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«O empate é um resultado que pode deixar os adeptos algo desiludidos. Mas eu, como treinador, já perdi muitos jogos porque jogando ao ataque e a outra equipa em contra-ataque marca e ganha. (…) Podíamos não ganhar, mas era muito importante não perder.»

(Mário Cagica Oliveira) As ideias são de Giovanni Trapattoni, último treinador campeão no Benfica, antes de Jorge Jesus. Quem me conhece (ou já leu o que escrevi noutras ocasiões) sabe que sempre fui muito crítico com determinadas decisões do treinador português. Hoje, porém, creio que o treinador do Benfica pensou bem o jogo. Soube ser pragmático e cedo percebeu que as circunstâncias de jogo poderiam não lhe ser favoráveis, caso tivesse tomado riscos desmedidos. Ao contrário dos jogos em Paços de Ferreira e no terreno do Rio Ave, Jesus percebeu que um ponto poderia ser um mal menor no jogo em questão. Já diz o velho ditado: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar».

(Francisco Vaz Miranda) Foi ligado ao facto de o empate lhe ser suficiente – pelo menos visto à luz de Jesus – que a equipa do Benfica se apresentou ao longo de todo o encontro. Por demais visível em toda a primeira parte esta retracção e contenção do Benfica – pouco costume na Luz – e que acabaria por tornar a primeira metade num verdadeiro marasmo. A média de uma falta a cada dois minutos neste tempo de jogo é suficiente para se ter a noção do tão pouco e pobre futebol que se jogou.

Surpreendeu Lopetegui ao reforçar o meio-campo (porventura já prevendo um jogo extremamente físico e de contacto) com as entradas de Rúben Neves e Evandro, empurrando Oliver para perto de Eliseu na extrema-direita do ataque portista e Herrera para o banco. Já Jorge Jesus apostou, e uma vez mais incompreensivelmente, em Talisca para o lugar de Salvio. Depois da nulidade que foi em Vila do Conde a jogar na mesma posição, o baiano voltou a rubricar uma exibição tão boa quanto o jogo no seu todo: nula.

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As amarras do jogo de título começaram, pois, a construir-se na primeira parte, em que só ficou um remate de Jackson Martínez por cima da baliza para contar em termos de oportunidades de golo. De resto, faltas, passes perdidos, contactos físicos e bolas pelo ar era tudo aquilo que se via na Luz.  Em certa medida fez, até, lembrar os derbys de Madrid entre o Real e o Atlético. Um Benfica demasiado expectante e sabendo que o empate lhe servia os interesses deixava o Porto ter a bola. Mas longe, sempre bem longe de Júlio César. É esta uma das grandes qualidades deste Benfica e que salta à vista em jogos deste tipo: mesmo sem a posse da bola, o Benfica não se deixa incomodar por isso e, impedindo o adversário de se aproximar com perigo, consegue controlar o jogo a seu gosto.

Jardel fez uma exibição fantástica no clássico Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Jardel fez uma exibição fantástica no clássico
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

(Mário Cagica Oliveira) No segundo tempo, a tendência inverteu-se. O Benfica melhorou e quis procurar com maior vontade a baliza de Helton. Lopetegui percebeu isso e tentou lançar Quaresma para agitar o jogo dos dragões, mas a decisão foi infeliz. O internacional português passou ao lado do jogo e, tal como Hernâni que também entrou no segundo tempo, não conseguiu criar desequilíbrios, nem tão pouco provocar a expulsão do sempre imprevisível Eliseu (já tinha um cartão amarelo).

Já o Benfica, que no primeiro tempo não tinha conseguido exercer domínio no centro do terreno, melhorou substancialmente com a entrada de Fejsa para o lugar do apagadíssimo Talisca. Mais uma exibição miserável do médio/avançado brasileiro, que teima em regredir no seu processo de integração no futebol europeu. No sentido oposto, Fejsa entrou para modificar o jogo encarnado. O trinco sérvio é um dos jogadores mais inteligentes do nosso campeonato e voltou a comprová-lo no encontro de hoje. Irrepreensível no posicionamento, fortíssimo na recuperação de bolas e quase perfeito a ler o jogo. O amarelo que leva hoje – fruto da lógica falta de ritmo de jogo – é um bom exemplo disso mesmo. De resto, pertenceu mesmo o médio sérvio a melhor oportunidade do jogo, com um remate por cima da baliza, muito semelhante ao de Jackson Martínez no primeiro tempo.

O empate neste clássico acaba por se ajustar ao que ambas as equipas procuram produzir durante os 90 minutos. Os dragões foram melhores no primeiro tempo e os encarnados no segundo, sendo que as duas melhores ocasiões de golo foram repartidas por ambas as equipas. Tendo em conta a classificação atual e os jogos que faltam até final, parece-me claro que o Benfica tem, neste momento, 85% de possibilidades de renovar o título de campeão nacional.  Para o FC Porto, caso se confirme mais uma época a zeros em termos de títulos, é um enorme rombo no investimento e expectativas criadas para esta temporada 2014/15.

A Figura:

Jardel –  Um jogo perfeito do defesa-central do Benfica. Nem um erro e sempre muito certinho nas abordagens aos lances do adversário. É um guerreiro, um jogador com excelentes atributos físicos e, acima de tudo, um verdadeiro jogador de equipa. Hoje, depois do amarelo a Eliseu, fartou-se de dar indicações e fazer dobras ao colega do lado esquerdo da defesa encarnada. Quem o viu e quem o vê. Está feito um senhor central. Menções honrosas também para Samaris, Maxi Pereira e Fejsa. Quatro patinhos feios que demonstram bem que o futebol é muito mais do que apenas talento individual. (Mário Cagica Oliveira) 

O Fora-de-jogo:

Abordagem de Jorge Jesus ao jogo – Não consigo encaixar a filosofia de Trapattoni neste jogo. Um Porto combalido da humilhação de Munique não podia, de maneira alguma, ser temido da maneira como foi. O Benfica podia ter acabado com o campeonato hoje e não o fez por demérito próprio. Não obstante isto, é notável a organização defensiva de nível mundial do Benfica que Jesus construiu. (Francisco Vaz Miranda) 

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica