Muito se discutiu a legalização das claques. E enquanto essa discussão era o foco aconteceu o incidente de Alcochete.

Foi um pontapé de realidade que, passado uns meses, já pouco parecia incomodar a quem manda no futebol e no desporto nacional.

Não há qualquer dúvida que os clubes devem viver dentro da legalidade, contudo a Lei que hoje regula as claques e a sua legalização em nada protege o mundo desportivo. Urgem medidas a sério de um país a sério. Mas somos governados por políticos com demasiado medo de mexer no futebol.

Durante anos o Sporting Clube de Portugal deu cobertura às condutas e negócios à margem da lei praticados por grupos de associados seus. Estes grupos beneficiaram da protecção e benefícios de serem parte das claques para se alimentarem e darem asas aos seus impulsos mais violentos e criminosos. O que a sociedade não lhes permite, o manto do futebol proporciona.

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Estou neste momento num café e se insultar o empregado de mesa poderei ter problemas com a autoridade. Porém, amanhã na Luz se estiver hora e meia a insultar o árbitro terei até a solidariedade de milhares. O manto do futebol.

Alcochete acordou Alvalade. A nova direcção leonina, liderada por Frederico Varandas, mostrou desde bem cedo que não iria compactuar com claques que se servissem do clube em vez de o servir. Comprou uma guerra que, no curto prazo, dificilmente poderá vencer. Teve coragem, colocou os seus valores e os valores do clube à frente da sede de poder e de politiquices. Assim, Frederico Varandas deu o primeiro passo para a resolução do problema que têm sido as claques. Faltará é interesse tanto ao FC Porto como ao SL Benfica de o acompanhar. E sem o apoio destes clubes não haverá Liga, Federação ou Governo que se mexa.

Engane-se é quem acha que eu defendo o fim das claques. Sei da sua relevância para a dinâmica desportiva do país. São as claques, não só, mas principalmente, que vão enchendo os pavilhões e os estádios dos não-grandes. São as claques que quebram o marasmo que é o adepto português no conforto das suas cadeiras. Não fossem os No Name e/ou os Diabos Vermelhos e no Estádio da Luz o único som que viria das bancadas seriam assobios e insultos ao árbitro.

O problema nunca será a existência de claques mas sim a forma submissiva com que os dirigentes dos clubes se colocam perante estas, permitindo-lhes tudo, dando-lhes apoios ocultos e espaço para se marginalizarem sem consequências. O problema é o poder dado a delinquentes que vão crescendo no núcleo destes grupos de apoio.

Sem os No Name e/ou Diabos Vermelhos, na Luz o único som que viria das bancadas seriam assobios e insultos ao árbitro
Fonte: SL Benfica

Actualmente, o Sport Lisboa e Benfica é um clube que vive muito refém destes grupos organizados de adeptos. Luís Filipe Vieira não tem qualquer interesse em contrariar este contexto pois prefere tê-los calmos e satisfeitos de forma a minimizar a contestação.
Não se querem legalizar? Não precisam. Querem entrar com pirotecnia no estádio? Força. Exigem apoios para as deslocações e bilhetes nos jogos fora? Feito. Querem ter o poder de decidir quem pode ou não ir para o Piso 0 da Bancada Sagres? Sem problemas.

Não interessa à direcção de Luís Filipe Vieira ter as claques contra si nas AGs do clube. Assim quando a contestação aumenta, lá surgem mais favores a baixar o volume.
Facilidade nos acessos ao estádio, permissividade para furarem as filas nas bilheteiras de forma a recolherem os bilhetes que já lhes estão destinados, poder para gerirem a bancada onde se encontram e ainda favores enquanto seguranças do presidente nos pavilhões da Luz. Tudo isto enquanto se assobia para o lado perante as actividades não-desportivas destes grupos. Convém olhar para o lado senão lá aparecem os cânticos “Benfica é nosso”, senão ainda voltam as AGs bem quentes. Isto enquanto se nega que tais apoios existem, tão à descarada, e ninguém quer saber. Levantar problemas para quê?

Os núcleos que se instalaram nas claques são um problema de todos os clubes de maior dimensão, são um problema porque as direcções destes clubes lhes dão apoio e cobertura, são coniventes com a violência e ilegalidades por estes praticadas. São os dirigentes desportivos que permitem que as claques ajam como máfias, são os dirigentes que permitem autonomia a grupos criminosos de agirem em prol dos seus interesses e ganhos e não em prol do clube que dizem amar.

Se fosse de amor ao clube que todos estes agentes do jogo vivessem, o futebol não estaria tão dominado pelo ódio.

Artigo revisto por Diogo Teixeira

 

Foto de Capa: SL Benfica

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