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Não conseguia acompanhar pela televisão, estava a ouvir o relato do jogo pelo rádio. Na altura, com metade da idade que tenho hoje, ansiava por um Benfica campeão que nunca me tinha enchido os olhos. Vitórias do Benfica só as tinha visto no antigo estádio, naquele enorme palco do futebol que foi em tempos o maior da Europa – havia agora um novo, pronto para receber o Euro 2004. O cachecol, esse, era pequeno, decerto feito à minha medida, mas bordado com o vermelho vivo do Benfica, do meu Benfica. Gostava do plantel, gostava de Camacho, gostava de Miklós Fehér. Um benfiquismo que aos poucos se ia instalando cada vez com maior peso mostrou-me o que depois não quis deixar de ver; o que prendeu tantos portugueses à televisão; o que fez com que Tiago, Fernando Aguiar, Miguel e tantos outros levassem as mãos à cabeça, desesperados; aquilo que foi uma morte em directo.

A história é hoje sabida de todos. O dia 25 de Janeiro de 2004, que viria a ser fatídico para o clube da Luz e seus associados, foi o dia mais curto do ano porque morreu cedo demais. Em Guimarães, num jogo mal disputado, sob condições que arrancavam a custo cada corrida, cada respiração, o 29 tombou. Mas o que hoje fica de Fehér não é apenas o derradeiro cartão amarelo, não é apenas o sorriso que pré-anunciou a sua queda última, não são apenas as lágrimas de colegas de equipa, adversários, equipa técnica, dirigentes e adeptos do Benfica e do futebol. Num Janeiro que, 10 anos depois, foi novamente de pesar para a família benfiquista, o que fica de Fehér para quem continua a encher o Estádio da Luz é o que o imortaliza na história mas também no futuro da instituição que representou. Foi ter vestido o manto sagrado, a camisola berrante; foi ter carregado ao peito o emblema do Sport Lisboa e Benfica, que fez do jovem e promissor húngaro um eterno 29. Porque acima do Benfica não está ninguém, mas ao seu lado, ao meu lado, está; a morte de Fehér é a morte de quem no relvado cumpria com o que nós da bancada não podíamos alcançar, é a morte de quem nos dava alegrias, de quem arrancava em uníssono um golo sempre festejado, um golo sempre nosso, com a águia junto ao peito. Um peito que pela águia acabou por ceder e por isso deve sempre ser respeitado.

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Fehér, para sempre recordado Fonte: mikiforever.com.sapo.pt
Fehér, para sempre recordado
Fonte: mikiforever.com.sapo.pt

O que fica de Fehér permite também entender os nossos dias. Em 10 anos, ataques fulminantes em corpos que mais não conseguem lutar pelo esférico continuam a deixar mais pobre o mundo do futebol, a fazer cair atletas cuja paixão vive nos pés e na bola, a roubar aos relvados aqueles que nos fazem vibrar. O futebol é um mundo de estrelas que chegam e partem depressa demais, muitas vezes sem terem dado tudo o que tinham para oferecer. E assim partiu o Miki.

Hoje são 10 os anos que nos separam da partida de Fehér. Hoje, o estádio, que nasceu por essa altura, é mais pequeno e o cachecol que carrego é maior. Do plantel de 2003/2004, apenas Luisão continua a calçar as chuteiras para jogar pelos encarnados. Hoje Eusébio faria 72 anos e hoje joga o Benfica. Continue quem envergue a camisola do glorioso a honrar a história do clube como o fez quem hoje nasceu e hoje partiu, e teremos sempre Cosme Damião ao nosso lado no Estádio da Luz.