Em altura de férias, foi a vez do SL Benfica ir a banhos: começou pela ausência de estágio e acabou no banho tático de Sérgio Conceição, o primeiro peremptóriamente entregue a Bruno Lage desde que assumiu o comando da equipa. Se as derrotas em Alvalade e Frankfurt foram consensuais, o atropelamento na Luz mostrou a total passividade da equipa quando confrontada com uma oposição ao seu nível e com outros argumentos físicos, que anulou com facilidade os anões endiabrados da turma da Luz. Grimaldo, Rafa e Pizzi foram uma sombra de si mesmos e ainda estão guardados no bolso de alguém.

Tornou-se já uma tendência: com equipas do mesmo nível, os encarnados vêm-se mergulhados numa apatia quase total, num tédio que se alastra desde os titulares ao banco de suplentes. As últimas campanhas da Champions assim o ditam, o historial com o FC Porto tem-se desnivelado desde os anos 90 (só na nova Luz, são quatro vitórias, seis empates e sete derrotas…) e a única excepção, que confirma a regra, é a eliminatória com a Juventus FC, em 2013-2014. O Benfica desta década, de nível superior ao das décadas transactas, mantém ainda assim muitos dos seus traumas, insistindo-se em alimentar complexos de inferioridade envelhecidos e de razões já esquecidas, roçando o limiar do dogmático.

A derrota causou natural apreensão na Luz e gerou ainda mais dúvidas quanto à competência da equipa na piscina dos grandes. Se este Benfica chega para consumo interno, serão as exigências da Champions demasiado pesadas para um grupo a quem só falta afirmar em contexto internacional? Dependerá muito do sorteio. Com a eliminação do Porto e a consequente colocação no pote 2, a tarefa poderá ser facilitada. Em condições normais, o pote 3 perspectivava dificuldades avultadas, com grande probabilidade de dois “tubarões” no grupo.

A primeira derrota a toda a linha do Benfica de Lage mostrou uma velha realidade, que se pensava já ultrapassada. Se a perda dos três pontos em nada ofusca a excelente evolução da equipa até agora, com resultados de acordo, a verdade é que se esperava bem mais e é essa a principal implicação deste desaire: a gestão de expectativas. Era já expectável um Benfica muito mais adulto, com outras soluções contra equipas do mesmo nível e que a identidade implementada fosse discernível em todos os momentos. Será esse o desafio da equipa daqui para a frente: confirmar à massa adepta que o 0-2 e as circunstâncias em que aconteceu (dois remates, zero à baliza!!!) foi apenas um acidente de percurso.

Caberá a Vieira a correcção dos erros de construção de um plantel ainda desequilibrado
Fonte: SL Benfica

Bruno Lage tem agora a palavra e há muita curiosidade para ver como prepara a equipa para o próximo Domingo. O jogo em Braga é a melhor oportunidade que o setubalense poderá ter para demonstrar outra face e confirmar ao público que aprende com os erros, corrigindo-os prontamente, num processo necessário à construção de um grande Benfica. Uma vitória contundente no Minho irá ajudar a recompor índices de confiança e confirmar o estofo da equipa, recheada de juventude e que tem muito a aprender com este tipo de momentos.

O que o jogo do passado fim-de-semana também poderia transparecer uma necessidade de ir ao mercado para colmatar certas debilidades: Chiquinho, para piorar todo o cenário, lesionou-se com gravidade e não joga até Janeiro. Um segundo-avançado torna-se agora prioritário, visto a inoperância entre a parelha da frente; Nuno Tavares é um craque e a sua utilização à direita não poderá ser encarada a tempo inteiro – André Almeida precisa de um substituto à sua altura, ficando Nuno a lutar por um lugar com Grimaldo.

Quanto à baliza, Lage, a 19 de Julho, admitiu publicamente que outra opção seria benéfica para a evolução de Odysseas, afirmando que quer «…tirar o conforto aos jogadores e criar um plantel competitivo. Ninguém pode pensar que existem lugares garantidos no onze titular, não podem estar seguros. Têm que se deitar a pensar que existe um colega que está trabalhar tanto como eles para ficar com o lugar. Nesse sentido estamos atentos e se sentirmos que há jogadores por aí que podem trazer qualidades e ajudar a que o colega do lado seja competitivo, esse jogador vai estar no nosso radar e pode entrar a qualquer momento do clube». A 28 de Agosto e a cinco dias do fecho do mercado, continua tudo igual. O eclipse da equipa perante o rival directo deveria fazer soar os alarmes na direcção do clube, que com 200 milhões de euros em caixa tem capacidade negocial suficiente para suprimir todas as lacunas, assim queira Luis Filipe Vieira.

Foto de Capa: SL Benfica

Comentários