camisolasberrantes
Longe das vaquinhas e dos jumentos, Jesus dorme, mas não em palhas deitado. Descansado e feliz, deixa-se prostrar na sua faustosa cama, vestida e revestida com lençóis de cetim grenás, a fazer lembrar a luxuriosa e apaixonante cor do clube que lhe deu um outro sono. Mais pesado, mais sonhador, mais bonito. Mais tudo. Lá fora passeia-se um recém-chegado Inverno que não dá nem para bater os dentes. Ao contrário de qualquer estória profunda e complexa, não temos sequer chuva para fustigar as janelas. Nem vento. Ironicamente, da mesma forma se vai arrastando o homem (e sua estrutura) que, descansado, ali dorme: sem grande espectáculo, sem deslumbrar e cumprindo os serviços mínimos.

Tumultuosamente e num virar de ombros, julga-se acordado. Desperto. Lúcido. Não sabe ele da missa do galo a metade. Perante si surge um translúcido Luís Filipe Vieira. Se a original versão já dá tremores, imaginem-no vestido de espectro. Enquanto acaricia o farfalhudo bigode, a fazer lembrar aqueles homens muito fortes que levantavam enormes pesos nos espectáculos circenses dos anos 70 e 80, aproveita para pigarrear e pôr ao serviço a sua voz mais grave e assustadora – a mesma com que invade todas as Assembleias Gerais do clube. Diz ele:

– Jorge! Acorda!

– Presidente? Mas o que vem a ser isto?! No Seixal permito-lhe tudo, mas vir a minha casa, a meio da noite, ainda para mais na véspera de Natal…

– Ó homem, cala-te! Tenho algo importante para te dizer e não temos muito tempo. Daqui a umas horas nasce a manhã.

– Mas o que raio o traz aqui?!

– Andaste-te a armar em bom com a lengalenga do Dumas, mas eu bem sei que o teu romancista vitoriano preferido é o Dickens.

– Epá, e então?!

– O que é que os teus filhos te ofereceram à meia-noite?

– Aquele famoso livro dele, Um Conto de Natal. Li-o num instante, antes de adormecer.

– E é exactamente por isso que aqui estou. Hoje sou o teu fantasma de serviço.

– Caraças, mas na versão do Dickens vinha primeiro a aparição do seu sócio, já morto, e depois os três fantasmas: um do passado, outro do presente e…

– Até em sonhos tens a mania que tens razão! O Presidente sou eu e eu é que decido para quantos fantasmas é que há orçamento! Agarra-te bem.

Confuso, mas esperançoso. Assim entrou Jesus na aventura. Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Confuso, mas esperançoso. Assim entrou Jesus na aventura.
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Sem sequer ter tempo para contestar a decisão do seu superior, Jorge Jesus vê-se num estranho vácuo banhado a luzes psicadélicas e sons penetrantes, capazes de enlouquecer qualquer homem. Tonto e sem força nas pernas, deixa-se tombar sobre a humidade que ensopa a mais bonita e misteriosa relva que alguma vez teve o prazer de pisar. Abre os olhos num susto e deixa-se envolver pelo caótico ambiente de um Estádio da Luz aos apupos. À sua frente está um homem moreno, magro, de fraca figura e com os olhos mais distantes que alguma vez havia visto. “Mierda”, murmura o mesmo. Rapidamente percebe que se trata de Quique Flores.

– Lenços brancos? – pergunta Jesus.

– Sim, acabámos de perder contra a Académica, ajudámos a reforçar o segundo lugar do Sporting e estamos a oito pontos do primeiro lugar…

– Do Porto, portanto.

– Sim. Ah, e é a segunda derrota consecutiva em casa. Há menos de um mês perdemos contra o Guimarães.

– Porra, este Quique também era uma besta!

– Era? Ao contrário das épocas em que foste campeão, o tipo conseguiu chegar ao Natal sem uma única derrota e isolado no primeiro lugar. – enquanto o sósia do Estaline falava, a Luz parecia querer vir abaixo a cada passo que os cabisbaixos jogadores encarnados davam para os balneários – O problema veio depois disso. Mal voltámos de férias fomos à Trofa encaixar dois perus. O Porto passou imediatamente para a frente e já se sabia que tal plantel não estava para milagres.

– Se calhar foi cansaço…

– Qual quê! Já tínhamos sido eliminados da Taça de Portugal pelo Leixões e a Liga Europa já tinha ido à vida depois de perdermos contra Metalist, Olympiacos e Galatasaray. E termos empatado contra o Hertha já foi cá uma sorte…

Jesus mostra-se confuso. Não sabe porque está ali. O seu percurso pelo Benfica não é minimamente comparável com o do técnico espanhol. Muito menos são as suas capacidades como treinador. No entanto, incomodava-o saber que há nem seis anos atrás o “seu” clube havia conseguido desperdiçar o que poderia ter sido um campeonato fácil só havendo, para além da competição caseira, Taça da Liga para disputar – único troféu arrecadado, ainda que de vil forma perante um injustiçado Sporting. De forma arrogante e jocosa, e já sem ouvir o infindável monólogo do seu interlocutor, resolve interromper o mesmo:

– Bom, eu tenho mais anos disto do que toda a família do Quique junta. Mais importante ainda, tenho resultados dados. Provados. Mostrados. Este tipo hoje em dia está desempregado enquanto eu sou um dos treinadores mais memoráveis que o Benfica já teve!

– Ah, mas queres falar do Presente? Até dá jeito, porque é para lá que temos de ir!

O técnico voltou a sentir-se rodeado de um sem-número de histórias e memórias até que chegou aos dias de hoje. Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
O técnico voltou a sentir-se rodeado de um sem-número de histórias e memórias até que chegou aos dias de hoje.
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Cabeleira branca para um lado e bigodaça preta para o outro, lá vão técnico e presidente pelo meio de tempestuosas partículas temporais que violentamente os agitam, quais bebés a levarem palmadas nas costas para deitarem cá para fora os resquícios do almoço. A vista turva e o ainda perturbado cérebro não lhe permitem ver para lá de um rebuliço de papéis e post-its. Há-os por todo o lado. Isso e canecas com restos ressequidos de café, caixas de pizza já vazias, latas de Red Bull encarquilhadas e atiradas para e por todo o lado, mas nunca na direcção do único caixote do lixo que ironicamente, e a contrastar com o cubículo onde se encontram, permanece vazio.

– Onde raio estamos? – Jorge Jesus pergunta.

– Bom, na verdade, estamos no mesmo sítio. Passámos foi do relvado para uma das salas de análise técnica. E estamos no Presente, claro! – respondeu de forma peculiarmente bonacheirona o senhor Presidente.

– Estamos tipo em directo?

– Se lhe quiseres chamar assim…

– Então isto existe mesmo? Está mesmo a acontecer neste preciso momento?!

Do nada, e ainda antes de Luís Filipe Vieira lhe conseguir atirar com uma resposta, entram de rompante na sala três cavalheiros já com uma certa idade, visivelmente estafados e com um ar de desânimo superior até às habituais trombas de Domingos Paciência. O mister da Amadora rapidamente os reconhece.

– Caraças! O Raúl, o Quaresma e o Pietra, pá! Eles conseguem ver-nos?

– Pensava que por esta hora já terias percebido a dinâmica da coisa…

– Pois, está bem. Mas que porra fazem eles aqui na madrugada do dia 25?!

– Ai não sabes? Quem é que, em vez de lhes desejar umas Boas Festas, os mandou olhar para todos os 14 jogos feitos até agora no Campeonato?

– Não acredito… – respondeu Jesus claramente envergonhado.

– Acredita, meu caro. Estes três bananas ainda nem a casa foram. O único bacalhau que comeram devia ser de conserva e devem-no às estúpidas invenções da Telepizza. Prendas? Provavelmente mais berros quando cá chegares no dia 26, logo pela manhãzinha.

– Mas eu…

– Mas nada! Nada justifica isto! Nada justifica que três homens com quase 65 anos cada não possam passar o Natal com as suas famílias e que aqui estejam acordados enquanto tu dormes descansado como se nada fosse!

– Presidente, eu…

– Tu? TU és uma vergonha! – irrompe Luís Filipe Vieira a urros – Estes três tipos estão aqui hoje porque TU vais conseguindo a proeza de não jogar um futebol decente quase quatro meses depois do começo do campeonato. Porque TU estás a meio de Dezembro e já conseguiste o enorme feito de sair das competições europeias e de ser eliminado da Taça de Portugal…pelo Braga…em casa! Porque TU, apesar de te ires passeando pelo primeiro lugar, conseguiste, em 14 jornadas, ser abençoado – ou não fosse o teu nome Jesus – pelos árbitros em pelo menos seis desses jogos! E quando digo abençoado quero na realidade dizer beneficiado, principalmente contra o Estoril, o Nacional e até contra a merda do Gil Vicente.

– Eu estou a dar o meu melhor…

– O teu melhor não chega!

Sem poder dizer qualquer outra palavra, Jesus é arrastado por um braço para o seu futuro. Literalmente. Raios, turbilhões cromáticos e guinchos metálicos quase que o fazem desfalecer pela terceira vez. Dá por si em lágrimas. De joelhos. Tal como da última vez, essa no Dragão. Não sabe o que fazer. Não sabe como se levantar. Não sabe sequer se se quer levantar.

E de repente, faltam-lhe as forças... Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
E de repente, faltam-lhe as forças…
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Sem tempo ou paciência para paninhos quentes, o nosso agora-fantasmagórico Orelhas sussurra-lhe as três palavras mais mal intencionadas que já havia dito depois das habituais (e tão mentirosas) “Viva o Benfica”:

– Vê se gostas…

Desta vez, Jorge Jesus abre os olhos e está longe, bem longe, da sua amada e tranquila Luz. Perante si, só azul. E branco. Ainda zonzo consegue, contudo, distinguir o que lhe parece ser o sotaque nortenho. Faz calor e estamos em Maio, na Avenida dos Aliados. Celebra-se o campeonato do Porto e a falsa hegemonia do Benfica. Lá ao fundo distingue-se um clarão vermelho: é uma fogueira. Uma fogueira onde jaz, já quase irreconhecível, a bandeira do Sport Lisboa e Benfica. O sotaque nortenho molda-se a uma só voz e grita, convicto, ritmado, e a plenos pulmões: “E o Jesus…foi co’ caralho! E o Jesus…foi co’ caralho!”.

Luís Filipe Vieira contorna o ainda ajoelhado anti-herói e, mantendo a pose dominante, não se baixa para lhe dizer:

– Percebe o seguinte: assim como neste sonho, eu nunca serei o culpado. Mascarar-me-ei sempre do bonzinho. Do tipo que só quis o melhor para o Benfica. Tu é que levas – oh religiosa metáfora! – a cruz às costas. Eu sou o teu espectro! Neste sonho e na realidade! Tenho-te na mão! Tu és e será aquilo que eu…

Toca o telemóvel. Um despenteado e babado Jorge Jesus acorda a nadar em suor. Já é de manhã. A mesa de cabeceira estremece com a vibração do iPhone. Põe os óculos. Debruça-se sobre o ecrã. “Presidente”, lê-se entre um compassado jogo de luzes.

Jesus respira fundo e, ao olhar em frente, contempla o vazio. Lenta mas decisivamente ignora a chamada. Põe um sorriso nos lábios e, num gesto irracional e que só os homens livres se permitem ter, sussurra para si mesmo: “Feliz Natal e viva o Benfica”.

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