Está confirmada a saída de um dos grandes responsáveis pelo sucesso recente do Sport Lisboa e Benfica: ao fim de dez anos, José Boto termina a sua ligação com o clube e abraça um novo desafio na Ucrânia, no Football Club Shakhtar Donetsk, onde irá trabalhar de perto com o treinador português Paulo Fonseca.

Quando se fala de José Boto, fala-se de competência, de visão e de entendimento do que é o jogo e de onde um determinado jogador poder-se-á encaixar. Para quem não conhece o profissional em questão, este trata-se do ex-Chief Scout do SL Benfica, ou seja, era quem estava responsável por toda a secção de Observação e Recrutamento do clube.

Tal como falado anteriormente num artigo sobre o Mundo do Scouting, o Futebol atravessa uma fase onde as redes de Observação e Recrutamento dos clubes tornam-se essenciais e são cada vez mais consideradas como o grande catalisador para o sucesso. É este departamento que busca soluções para as necessidades de uma equipa segundo determinados parâmetros, como as características de um certo jogador encaixadas num sistema táctico ou modelo de jogo, sendo igualmente responsável pelo recrutamento de jovens jogadores ainda em fases de iniciação e pela observação de adversários, fornecendo relatórios às equipas técnicas com informações sobre como os adversários se comportam em campo, que sistemas tácticos utilizam e quais os seus jogadores-chave.

Como abordado no parágrafo anterior, o Scouting possui várias vertentes, no entanto, foi precisamente através da vertente da observação e recrutamento de jogadores profissionais (ou jogadores já em fase terminal da sua Formação) onde José Boto mais se destacou. Cada decisão que tomou, influenciou sobremaneira o destino do clube e teve um peso enorme no seu sucesso.

Axel Witsel foi um dos jogadores descobertos por José Boto que mais rentabilidade trouxe ao SL Benfica, tanto desportiva como financeiramente
Fonte: SL Benfica

Jan Oblak, Axel Witsel, Rodrigo Moreno, Nemanja Matić, Lazar Marković, Ljubomir Fejsa, Victor Lindelöf, Álex Grimaldo ou Andrija Živković foram vários nomes que José Boto descobriu, indicou e ajudou a trazer para o SL Benfica, ao longo dos últimos dez anos. Logicamente que alguns deles já estariam nos blocos de notas de outros scouts, no entanto, a visão de que estes jogadores poderiam vir, acrescentar valor no plano desportivo e, mais tarde, serem rentabilizados em dezenas de milhões de Euros foi, essencialmente, de José Boto. É de conhecimento público que o SL Benfica tem sido um clube vendedor, pelo que a estratégia passa por encontrar activos que possam fazer a diferença dentro de campo, ajudando o clube nas suas conquistas e, ao mesmo tempo, valorizando-se e tornando-se em alvos apetecíveis para os tubarões europeus.

Mas, antes de pensar no plano financeiro, há que pensar no plano desportivo, pois só assim é que os jogadores poderão tornar-se rentáveis. Na sua mensagem de despedida, Boto dizia que “o que faz a verdadeira diferença entre os jogadores é a capacidade técnica, a inteligência e a forma como um jogador toma decisões em campo”. Este foi o pensamento que ajudou ao sucesso e era este tipo de pensamento que gostava de continuar a ver no SL Benfica.

A solução que tem vindo a ser veiculada pela Imprensa é que a Estrutura tem pensado numa empresa externa – uma espécie de outsourcing – para substituir o ex-Chief Scout. Ora, a meu ver, esta solução não se aproximaria em nada à qualidade do trabalho deixado por Boto, uma vez que iriamos trocar uma forma de pensar e ver o jogo por uma prestadora de serviços que não iria ter a mesma sensibilidade no momento da escolha.

A sensação que me dá, é que esta questão está a ser tratada com alguma leviandade por parte da Direcção, sendo vista como um “mal menor”. Foram vários os sócios que, na Assembleia Geral do passado dia 11 de Junho, demonstraram a sua preocupação com esta saída, não tendo havido em algum momento uma palavra de tranquilização por parte da Direcção.

Este não pode ser considerado um “mal menor”, pois trata-se da perda de um profissional de excelência. Arrisco-me a dizer, sem qualquer incerteza, que José Boto é o melhor a nível nacional na sua função. E como é que se substituem os melhores? É certo que é difícil, mas o caminho a seguir deveria ser o mesmo que trouxe este profissional ao SL Benfica: olhar para o factor diferenciador, apostar em quem não só observa como entende o jogo e, acima de tudo, apostar no gosto com que se trabalha.

Para finalizar, temos de agradecer a José Boto por tudo isto. Que tenha todo o sucesso do Mundo neste novo projecto.

 

Foto de Capa: FC Shakhtar Donetsk

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