“Ser treinador de futebol é a profissão mais mediática daquelas que foram medalhadas aqui hoje. Mas que significado tem isso na nossa vida? Por sermos mais mediáticos gostam de tirar ‘selfies’ connosco. Mas depois quem é que pára na rua para tirar ‘selfies’ com o professor primário ou com um médico? É uma reflexão.”

Foi de medalha ao peito e na cidade que o viu nascer que Bruno Lage deferiu estas palavras, engalanadas uma a uma com a mais saudável das humildades e a simplicidade de um homem  que se fez grande a sentir-se pequeno – está a mudar o paradigma da comunicação num desporto português habituado ás personalidades “fortes”, que de forte nada têm e caiem sempre no exagero da frontalidade e da agressividade, num salivar raivoso que percorre as sedentas manchetes – e que reclama para si o peso da história como outras “figuraças” antes dele tiveram.

Não estamos a falar das competências enquanto profissional da bola: é assumido que tem muito a aprender, que ainda agora começou na aventura dos bancos a sério e que é óbvia uma vistosa atrapalhação nos jogos mais difíceis (ainda que o diagnóstico se prenda com um vírus entranhado no Benfica recente) e claro que ainda tem um longo caminho a percorrer.

Aos 43 anos é (mais) a chegar à selva dos “místeres” de topo, um menino tímido que se tenta intrometer nos parlapiés dos garotões e que ainda agora fez o primeiro jogo continental em modo campeão. Mas o que se escreve aqui é o salvaguardar duma opinião e o elogio ás suas competências enquanto pessoa: independentemente do excelente, bom, mau ou catastrófico futuro enquanto líder de equipas, o Bruno já tem peso no futebol português pela sua conduta extra-campo.

É o primeiro, uns valentes anos depois, a responsabilizar-se com a recuperação de um estilo antigo, caracterizado pelas larachas mais ou menos acertadas mas sempre íntegras e cavalheiras, resquícios de tempos quando os Senhores eram obrigados a sê-lo e quando a roupa suja era lavada nos tanques correctos.
A assimilação da mentalidade britânica começou no Hillsborough, um processo de maturação que continuou depois no País de Gales
Fonte: Sheffield Wednesday FC

Podemos assumir que seja próprio dele: a sua educação pode ser esta mesmo, o que é a mais provável origem. A sua passagem por Inglaterra pode ter ajudado a sofisticar o discurso e o mindset, sempre virado para o fair-play e o melhor que nele existe? Penso que não existem dúvidas. É um mundo de diferença cultural. Bruno não se enquadra nos parâmetros do futebol latino e funciona como mediador entre duas realidades completamente distintas.

Foragido dos lugares comuns, refugia-se no bom senso das opiniões próprias e vincadas com conta peso e medida – não confundir com politicamente correcto – enquanto que enxuga a mensagem com uma honestidade brutal o que faz crescer nos pauliteiros da praça a dúvida de se que é falso ou sonso.

Existe aquele momento icónico no Dragão do ano passado em que após uma qualquer sarrafada e consequente confusão, Luís Gonçalves apodera-se do instinto animal e parte para cima de Bruno, pedindo explicações – como se ele as conseguisse dar – testando o maçarico. Num gesto apaziguador, Bruno ri-se, desvaloriza a parvoíce e puff, adversário desarmado.

Que existam seguidores desta forma de estar. A necessidade de sangue dos Diários não se pode submeter ao Desporto e a quem bem trata dele, seja que cor tenha.

 

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

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