e um plantel únicos
Fonte: http://aspapoilasdobiscaia.blogspot.pt

A Figura
Os Benfiquistas – Fiquei sem palavras. Estando no estádio, só me consegui levantar e participar daquela enchente de aplausos. Foi dos momentos mais bonitos que ali passei. Os nossos jogadores bem que o merecem. Isto é o Benfica.

O Fora-de-Jogo
Jardel – É um jogador que sinceramente aprecio, mas a falta de empenho e de cabeça na noite de ontem levou-me ao desespero. A mim e a outros tantos milhões. Por falar nisso: será jogador para a Liga dos Milhões? Que dê a volta por cima. Tem o apoio para tal.