Terceiro Anel

O tema deste artigo, como sempre, é a equipa de futebol do Benfica; mas, se me dão licença, quero fazer um pequeno preâmbulo sobre automóveis. E isto porque me sinto na necessidade de desabafar uma coisa convosco: tenho pena de o meu carro não ter seis velocidades, mas em compensação espero que o meu lindo Benfica meta a sexta – que é como quem diz, espero que obtenha a sexta vitória consecutiva diante do Sporting, em casa, para jogos do campeonato!

Porém, antes de entrar a fundo no meu baú de recordações, queria já elucidar os leitores dos seguintes dados: o Sporting não vence no Estádio da Luz desde o dia 28 de Janeiro de 2006! Ou seja, da última vez que o Sporting venceu o jogo pelo qual suspira durante todo o ano, eu ainda tinha 17 anos (e, sim, estou a ficar velho); da última vez que o Sporting venceu na Luz, o Engenheiro José Sócrates era um Primeiro-Ministro aclamado no nosso país; da última vez que o Sporting venceu na Luz, havia pouco desemprego em Portugal; da última vez que o Sporting venceu na Luz, Luís Figo ainda jogava na selecção nacional; da última vez que o Sporting venceu na Luz, Cavaco Silva ainda não tinha sido empossado como Presidente da República; da última vez que o Sporting venceu na Luz, eu ainda achava que ia ser bom futebolista.

Posto isto, e como tive de sair de casa, tive de elaborar o resto do artigo enquanto viajava de carro. Veículo a iniciar o andamento; como tal, a principiar a marcha com a primeira velocidade metida. E onde é que a primeira me levou? Pois bem, levou-me até ao dia 27 de Setembro de 2008, para um Benfica 2-0 Sporting, em jogo a contar para a 4ª jornada do campeonato. Com 60 mil nas bancadas, e após uma 1ª parte equilibrada, os pupilos orientados por Quique Flores (que treinador medonho…) arrancam uma 2ª parte de raiva, chegando à vitória com um petardo de Reyes e com um cabeceamento fulminante de Sidnei. E a cereja no topo do bolo, qual foi? Foi ver um Carlos Martins possuído, festejando o segundo golo como se não houvesse amanhã.

Contudo, mal aumentou um pouco a velocidade, teve de se recorrer à segunda mudança. E sendo assim, fui parar a uma noite chuvosa, com estádio cheio. Dia 13 de Abril de 2010, 26ª jornada, a minha pessoa colada ao ecrã. Benfica preso de movimentos no primeiro tempo, acusando a pressão de um jogo que quase nos colocava às portas do título. Na segunda parte, o espectáculo foi grandioso. O Sporting nem saiu lá de trás, Cardozo inaugurou o marcador e depois… bem, depois um momento emocionante: Aimar, esse Deus, correu quase todo um meio-campo, com a bola coladinha ao pé, passou Rui Patrício e fez o 2-0. Mal marcou virou-se para a bancada, enquanto beijava o emblema do Benfica. Um homem também chora, e este é daqueles momentos que tenho dificuldade em rever, porque sei que as marotas das lágrimas podem aparecer.

Aimar levou a Luz à loucura com um golo inesquecível, em 2009/2010 Fonte: Mais Futebol
Aimar levou a Luz à loucura com um golo inesquecível, em 2009/2010
Fonte: Maisfutebol

Com estas lembranças, o carro lá começou, desesperado, a pedir mais um movimento no manípulo. Terceira posta, velocímetro a marcar 55 km/h, e eu em 2010/2011. Estávamos na 5ª jornada do campeonato, éramos os campeões nacionais, mas tínhamos começado horrivelmente a prova. Aquele Benfica vs Sporting era uma prova de fogo para o Benfica e para Jorge Jesus, já muito contestado. Talvez daí, o Benfica lá sacou um jogo de alto nível, com Cardozo a fazer miséria, marcando os dois golos do maior de Portugal, e tendo mais oportunidades nos pés. Vitória sem espinhas, Estádio da Luz a reconciliar-se com a equipa.

De seguida, entrei na auto-estrada, e, como tal, tive de colocar a quarta velocidade. E assim, lá estava eu no dia 26 de Novembro de 2011, num Estádio da Luz a abarrotar, 11ª jornada do campeonato. Um competente Sporting, na altura a atravessar uma grande fase, criou-nos problemas, mas, com muito empenho e sacrifício, ainda para mais depois da expulsão de Cardozo, o Benfica atingiu a vitória. Javi Garcia, poucos minutos antes do intervalo, marcou o único golo do jogo, fazendo explodir o inferno da Luz.

Mas não deu para andar durante muito tempo em quarta, e como tal foi uma questão de segundos até se chegar à quinta velocidade. E eis a minha pessoa no dia 21 de Abril de 2013, domingo com tempo fantástico, ambiente de festa na catedral. Num jogo muito disputado, o Benfica voltou a vencer o rival lisboeta, somando assim cinco vitórias consecutivas na Luz defronte do Sporting! Com um resultado final de 2-0, o Benfica contribuía assim para aumentar o tormento leonino, que resultaria num inacreditável 7º lugar. Porém, quando se fala deste jogo não há como esquecer aquele fabuloso segundo golo, no qual Gaitán e Lima pintaram uma tela digna de Van Gogh.

Quando dei por mim, e no auge da minha emoção por tanta recordação boa, tinha o motor a emitir ruídos elevados, pedindo afincadamente a sexta mudança. O problema é que o meu soberbo veículo não a tem, mas eu sei o que o Benfica, no próximo domingo, se encarregará de a meter, levando assim à loucura milhões e milhões de adeptos.

Boa sorte, Sport Lisboa e Benfica.

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