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Bruno Fernandes: Uma visão benfiquista

Gonçalo Batista · 4 min

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Em semana de dérbi, tenho perante mim um desafio diferente do habitual. Um desafio que para muitos benfiquistas “ferrenhos” seria impensável, um desafio que se deveria tornar um exercício mais normal: escrever, elogiosamente, sobre um jogador do rival (neste caso o Sporting).

Confesso que dediquei muito pouco tempo à escolha do jogador, pois pareceu-me absolutamente óbvia, tanto pelo que já fez pelo clube como pela sua qualidade pura: Bruno Fernandes.

Voltando atrás no tempo, até ao dia em que Bruno foi apresentado como jogador do Sporting Clube de Portugal, desde logo percebi que seria uma excelente contratação por parte do clube leonino, mas dificilmente esperava que tivesse tamanho sucesso.

Nos primeiros jogos com a camisola verde e branca Bruno Fernandes demonstrou ser um jogador com muita qualidade, mas seria no jogo frente ao Vitória SC que o camisola 8 se daria a conhecer a todo o país. Um fantástico volley fora da área e um remate teleguiado a 40 metros da baliza coroaram uma exibição a roçar a perfeição do médio português. Um autêntico recital de Bruno Fernandes, que dava assim indicações de ser um fora de série.

Nesta época, seguiram-se variadíssimas exibições de qualidade, que resultaram em mais 14 golos, muitos deles fantásticos, incluído os remates incríveis frente a Portimonense SC e GD Estoril Praia. Apesar da campanha mediana no campeonato, a equipa verde e branca conseguiu alcançar a final da Taça de Portugal, na qual defrontaria o Clube Desportivo das Aves.

Contudo, dias antes (15 de maio) da final do Jamor, iria ter lugar um dos acontecimentos mais tristes da história do Sporting CP e do futebol nacional: a invasão a Alcochete.

Mesmo como adepto rival, este dia deixou em mim uma sensação estranha, um misto de solidariedade e medo. Ver jogadores de futebol, figuras que achamos ser quase intocáveis e “imaginárias”, correrem perigo daquela forma foi algo ao qual nunca pensei assistir em Portugal. Para todos os amantes do futebol era triste ver tamanha instituição ferida daquela forma. Dias depois a hecatombe tornar-se-ia ainda maior com a perda da Taça de Portugal, frente ao Desportivo das Aves.

Naquele dia a equipa leonina nunca teria hipóteses, os seus jogadores e treinadores nunca chegaram a entrar realmente em campo, nem sequer mereciam ter sido “obrigados” a fazê-lo.

No entanto, o fatídico dia de 15 de maio teria implicações muito mais profundas no clube do que apenas a derrota na Taça. Foram nove os jogadores que rescindiram contrato pouco tempo depois do ataque (entre eles Bruno Fernandes), o à data presidente, acabaria por ser afastado pelos próprios sócios e as marcas do acidente estão ainda muito presentes na equipa e na estrutura do Sporting CP, a nível económico, desportivo e social.

Bruno Fernandes, um jogador que após a rescisão teria certamente propostas de clubes de outro nível, decidiu voltar ao Sporting CP. Esta decisão, com ou sem melhorias contratuais, diz muito sobre o carácter do jogador.

Bruno Fernandes tem feito grandes épocas ao serviço do Sporting CP
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Dentro de campo, Bruno é um jogador incansável, o que irrita profundamente a minha alma benfiquista. Todavia, é impossível ignorar tudo o que o internacional português deixa em campo. Diversos foram os jogos em que, com um Sporting CP em baixo no jogo, foi possível ver Bruno Fernandes a vir recolher a bola de um pontapé de baliza, a transportá-la para a frente e ainda aparecer nas zonas de decisão.

A questão é: há muitos jogadores em Portugal capazes de deixar tanto esforço em campo? Por muito que me custe admitir, os dedos das mãos chegam para contabilizar os jogadores que corram tanto pela sua equipa. Esta raça e dedicação provocam uma das poucas críticas que tenho a apontar ao jogador: a forma como se dirige a outros interveniente no jogo, sejam eles árbitros ou elementos adversários.

Como benfiquista proclamo muitas vezes que se fosse árbitro, Bruno Fernandes não terminaria um único jogo, tal é a forma como protesta os lances. Mas, olhando com visão mais imparcial, quem não gosta de ter um jogador com a verdadeira alma de capitão, que defenda o seu clube até ao limite, que deixe tudo em campo e motive os seus colegas a fazer o mesmo?

Toda a dedicação de Bruno Fernandes seria recompensada na época de 2018/19. Esta seria uma temporada memorável do médio português. Em 52 jogos foram 32 os golos apontados (batendo o recorde de Frank Lampard como médio mais concretizador de sempre numa temporada) e incontáveis as grandes exibições que colocaram um debilitado Sporting nos lugares cimeiros. Felizmente, o Benfica sagrou-se campeão nacional, mas a época de Bruno Fernandes ficará sem dúvida alguma na minha memória.

Sempre que não tinha oportunidade de ver em direto algum jogo dos leões e consultava o resultado, lá estava ele novamente: “mais um golo/assistência de Bruno Fernandes”. Naquela época havia três coisas certas: o céu era azul, a água era molhada e Bruno Fernandes iria fazer uma grande exibição.

Mesmo perdendo por 2-0 em Alvalade, frente ao Benfica, e numa fase em que os encarnados dominavam a partida, na única oportunidade de perigo dos leões… golo de Bruno Fernandes. Este carácter decisivo do jogador provocou em mim, naquele momento, um sentimento de raiva, mas durante todo o resto da época sempre me fascinou.

Numa altura em que parece estar a caminho de voos maiores, o meu ADN benfiquista deseja que Bruno Fernandes nunca tivesse chegado a Portugal, mas o meu amor pelo futebol deseja que ele nunca se vá embora.

Em nome de todos os portugueses e dos amantes de futebol: obrigado, Bruno!

Foto de capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão 

Gonçalo Batista

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