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Daqui a uns meses, André Carrillo, o melhor jogador do Sporting, vestirá de encarnado e, por essa altura, prevejo enfrentar um misto de sensações que, para já, me são desconhecidas, mas que, suponho, surgem naturalmente quando os fins são alcançados por meios que gostaríamos de ter podido contornar ou evitar. Daqui a uns meses, André Carrillo, o melhor jogador do Sporting, será, obviamente, um dos melhores jogadores do Benfica – desbaratando todos e quaisquer maus-olhados – e, nesse momento, estarei, pela primeira vez, no outro lado da barricada, já não no papel do adepto traído, mas no daquele que recebe o profissional de futebol que, admirado e acarinhado, escolheu trocar o clube que lhe deu tudo aquilo que tem, que o ajudou a crescer, pessoal e profissionalmente, que, no fundo e resumindo, fez dele aquilo que é, por um emblema rival. Para já, sei apenas que dói e que, por regra, a motivação destas opções prendem-se, essencialmente, com questões de ordem financeira. Porém, sei, igualmente, que nem sempre é o dinheiro a ditar tais desfechos.

Sofri, bem recentemente, com Maxi Pereira; sofri, conscientemente, pela primeira vez, com Paulo Sousa e Pacheco e sofri, fundamentalmente, com João Vieira Pinto, no epílogo de um pesadelo que ainda hoje evito recordar. No entanto, abro hoje uma excepção. João Vieira Pinto era de outro universo, o “capitão” incontestável do Glorioso e – provavelmente os mais novos não o saberão – um dos melhores jogadores do mundo da sua geração, que, apenas por opção individual, recusou abandonar o seu país e o “seu” clube, pese as propostas milionárias de vários tubarões europeus que, à altura, por si bateriam recordes de transferência à escala global. O seu caso é, por isso, uma excepção – a sua mudança para o Sporting nada teve a ver com dinheiro.

O talento de André Carrillo é incontestável e entusiasma; Fonte: Facebook de André Carrillo
O talento de André Carrillo é incontestável e entusiasma
Fonte: Facebook de André Carrillo

A história conta-se rapidamente: o Benfica era presidido por João Vale e Azevedo, homem vibrante, benfiquista extravagante, que festejava de um salto, de braços no ar e aplausos ruidosos, os golos da sua equipa, espalhando a polémica pelos camarotes dos clubes rivais – criticava-se o perfil de presidente/adepto, adoptado sem papas na língua. Como linha programática do seu mandato, assumiu a luta contra os poderes instalados no futebol português, dentro do clube, onde contestou os barões que quase o haviam destruído – reduzindo a intenções qualquer oposição interna –, e fora dele, denunciando a corrupção e apelando à revolução em prol da verdade desportiva. A sua vontade de contribuir para a mudança, para fazer o clube voltar a vencer, tornou-se imediatamente contagiante e, dessa forma, conquistou dos adeptos um apoio esmagador. A Luz voltou a encher e, finalmente, o bom futebol regressou, com José Mourinho, o melhor treinador português em Portugal, ao leme da equipa. Vale e Azevedo devolveu-nos, ainda, o futuro, iniciando as obras do Centro de Estágios, no Seixal, e reactivando a secção de ciclismo.

Eram tempos de alento e esperança na luta contra um jejum que já contava três anos (vejam só como nos habituaram mal). Perante a ilusão, cultivada por entre o caos e a incerteza (e, sinceramente, o hábito da derrota), era difícil não acreditar; admito-o frontalmente: era impossível não adorar um presidente que, resumindo, era um de nós, que queria, apenas e só, aquilo que todos nós queríamos. No entanto, João Vale e Azevedo detinha, na verdade, uma agenda pessoal que, naturalmente, se viu descortinada e que, rapidamente, demonstrou colidir com os nossos interesses colectivos – no final e tudo somado, apenas a dimensão do rombo acabou por surpreender. Quando o turbilhão era ainda dúbio ao exterior, João Vieira Pinto, o único símbolo que restava, tornou-se numa consciência incómoda dentro do clube. O melhor jogador do Benfica (um dos melhores da nossa história), idolatrado por milhões, foi então despachado através de uma simples e inacreditável rescisão de contrato. Livre para assinar por outro clube, voltou a rejeitar o ouro estrangeiro, optando novamente pelo seu país e pela cidade a que, há muitos anos, chamava de lar, tornando-se, poucos dias depois, jogador do Sporting. JVP foi vítima das circunstâncias e, conhecendo o Benfica como ninguém, deverá ter agradecido a oportunidade de se libertar do jugo de um louco.

Mas isto são dores de benfiquista; relatos do passado. Agora, as atenções estão centradas em André Carrillo e na sua escolha. As suas razões, para já, não são totalmente claras. Sei que a paixão exacerbada em torno desta questão não permitirá, nos próximos tempos, chegar a nenhuma conclusão racional. Neste período, André Carrillo continuará a ser difamado e ameaçado e, em Alvalade, terá o tratamento dado ao traidores, com um estádio inteiro, de dedo acusador em riste, a apupá-lo – pois, se até a João Vieira Pinto o destino reservou tal momento no regresso à Catedral. Provavelmente, André Carrillo parecerá perturbado, tal como Luís Figo – símbolo leonino e expoente máximo da traição (futebolisticamente falando, que seja claro!) – na primeira visita a Camp Nou vestindo de “blanco”; mas André Carrillo superará o desafio e, tal como nos exemplos anteriores, ocupará no seu novo clube, com naturalidade, a vaga que o seu talento permitir. Só o tempo, que tudo cura, explicará as razões de André Carrillo, tal como, para os benfiquistas, explicou as de João Vieira Pinto, hoje já perdoado. André Carrillo teve a oportunidade de se libertar. As suas razões? Eu não sei… mas desconfio.

Foto de Capa: Facebook de André Carrillo

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