Terceiro Anel

Nuno Miguel Soares Pereira Ribeiro é mais conhecido por Nuno Gomes, em homenagem ao seu ídolo de infância, o soberbo ponta-de-lança Fernando Gomes, que encantou durante largos anos, principalmente ao serviço do FC Porto. Nuno Gomes, um homem que estará para sempre umbilicalmente ligado ao Sport Lisboa e Benfica, um dos grandes amores da minha vida. Nuno Gomes, um homem que sente o clube, que sente a mística benfiquista, que nunca escondeu a forma apaixonada como sofre por este clube tremendo. Nuno Gomes, um homem que ao serviço da selecção nacional nos proporcionou grandes momentos, mormente em fases finais, levando este nosso pequeno país à loucura.

Foi com enorme satisfação que fiquei a saber que Nuno Gomes está de regresso à estrutura do Benfica. Neste caso, o ex-avançado benfiquista vai ser assessor de Luís Filipe Vieira, mas nem é o cargo que ele irá ocupar que me interessa mais. Para mim, o mais importante é verificar que o meu clube continua a promover o regresso de personalidades que o amam, que sempre sofreram por ele. O dinheiro pode não abundar, o Benfica até pode vir a viver momentos terríveis em termos financeiros (espero que isso não aconteça, valha-me Deus), mas a mística terá de se manter sempre! Sempre cresci a ouvir pessoas mais velhas falar da mística do Benfica, daquela aura de clube popular que ainda hoje me faz arrepiar. E, por isso, mesmo sabendo que vivemos em tempos diferentes, em que o futebol é uma indústria, em que o futebol está completamente absorvido por guerras de poder, é bom poder constatar que ainda existe gratidão, e que ainda podemos ver pessoas que marcaram a história do nosso clube a regressar, seja para que trabalho for.

Eu bem sei que Nuno Gomes não é um nome consensual entre a exigente massa adepta encarnada. Eu próprio vociferei muitas vezes contra ele, muito murro dei no sofá da minha casa em desespero por tanta oportunidade desperdiçada pelo Nuno, muito inchaço no pé se originou por tanto pontapé a cadeiras, bancos e afins, após golos cantados serem falhados por ele. Mas também tenho boa memória, e lembro-me de que o Nuno fez uma excelente época em 1997/1998, quando se estreou pelo Benfica; lembro-me de que o Nuno marcou 24 golos na temporada 1998/1999 (epá, tínhamos cá o Jardel, portanto não critiquem o Nuno por nunca ter sido o melhor marcador em Portugal); lembro-me de que o Nuno voltou a estar em excelente plano em 1999/2000 (que plantéis ridículos que nós tínhamos, minha nossa); lembro-me de que o Nuno me colocou em pele de galinha após aqueles golos à Inglaterra, Turquia e França, no Euro 2000; lembro-me de que o Nuno voltou para o meu Benfica, em 2002, recebendo bem menos ao fim do mês, tudo por paixão pelo maior de Portugal.

Nuno Gomes de regresso às hostes encarnadas Fonte: A Bola
Nuno Gomes de regresso às hostes encarnadas
Fonte: A Bola

A partir de 2002, Nuno Gomes começou a marcar menos golos, apesar de ir sempre picando o ponto. Aquele golo à Espanha, no Euro 2004, é qualquer coisa de inesquecível. Em 2005/2005, fez uma primeira metade de época excepcional, marcando muitos e bons golos. Sempre deu tudo pelo Benfica, sempre se viu na sua face toda a vontade em servir o clube, apesar dos muitos assobios que o terceiro anel sempre lhe enviou, em variadíssimas ocasiões. Ainda teve participação activa no nosso último título nacional (Benfica, eu sinto que estás perto de voltar a ganhar o campeonato, não me desiludas), marcando em algumas partidas. Em 2010/2011, na sua última temporada a envergar o manto sagrado, voltou a provar-se o porquê de Nuno Gomes ser um grande benfiquista. Apesar de raramente jogar, o que para mim chegou a constituir momento de raiva, porque se tratou claramente de mais um episódio de teimosia do sempre polémico Jorge Jesus, Nuno Gomes nunca levantou ondas, manteve sempre uma postura de classe, revelou sempre uma das suas maiores virtudes, que o acompanhou sempre na carreira de futebolista: o facto de ser um fantástico elemento de balneário. Nuno chegou mesmo a chorar, e eu não me posso esquecer disso, quando, em Novembro de 2010, marcou na vitória do Benfica por 4-0 sobre a Naval, ou quando, em 2011, num show de futebol em Paços de Ferreira, e em pouco mais de 10 minutos em campo, marcou dois golos.

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Como já se previa na altura, Nuno Gomes saiu do Benfica no final da época 2010/2011, indo representar o Sporting de Braga. Sempre com a mesma postura, respeitado por todos (nos dias que correm, há que dar cada vez mais valor a isso), lá foi representando o clube com o máximo de profissionalismo, o mesmo se passando em Inglaterra, enquanto alinhou pelos Blackburn Rovers.

Sempre tive a ideia de que, mais tarde ou mais cedo, Nuno Gomes regressaria ao Benfica, e isso aconteceu. E é assim mesmo que deve acontecer! Qualquer entidade deve chamar para si quem sempre representou essa mesma entidade da melhor forma. Isto seja no futebol, seja na indústria energética, na área da calçada portuguesa, no que quer que seja.

Por isso, Sport Lisboa e Benfica, toca a chamar um Valdo, um Mozer, um Vítor Paneira, e demais pessoas que sempre deram tudo por ti, para se juntarem ao Nuno e ao nosso grandioso Rui Costa. Porque quem dá tudo por ti, dá tudo por mim, dá tudo por milhões e milhões de pessoas, dá tudo por uma imensidão de gente.

Boa sorte para ti, Nuno Gomes. Boa sorte para ti, Sport Lisboa e Benfica, para o jogo em Alkmaar.