A história de Bruno Costa Carvalho, como outro pólo de ideias da esfera presidencial do SL Benfica, começou em 2009, quando representou a oposição nas eleições do clube. O resultado final – uma vitória de Luís Filipe Vieira com 91,74% dos votos – foi experiência com a qual aprendeu.

A ousadia de apresentar candidatura a bordo de um avião ou a hipótese de Carlos Azenha, como técnico para a equipa principal, foram tiros ao lado, que o próprio argumentou serem sinal de coragem: coragem de arriscar antes ou fora do tempo, que o deixaram exposto aos Ovos de Colombo da crítica fácil.

A consciência da lírica apelativa e a variedade das experiências a nível profissional entregam-lhe mediatismo. O nome do meio previne associações e comparações com quem considera ser «um louco», ressalvando nesse processo de distanciamento o benfiquismo exacerbado com o qual comanda a sua vida: um amor de sempre e a filiação desde 2002 que gosta de vincar, ainda que tenha sido essa data uma das razões para ter sido um alvo, ultimamente.

Quando, em 2010, foram aprovados os novos estatutos, aumentando o requisito mínimo das candidaturas de cinco anos como sócio para… 25, puseram-no fora da roda. Reagiu, afirmando ser exercício em confronto com os valores da fundação: «a aprovação de uns estatutos do clube completamente esdrúxulos e que em nada prestigiam a história, profundamente democrática, do clube», exasperava em 2016.

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Agora, com pretensões de ser voz activa e opção credível na corrida a três do próximo Outubro, desvaloriza quem lhe aponta a falta de condições para validar a candidatura final, rematando a problemática suavemente, afirmando: «Os estatutos não falam disso. Mas quem já foi candidato, tem essa prerrogativa. Imaginem que tinha ganho as eleições, não me podia candidatar depois? Não quero ser eliminado na secretaria», aludindo também à polémica do número de sócio de Luís Filipe Vieira, desconhecido até hoje.

Fundador do Porto Canal – antes de qualquer ligação ao FC Porto – e da Palanca TV, teve na Rádio Estádio o seu último grande projecto, que, apesar das inovações ao nível do conteúdo, acabou por falir
Fonte: Facebook de Bruno Costa Carvalho

Foi no último 26 de Maio que, pelas 11h, comunicou no seu Facebook a intenção em suceder ao líder máximo do clube, significando isso o final de um período de reflexão, onde o silêncio não significou desatenção. «Não foram estes dois ou três meses de confinamento que me fizeram esquecer as múltiplas e diversas trapalhadas em que o Benfica esteve metido. Vi uma OPA sem explicação, vi problemas com um assessor de administração, vi negócios de que não gostei, vi um sem número de problemas que gostaria que estivessem longe do meu clube», continuando o comunicado ao ressalvar a sua preocupação com o prestígio europeu do clube, depois das recentes prestações menos convincentes.

«Vi, sobretudo, um clube que não percebe que está a ponto de ser relegado, de forma definitiva, para uma segunda divisão europeia, sem qualquer capacidade de reacção, parecendo os dirigentes mais interessados em cifrões do que na grandeza desportiva do clube que lideram», enquanto aproveitava a onda para surfar sobre Rui Gomes da Silva, ironizando que se «a única alternativa que existe a este estado de coisas é um candidato que tem a grande qualidade de ser inequivocamente Benfiquista, mas que se esqueceu que esteve com o actual Presidente durante uma década e é conivente com tudo o que se passa», alguém com quem considera ter «posições inconciliáveis», então a «única coisa lúcida a fazer é avançar para uma candidatura à Presidência do Sport Lisboa e Benfica».

Uma das suas maiores preocupações prende-se com a decadência europeia. O Benfica não avança para os oitavos da prova milionária desde 2016-17 e a Superliga Europeia é uma ameaça a curto prazo, sendo inimaginável a ausência da prova. «O Benfica não pode ficar de fora, eu não tolero que o Benfica fique de fora. Ou somos ambiciosos agora ou… Corremos o risco de não participar e isso seria imperdoável», disse ao podcast Benfica FM, em Janeiro de 2019. As eliminações frente ao Eintracht Frankfurt e FK Shakhtar Donetsk só pronunciaram esse receio, que o levaram à primeira promessa eleitoral – o regresso de José Boto.

Head Scout dos ucranianos supracitados, é uma referência mundial na sua área e representou o SL Benfica de 2007 a 2018, encabeçando responsabilidades em muitas das contratações que deram certo na Luz.

Bruno utilizou mais uma vez o Facebook: «Um dos principais objectivos da minha candidatura é a construção de um Benfica muito forte na Europa. Um Benfica inquestionável numa Superliga ou em qualquer outra competição liderante na Europa. (…) Um dos pilares da construção de uma grande equipa é um grande scouting. Encontrar os melhores talentos do mundo sem ter de gastar grandes fortunas. (…) É nesse sentido que, se for Presidente do Benfica, promoverei o rápido regresso de José Boto ao Benfica (…) Não falei com ele nem preciso. Sei que terei argumentos para o trazer de volta.», lembrando também as circunstâncias da saída do scout português de 56 anos rumo à Ucrânia, fruto da sua ambição em trabalhar num clube com «ideias parecidas às suas»…

Outra das grandes medidas a impor, para já, parece ser a criação de uma delegação da Benfica TV no Norte do país, de onde é natural e «onde vivem milhões de benfiquistas que sentem o clube com toda a intensidade», depois de considerar que a televisão do clube «está completamente fechada a alguém que tenha uma opinião diferente da oficial», exigindo tempo de antena no principal órgão de difusão do universo encarnado.

Com a saída de Luís Nazaré da presidência da mesa da Assembleia Geral, ficou surpreendido. Admirava-o, considerando que «desempenhou o cargo com grande dignidade» e alguém por quem tinha (e tem) «máximo respeito». Considerava que «sem ele, as AG se convertiam no faroeste» e aproveitou a ocasião para apontar ao seu sucessor, Duque Vieira, inúmeras críticas: «É uma pessoa não democrática. Em certa AG, não gostava do que estava a dizer. Censurou-me a mim e a outros sócios. Tocava a corneta quando não queria que as pessoas falassem. (…) Tê-lo na presidência da Assembleia Geral é uma catástrofe».

Bruno Costa Carvalho tem cinco meses para cimentar posições, aumentar o leque de promessas e aproximar-se de notáveis que o ajudem a catapultar o projecto para outro patamar. Uma oposição forte será sempre bem-vinda, assim como a discussão saudável de ideias que ajudem a tornar o Benfica num clube mais forte. Na democracia que sempre privilegiou, o clube destacou-se em tempos de Estado Novo pela liberdade de escolha e opinião que permitia aos seus associados. Com a corrida a três do próximo Outubro, urge revitalizar esses valores e reviver tempos onde todos possam ter a palavra.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

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