Como amantes de desporto, todos desesperamos quando as super-estrelas das equipas que apoiamos ficam “fora de combate” por lesão. E todos sem excepção fazemos sempre as mesmas perguntas: “E agora quanto tempo é que ele vai ficar sem jogar?! Isto é coisa para passar rápido ou vamos ter que ir ao mercado buscar alguém para o lugar dele? E vai voltar a jogar ao mesmo nível?”.

Ora, o Bola na Rede resolveu chegar-se à frente para responder a estas questões de uma forma simples e clara, para que os verdadeiros amantes do desporto não sustenham mais a respiração durante meses enquanto o jogador não joga, desconhecendo realmente o que o está a fazer ficar “no estaleiro”. E começamos imediatamente por um jogador determinante para os títulos dos últimos anos no Sport Lisboa e Benfica: Eduardo Salvio.

Começando por enquadrar a lesão, o Eduardo Salvio fez uma entorse no joelho direito da qual resultou uma rotura do ligamento cruzado anterior, que explicamos em seguida.

O joelho é uma estrutura com várias funções: de suporte, de mobilidade, de estabilidade e sensorial. Sendo assim, capta e transmite informações proprioceptivas relativas à locomoção, aos movimentos e às diferentes funções nas variadas posturas. É capaz de distribuir e suportar cargas externas e internas, de forma a garantir o equilíbrio biomecânico do alinhamento de todo o corpo, e tem sido considerada a mais complexa articulação do corpo humano, pois tem um binómio estabilidade/mobilidade inerente ao seu complexo articular como poucas articulações do corpo. Serve também por isso como “pivô” entre a anca e o tornozelo, distribuindo forças provocadas pelos dois.

Para isso o joelho tem diversos ligamentos, sendo os ligamentos cruzados os mais importantes. Tem origem na porção antero-interna do planalto tibial, dirigindo-se depois para o limite superior e posterior do côndilo femoral externo, ou, de uma forma simples, está por “dentro do joelho” e vem da parte anterior e interior do planalto tibial para a parte posterior e externa do côndilo do fémur. Constituído por dois feixes, é um ligamento extremamente complexo, que, além de garantir estabilidade mecânica ao longo de toda a amplitude de movimento, possui também um papel sensorial importantíssimo, contribuindo para a resposta muscular (regulação e reprogramação da activação muscular) à volta da articulação do joelho e regulando assim a estabilidade articular. Podemos por isso concluir que o ligamento cruzado anterior (LCA) forma então a primeira “barreira” de estabilidade e tem uma resposta proprioceptiva altamente eficaz, sendo essencial na estabilidade do mesmo.

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Salvio caminha para a recuperação da lesão Fonte: Instagram de Eduardo Salvio
Salvio caminha para a recuperação da lesão
Fonte: Instagram Oficial de Eduardo Salvio

Aquando de uma lesão do LCA, além de toda a estabilidade mecânica se perder com a rotura das fibras do mesmo, existe também um distúrbio do feedback sensorial da articulação, levando a uma alteração do programa motor e consequente instabilidade. Esta lesão é também a lesão ligamentar mais comum na articulação do joelho, sendo que 70% destas ocorrem de forma não traumática e 70% em actividades desportivas. De uma forma simplista, a lesão do LCA ocorre quando o stress sobre o ligamento excede a sua capacidade de alongamento/tensão, sendo o movimento comum uma rotação do joelho com o pé fixo no solo (rotação interna do fémur com rotação externa da tíbia). Falando do Salvio, lembra-se da lesão na época de 2013/2014 no dérbi Sporting-Benfica em Alvalade? É exactamente esse tipo de movimento.

Em termos de tratamento, existem dois tipos de abordagem: tratamento conservador (mais comum em roturas parciais e raro em casos de rotura total, mas ponderados devido à idade, estado do paciente e etc.) e tratamento cirúrgico (usual em casos de rotura total). Dado o caso, falaremos do tratamento cirúrgico. Em termos cirúrgicos, a via cirúrgica mais utilizada actualmente pela medicina moderna é a via artroscópica, comummente vista como “os furinhos” ou canais que o cirurgião faz, realizando a maior parte da cirurgia preservando a articulação através de uma câmara que penetra num dos canais. Aqui, o cirurgião, para recriar o ligamento que sofreu a lesão, vai utilizar duas estruturas ligamentares: ou um excerto do tendão rotuliano (o tendão por baixo da rótula) ou um excerto do semitendinoso (um músculo dos tão conhecidos isquiotibiais) – por norma, e no caso do Salvio, no caso de desportistas, o tendão utilizado é o do rotuliano, pois até então é o que apresenta maior estabilidade e resultados.

A pergunta óbvia que lhe deve estar a passar pela cabeça é certamente: “Como é possível um tendão de um músculo substituir da mesma forma um ligamento tão importante?”. E a resposta a essa pergunta é que, realmente, não pode substituir, mas pode adquirir certas particularidades (como vascularização e filamentos nervosos) que o vão tornar similar ao ligamento original. Daí ser importante o tempo de reabilitação: só após os três meses de pós-cirúrgico é que o neo-ligamento vai começar a sua transformação, o que faz com que o joelho, apesar de já mais estável pela amplitude e pela massa muscular recuperadas durante a fisioterapia, não esteja totalmente seguro.

Quanto tempo demora então a reabilitação de tão complexa intervenção? A medicina está constantemente em evolução e, se há não tanto tempo atrás se julgava que a partir dos três/quatro meses se estava perante um timing óptimo para voltar à actividade desportiva, actualmente evolui-se dos cinco/seis meses para uns longos oito/nove meses. E há médicos, sendo um deles o “pai” deste género de intervenções, que apenas dão luz verde ao jogador para voltar à competição a partir dos 12 meses de pós-cirúrgicos. Estes timings devem-se sobretudo à capacidade de não só o músculo mas também o ligamento aguentarem de uma forma estável as cargas extremas que vão ser aplicadas aos mesmos durante a competição, pensando também que, quanto mais saudável estiver o ligamento, menos hipótese de artrose precoce e nova lesão tem o jogador.

Salvio está afastado dos relvados há vários meses Fonte: Instagram Oficial de Eduardo Salvio
Salvio está afastado dos relvados há vários meses
Fonte: Instagram Oficial de Eduardo Salvio

Retornando um bocadinho ao caso particular do jogador em questão, decerto se recorda de que referi há umas linhas atrás uma lesão que não foi a lesão que ocorreu na última época… A questão por detrás de tamanhos cuidados com a recuperação do Eduardo Salvio prende-se exactamente com a questão de ser uma recidiva, ou seja, uma nova rotura de um ligamento que já tinha sofrido uma intervenção anteriormente. Este facto pode ter sido provocado por diversas razões, a maior parte delas até biológica e fisiológica, mas requer automaticamente maiores cuidados pois é um joelho que já sofreu uma reconstrução ligamentar complexa anteriormente e está decerto “sensível”. Daí o jogador ter sofrido uma intervenção cirúrgica duas vezes desta vez, tendo a primeira cirurgia sido feita numa perspectiva de “limpar” a anterior inserção do ligamento reconstruído e desta forma tentar aumentar a aderência do novo ligamento e tendo a segunda cirurgia sido para realizar a nova ligamentoplastia.

Assim, é depois importantíssimo obviamente seguir com a fisioterapia, durante os timings citados em cima, com o objectivo de ganhar novamente as amplitudes e força, e com isso garantir que o nível físico volta ao máximo em que se encontrava anteriormente. Note-se, a título de curiosidade, que um dos maiores especialistas de joelhos a nível mundial (e português) realizou um estudo onde se afirma que, após a primeira intervenção, o nível técnico (diferente de nível físico) dos jogadores baixa para 97% devido a inúmeros factores, e que após novas intervenções vai descendo gradualmente e de forma mais acentuada.

Esperamos obviamente que não seja o que suceda com o Salvio e que ele volte rapidamente a espalhar magia nos relvados portugueses e traga ainda mais classe a um campeonato que por si só está cada vez mais competitivo e intenso.

Foto de Capa: Sport Lisboa e Benfica