Diz a memória popular que Rogério Lantres de Carvalho foi o mais hollywoodesco jogador do futebol português. Criado em Chelas, filho e irmão de malta da bola, chega ao Benfica em 1942, a troco de 26 contos. Faz carreira auspiciosa, chega ao Brasil para jogar com a camisa alvinegra do Botafogo, voltando ao fim de oito meses por travessuras do lendário Heleno.

Um dos protagonistas da famosa Guerra do Bacalhau, sempre se assumiu como figura destacada da história encarnada. O casamento acaba em 1953, depois de Otto Glória preferir o profissionalismo – Rogério tinha 32 anos e percebeu a deixa. A imagem eterna a segurar na Taça Latina dignifica-o e faz parte do imaginário de todo o adepto, acabando poucos anos depois no seu original Chelas, hoje Oriental, a troco de… nada. Era por amor. No resto da sua vida, vendeu automóveis com a mesma facilidade com que desfazia adversários na ala esquerda.

Nasceu em Chelas. O seu pai fora fundador do clube com o mesmo nome, que mais tarde passaria a Oriental, e o seu irmão dava pelo nome de Armínio França, destacando-se como um dos craques da equipa. Lá começou então Rogério a dar os pontapés, mas o peso do parentesco reforçou nele medos e traumas de falhanço monumental: seria sempre o “irmão do França”…

Fez o quarto ano de escolaridade e foi-se empregar no Grémio das Carnes. Aí faz amizade com… Fernando Peyroteo, que repara nas suas qualidades futebolísticas aquando de uma jogatana da malta do trabalho e leva-o para o Sporting CP. Faz um treino na equipa de reservas, mas não corre bem. Vítima de complô dos colegas, a bola poucas vezes lhe chegou e Rogério decide nunca mais lá voltar, até Peyroteo chamar a atenção da direcção leonina para o drama.

Anúncio Publicitário

Dos homens de alta patente, vem a oferta de 25 contos. Os do Benfica, sempre atentos às movimentações adversárias dentro e fora do campo, sobem a parada em mais um conto e levam o menino de 20 anos para o recinto do Campo Grande, estádio predecessor da Luz. 16 contos de luvas para Rogério, 10 para o Chelas e um jogo amigável entre as equipas: acordo espontâneo.

Com a camisola berrante, estreia-se num sempre competitivo embate com “Os Belenenses”, nas Salésias, em Outubro de 1942: como extremo-direito, que só passaria ao lado contrário aquando da despedida de Francisco Valadas. Janos Biri assim decidiu, fazendo a quase totalidade da sua carreira nesses terrenos, apesar da sua má vontade: disse Rogério durante a vida fora que se tivesse sido… Interior (ainda em alturas do WM) teria rendido o dobro. O dobro rendia ele sempre que o certame era a Taça de Portugal, sendo a prova-rainha a sua predilecta para causar estragos: em cinco participações na final, marca 15 golos e vence todas! Na sua estreia, o Benfica bate o campeão da II Divisão, Estoril, por expressivos 8-1… Com cinco golos do prodígio.

No final dessa época de 1942-43, já se destacava como uma das figuras daquela equipa que faz a histórica primeira dobradinha. Irreverente, armador genial, finalizador de excelência, e o aprumo na aparência de uma figura da televisão. O penteado sempre impecável e a elegância nos gestos auguraram-lhe a alcunha de “Pipi”. A história começa na sua chegada: Gaspar Pinto, central e grande nome, vendo o seu aspecto alto e espadaúdo, tenta “Agulha”, que não pegou porque Francisco Albino, outro dos líderes de balneário, se chegou à frente com o “Pipi”, que era o que se chamava aos rapazes da moda, de casacos cintados e colarinhos altos.

Contextualiza Rogério: «Eu era um jogador muito elegante, gostava de vestir bem e, um dia, um alfaiate famoso convidou-me a posar, ofereceu-me um fato de gala e um sobretudo e chamou um fotógrafo de arte. Fui, para espanto meu, primeira página da revista ‘Flama’ (quinzenário da Juventude Escolar Católica, criada em 1937 e extinta em 1976, responsável pela eleição das rainhas da rádio e da televisão), como se fosse um artista de Hollywood. E como estava todo pipi…” . Era o seu estilo inconfundível.

A sua importância no seio da equipa era um pau de dois bicos. Em meados dos anos 40, alguns jogadores do plantel benfiquista decidiram, sob égide da mocidade despreocupada, fazer uma grande almoçarada antes do jogo decisivo contra o Sporting, num restaurante para os lados do Lumiar. As batatas com bacalhau, em excesso, só provocaram lentidão e inépcia nos benfiquistas, que se viram atropelados pela turma leonina. Diz-se que, apesar do 3-1 registado, a diferença de rendimento foi tanta que se não fosse a incomum azelhice dos avançados verde-e-brancos, a contenda teria números muito mais expressivos…

A direcção do Benfica, naturalmente incomodada com o sucedido, decide multar em mês e meio de salário a quem desconfiavam ter participado no convívio. Rogério sempre jurou a pés juntos que nunca lá estivera, mas a sua exibição, segundo registos da época, foi tão inconsequente que a direcção nunca conseguiu acreditar nele.

Rogério Pipi (à direita) esteve na conquista do primeiro palmaré internacional dos encarnados: a Taça Latina
Fonte: SL Benfica

Diz Rogério que sempre jogou por amor à camisola e que o dinheiro sempre foi pouco. Com uma única excepção. Em 1947, o Botafogo queria combater a popularidade do Vasco da Gama junto da crescente comunidade portuguesa, fruto do impulso sentimental dado pelo nome. Solução? Ir buscar a mais cintilante estrela do futebol português da época. 40 contos de luvas, quando o salário se cifrava perto dos mil escudos na Pátria. 100 contos para o Benfica, única quantia que fez o presidente Tamagnini Barbosa aceitar.

«Por exemplo, em 1945, por nos sagrarmos campeões recebemos um prémio de 500 escudos. Pareceu-nos uma fortuna, porque, naquela altura, o ordenado mensal de um craque andava pelos mil escudos. Por isso, ninguém podia viver só do futebol. Eu jogava e trabalhava com o Peyroteo no Grémio das Carnes; no Grémio das Mercearias trabalhavam o Espírito Santo, o Jesus Correia, o Canário. O maior prémio na Taça de Portugal foi em 1954, na minha última vitória: cada um de nós recebeu dois contos de réis, que naquela altura davam para sustentar uma casa de família um mês inteiro. Em Portugal, não se enriquecia com o futebol. Quando fui para o Brasil recebia 18 contos por mês. Num ano ganhei mais do que ganhara em toda a minha vida. Deu para comprar um automóvel, no regresso, que então era o sonho de qualquer jogador de futebol. Com o dinheiro do Benfica comprei uma bicicleta, que utilizava para me deslocar para o quartel durante a tropa…»

Foi, então, a única vez que seria obrigado a jogar por amor ao dinheiro. Ele que sempre se habituara a honrar o símbolo ao peito, em tempos de futebol ainda romântico. Ora, como em todas as questões onde o coração não participa, a sua passagem pelo Rio de Janeiro foi efémera. Heleno, a grande lenda do Fogão, fez a vida negra ao português, por conta de invejas e outros quinhentos que o tempo fez o favor de apagar. Entretanto, a gravidez da esposa e o seu desejo de que o filho nascesse em Portugal precipitaram o regresso de Rogério ao seu coração. Foram oito meses, oito jogos e nenhum golo.

Em Lisboa voltaria a reencontrar a tranquilidade que lhe permitia explanar todo o seu talento. Vítimas das circunstâncias – ele e a equipa -, só voltariam a ganhar títulos em 1949-50. Depois do domínio avassalador dos Cinco Violinos, o Benfica meteu as mãos no troféu da I Divisão, o que lhe permitiu a epopeia na Taça Latina da época seguinte. O primeiro grande troféu internacional do futebol português teve episódio curioso: a famosa fotografia de Rogério Pipi nasceu dum acaso. O capitão era Moreira e assim se explica que tenha sido ele a ter o prazer de levantar o caneco. «Quando o jogo acabou, ficou tudo louco. Só sei que, por entre empurrões, voando sobre os ombros dos benfiquistas em quase histeria, cheguei à tribuna. O Presidente da República (Óscar Carmona) pôs-me a Taça Latina nas mãos. Ainda hoje não consigo descrever o que senti…»

Um dos aspectos da lenda que foi conseguindo construir à sua volta tratou-se do lado humano de Pipi. Na histórica final da Taça de Portugal de 1953, que opunha dois grandes mestres do futebol português (Ribeiro dos Reis como treinador do Benfica e Cândido de Oliveira como treinador do FC Porto), haveria um relógio de ouro para o primeiro marcador do encontro. Rogério, motivado por participar nos seus jogos preferidos, não teve medo de inaugurar as redes. Que fez ao relógio? Entregou-o à direcção do clube, para que o leiloasse e metesse o lucro da venda no fundo de financiamento das obras do futuro Estádio da Luz.

Figura desta estirpe não merecia um fim injusto, motivado pelos adventos do profissionalismo. Otto Glória chega em 1954 e faz um ultimato aos jogadores: o emprego ou a bola a tempo inteiro, nunca os dois. Com 32 anos, Rogério viu que já não tinha grandes condições de se manter no clube e abandonar o emprego seria impensável. Preferiu a segurança financeira da venda dos automóveis e voltou ao Oriental: recusou de antemão qualquer ordenado, dinheiro que muitos clubes lhe queriam dar. De gratidão estava cheio o coração de Rogério e nem quis ouvir outras ofertas. Com a camisola do Oriental, ainda foi a tempo de ser campeão nacional da II Divisão. Reencontro feliz.

A 8 de Dezembro, despediu-se para sempre do Quarto Anel, um dia depois de completar 97 anos. Junta-se a outros grandes do Olimpo benfiquista, figurando entre eles como alguém a quem a conduta nunca atraiçoou, que nos gestos e nas palavras representou sobremaneira os valores do clube. Se o rendimento desportivo o coloca como marco na história, o lado humano do craque eleva-o a figura de culto e lenda instantânea do nosso imaginário. Pena, assim, o triste ignorar do jornal O Benfica na sua capa de 13 de Dezembro: não se percebe o esquecimento ou desprezo, gravíssimo em qualquer dos casos e merecedor de atenção por parte da direcção. Urge homenagear quem nos fez grandes e como o hino original Avante P’lo Benfica canta,

E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,

Honrai agora os ases

Que nos honraram o passado!

 Foto de capa: SL Benfica

Artigo revisto por Joana Mendes