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20 anos do regresso à Europa | SL Benfica

Pedro Cantoneiro · 7 min

José Antonio Camacho, treinador do SL Benfica
Foto: UEFA

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Benfica

Quão delirante é, numa destas pachorrentas tardes do Verão 2023, imaginar um Benfica sem competições europeias durante um ano inteiro? O que por agora parece um pesadelo que obriga a sobressaltado acordar, foi uma realidade em apenas quatro temporadas na história do clube, dividindo-se por dois períodos. Se de 1958 a 1960 ainda não havia o hábito de competição europeia no futebol português – nem haviam ainda múltiplas vagas para troféus secundários –, o definhar entre Outubro de 2000 e Agosto de 2003 foi o cúmulo da pior fase da história do clube, o fundo dum poço popularmente denominado como o ‘Vietname’ encarnado. Faz agora 20 anos.

Entre essa eliminação aos pés do Halmstads, uns suecos que vieram à Luz empatar 2-2 para eliminar aquele Benfica treinado por Mourinho, e o jogo da pré-eliminatória da Liga dos Campeões ganha pelo Futebol Clube do Porto, demoraram-se três looongos anos de futebol nacional sem qualquer outro estímulo competitivo.

A derrocada de 2000-01, o 6.º lugar da pior classificação de sempre, levou a que pela primeira vez em 40 anos não se recebessem na Luz grupos estrangeiros. Tamanho trambolhão obrigou a que 2001-02 fosse época de recuperação, só sendo possível subir dois ligeiros degraus para o quarto lugar, curtinho numa altura em que o futebol português andava em baixa e só conseguia colocar três equipas na UEFA.

Toni, que substitui Mourinho e que manchou a sua imagem com o sexto lugar, consegue essa melhoria e deixa depois a equipa para o seu adjunto, que já o fora em 1993-94, quando ganhara o último campeonato do Benfica antes de 2005: Jesualdo Ferreira. É ele que prepara 2002-03, mas sem grandes efeitos práticos de progresso, apesar de quatro vitórias consecutivas a abrir o campeonato. Depois disso, quatro jogos sem ganhar, de 28 de Setembro a 26 de Outubro.

Duas derrotas (na Madeira com o Nacional e nas Antas) e dois empates, com o Vitória sadino e a Académica. Série mortífera que teria continuação já em Novembro, quando se vai à Póvoa do Varzim perder 2-1 e a meio da semana se é eliminado em casa por uma bomba a 30 metros autoria de Cílio Souza, um brasileiro que era uma das figuras dum Gondomar a disputar a 2.ª divisão B, o equivalente à Liga 3.

José Antonio Camacho

Lenda merengue dos anos 80, passou do relvado ao banco e é ele quem lidera a Roja no Europeu do Benelux e no Mundial da Coreia em 2002, nas duas competições ficando-se pelos Quartos – numa foi naturalmente subjugado pela França, noutra vítima duns Sul Coreanos levados às cavalitas torneio fora até às Meias, à sua custa e da Itália (de Trappatoni, que curiosamente é quem o substitui na Luz).

Falhando consecutivamente, sentiu que era hora de outras aventuras. Habituado à pressão inerente dum Real Madrid, sorri quando o Benfica o aborda. A equivalência histórica entre os clubes justificava a mudança, o lamentável estado desportivo e financeiro das Águias tornava-se motivação acrescida.

Além disso lhe proporcionar margem de manobra para se impor inteiramente como homem de projecto, fazia-o num grande europeu: e se conseguisse acordar um Benfica, revalidava créditos perante a sua gente. Assina nesse final de Novembro e é da bancada que vê Fernando Chalana a descobrir em Miguel um lateral direito de excelência, numa vitória confortável contra o Braga (3-0).

O líder hermano começa bem: 3-1 ao Gil Vicente e na semana seguinte esperava-o Alvalade, para o último derby daquele coliseu. O Sporting era campeão em título, tinha João Vieira Pinto, Jardel, Quaresma, Pedro Barbosa e imberbe Cristiano Ronaldo, mas o Benfica chegou lá e não precisou de grandes artifícios para construir um 0-2 confortável.

Impacto imediato e os meses seguintes confirmaram o sucesso previsível desse casamento entre Camacho e o Benfica: numa altura em que as Águias tinham dificuldades em encontrar local para treinar, dadas as obras do novo Estádio, o plantel arregaçou a confiança, inspirou-se no enérgico carisma do seu líder e foi ganhando às pazadas.

Foram 16 vitórias e quatro empates nas 22 jornadas até final, onde se marcaram 46 golos (29 deles fora de casa!) e só se perdeu com o FC Porto, futuro vencedor da Taça UEFA, e o Sporting, numa altura em que já pouco havia a decidir sobre quem regressava à Europa. Aliás, na jornada seguinte, a 31.ª, o Benfica vai ao Restelo dar 2-4 em grande estilo, numa grande demonstração da capacidade daquele onze em jogar no contra-ataque.

Dois dias depois, o Sporting recebia o União leiriense em casa, precisando obrigatoriamente de ganhar. Helton, o tal que depois fez história no FC Porto, tinha sido contratado ao Vasco da Gama – onde fora campeão e, fruto disso, chegado à Selecção Olímpica – e tornou-se naquele dia um activista da causa encarnada, defendendo tudo o que havia para defender. Quase tudo, pelo menos.

Três anos depois, o Benfica voltava às lides continentais pela porta grande. O segundo lugar dava direito à 3.ª pré-eliminatória, o último passo antes da Fase de Grupos, e duma assombrada gôndola na qual tropeçavam bolinhas a dizer Deportivo, Chelsea, Newcastle, Borussia Dortmund, Ajax ou Lazio, saíram os últimos. Que por acaso tinham vencido a Taça das Taças em 1999 e arrecadado o Scudetto de 2000, com Eriksson a ter Mancini como braço-direito  – o sueco saiu depois para treinar a Selecção inglesa e o antigo fantasista italiano ascendeu na hierarquia.

Em 2002-03, tinha feito top4 na Serie A e meia-final da Taça UEFA, até chegar às Antas e ser taticamente aniquilado por Mourinho (4-1). Má noite que preconizava já a queda acentuada daquela equipa na segunda metade da década. Mas aquele Benfica já não sabia sequer o que era jogar numa noite assim e a Lazio era ainda um fabuloso conjunto de jogadores.

Mancini no banco, Peruzzi, Mihajlovic, Fernando Couto, Claudio Lopez, Stankovic, Albertini, Sérgio Conceição ou Corradi. Logicamente, a diferença individual eliminou desde cedo todas as dúvidas quanto ao desfecho da eliminatória. Deu 3-1 em Roma, 0-1 no Bessa – pelas obras na Luz – mas para se provar o ponto anteriormente feito, é atentar no que se passou a seguir: último lugar no Grupo G, onde calharam com Chelsea, Sparta de Praga e Besiktas. Aquela Lazio, que ganhou um jogo em seis, esforçou-se mais internamente e conseguiu sexto lugar mais a Taça em 2003-04.  

Camacho percebeu desde logo o longo caminho a percorrer. «Era suposto a Lazio dar mais de si para ganhar este jogo. O Benfica ajudou-os cometendo uma data de erros devido à inexperiência. Complicámos a nossa vida para a segunda mão, agora tudo será mais difícil. Ainda assim, conseguimos causar alguns problemas» dizia aos microfones da UEFA, antevendo a evolução encarnada e exigindo para si e para a equipa a paciência dos adeptos.

O caminho fazia-se devagar, a ritmo lento, mas certo, daí que não havia lugar a ilusões desmedidas ou ambições irrealistas. Importante era ganhar experiência, dotar a equipa de resiliência e estofo necessários para competir com os melhores, consistentemente.

Caídos na Taça UEFA, o técnico espanhol mostrou que essa era a postura mais acertada. O Benfica caminhou até aos Oitavos de final, deixando pelo caminho os belgas do La Louviére, os noruegueses do Molde e do Rosenborg e caindo só aos pés do Inter de Milão, já no final de Março – a última vez que o Benfica se tinha aguentado na Europa até à Primavera? 1996-97, há sete anos. Corte total com o passado recente.

Num grande final de temporada em 2004, José Antonio Camacho repete a qualificação para a Liga dos Campeões num sprint inacreditável, ultrapassando o Sporting em cima da meta (33.ª jornada) com uma vitória em Alvalade e ganha a Taça de Portugal ao FC Porto que seria campeão europeu uma semana depois.

O troféu validou o trabalho fantástico dum grupo que tinha conseguido sair das trevas – das classificações humilhantes e da catástrofe psicológica que foi a despedida de Miklos Féher. Aquela Taça é o primeiro troféu desde 1996 e é o principal marco da recuperação institucional do Benfica.

Tamanho feito só seria possível graças à liderança do treinador espanhol, que pôs ao dispor do clube todo o seu conhecimento e espírito de compromisso para levantar a Águia. Foi Camacho quem lhe ajeitou a asa, a meteu no antebraço e lhe deu a oportunidade de voltar a voar. Tão exuberantemente o fez que de Madrid, a precisarem de mãos firmes para controlarem uns desleixados Galácticos, veio convite de regresso.

E Camacho, protótipo exemplar do honesto e digno homem de trabalho que tem sempre coragem para assumir as prioridades do seu coração, voltou…

Pedro Cantoneiro

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