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É tempo de tratar dos vivos

João Amaral Santos · 3 min

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Estas três semanas de interrupção competitiva – entre selecções e taça – são ideais para se fazer um balanço do que foi, até ao momento, este campeonato, cumpridas que estão dez jornadas; e perspectivar o que ainda pode ser, a partir deste ponto e até ao final.

Ao olharmos a classificação, concluímos fácil e rapidamente que seria difícil, para já, pedir mais e melhor. O Benfica segue em primeiro; lidera isolado com cinco pontos de vantagem sobre os seus adversários; com o melhor ataque e a melhor defesa da prova. Um arranque que assenta em factos que se tornam, ano após ano, cada vez mais usuais – o domínio do Benfica é, agora sim, a regra; as vitórias e a liderança são, agora sim, naturais e convincentes. Este discurso pode até parecer arrogante. De resto, essa é sempre, e invariavelmente, a leitura de quem discorda. No entanto, nada condiz melhor com a actual realidade: onde o Benfica é tricampeão e tem a hipótese de alcançar, no imediato, a plena e incontestável hegemonia no futebol português.

Para já, o Benfica ainda não ganhou nada e, comparando com aquilo que fez na época passada – quando alcançou uns notáveis 88 pontos –, soma, na prática, somente mais dois pontos, contabilizando os quatro a mais (vitória com Arouca e empate com FC Porto) e os dois a menos (empate com V. Setúbal). Um balanço extremamente positivo até ao momento.

Para mais, por ser impossível ignorar as circunstâncias condicionantes que, desde o início, têm afectado a evolução da equipa. A ferida das lesões que se alastrou (e que tarda em sarar) ganhou contornos limitadores impossíveis de ignorar, e muito menos de contornar, boicotando, jornada após jornada, aquelas que seriam as opções (teoricamente) mais fiáveis ao dispor de Rui Vitória. Ainda assim, a equipa continua a somar bons resultados, demonstrando superioridade sobre os seus rivais. Imagine o leitor, se quiser e conseguir, a prestação de Sporting e FC Porto neste período, sem cinco ou seis dos seus habituais titulares, somando vitórias e pontos, conseguindo uma liderança confortável, com o melhor registo de golos da prova e cumprindo, com sucesso, uma visita ao Estádio da Luz (ou ao estádio do outro “grande” que resta). O mérito do Benfica é, por isso mesmo, enormíssimo e indiscutível.

É verdade: as exibições do Benfica, nalguns jogos, têm sido apenas medianas. Compreender as causas, parece-me, todavia, tarefa ao alcance de qualquer criança. À razão de, por vezes, o resultado superar a exibição – tal como aconteceu no empate do Dragão – os nossos adversários directos, os seus sócios e adeptos, os seus comentadores amadores e profissionais, parecem ter encontrado um amável paliativo da dor. Claro que, para tal, e ao contrário dos benfiquistas (como eu), isso permite-lhes abdicar da leitura arrogante da realidade, optando, em alternativa, por um complexo exercício de contorcionismo intelectual que, por exemplo, os impede de ver que, no passado domingo, se encontraram dentro das quatro linhas 100 por cento de FC Porto contra apenas quarenta de Benfica.

Até as redes das balizas sentem saudades dos golos de Jonas Fonte: SL Benfica
Até as redes das balizas sentem saudades dos golos de Jonas
Fonte: SL Benfica

Acho curioso ignorar-se o facto de Jonas, a grande referência ofensiva da equipa, autor de 67 golos nas últimas duas épocas, não estar disponível. Acho curioso ignorar-se o facto de Jardel, o melhor “central” da equipa nas últimas duas épocas, não estar disponível. Acho curioso ignorar-se o facto de Grimaldo e Fejsa, os melhores jogadores em Portugal nas respectivas posições, não estarem disponíveis. Acho curioso ignorar-se o facto de Rafa, um dos grandes reforços da equipa – natural substituto de Gaitán no “onze” –, não estar disponível.

Daí a importância das próximas três semanas. Este hiato competitivo será fundamental tendo em vista a recuperação física e mental dos nossos jogadores. Quando Jardel, Luisão, Grimaldo, Fejsa, Rafa e Jonas, todos potenciais titulares, ou muito perto disso, estiverem aptos, preparados individual e colectivamente, será certamente permitido à equipa exibir-se com maior qualidade; atingir a tal nota artística, tão reclamada, aliando os resultados e as exibições, para conforto geral. Pessoalmente, basta-me o pragmatismo que nos tem valido a liderança e que, na prática, decide sempre a questão do título. Não sou, porém, egoísta: o nosso campeonato, o futebol deste país, ainda vai a tempo de ser bocejado, perdão, bafejado pelo talento daquela que é a sua melhor equipa.

Texto revisto por: Carlos Valente

João Amaral Santos

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