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Era só jajão quando nos diziam que Bernardo Silva regressava no final da época. Lembram-se de chegar a casa esganados por terem passado a tarde toda a jogar futebol e sentirem o cheiro daquela comida que só a nossa mãe é que sabe fazer? Lembram-se daquele momento em que nos apercebíamos de que ainda faltava uma hora para o jantar, mas de que, por causa do cheiro magnífico pela casa, já não nos conseguiríamos concentrar?  Provavelmente, de que durante essa hora fantasiávamos e babávamos litros e litros, só de imaginar o prazer que cada garfada iria trazer? Pois bem, esses momentos de expectativa foram constantes na minha vida a partir do momento em que descobri um jogador – na altura jogava nos juniores do Benfica, um número 10, baixinho, que tinha cola nos pés e uma classe tremendamente incomum, tendo em conta a sua tenra idade. Há anos que me sinto enganado, ingénuo até, ao ouvir Luís Filipe Vieira, no início de todas as épocas, falar de que o onze inicial do clube e até da seleção irá ser made in Benfica. Todos os anos ouço isto, e todos os anos acredito que até seja capaz de ser verdade.

Quando comecei a prestar mais atenção aos juniores do Benfica, fiquei absolutamente louco com Bernardo Silva. Notava-se que jogava bastante bem; ouvia-se, nas suas palavras, o benfiquismo que só algumas pessoas sentem; e via-se nele uma alegria e um orgulho em vestir a camisola do Benfica e, ainda mais, envergar a braçadeira de capitão do clube do seu coração. Não me consigo esquecer das vezes em que não ia sair à tarde para ver jogos dos juniores. Um grupo na altura com João Cancelo, Bernardo Silva, André Gomes… Um grupo que jogava tão, mas tão bem. Aquele plantel fez-me acreditar que, bem trabalhado,  poderia vir a representar o Benfica durante anos. Não podia estar mais enganado. Vi André Gomes a ser titular em Camp Nou e em Alvalade e depois a deixar de ser aposta durante meses, meses em que só jogava os últimos trinta segundos dos jogos. Vi-o começar a afirmar-se e ser despachado para o Valência. Certamente não foi isto que aconteceu, mas emocionalmente foi o que senti.

Nesta altura, imaginar o Bernardo a jogar na equipa A já parecia tão certo... Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Nesta altura, imaginar o Bernardo a jogar na equipa A já parecia tão certo…
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Mas a notícia do início desta semana deixa-me um vazio. “Bernardo Silva é comprado pelo Mónaco”. Que dor – não por o conhecer pessoalmente, mas pela desilusão e pelas expectativas que fui criando. Um número 10 que iria ser capitão, e um símbolo do clube como tantos outros já foram.Custa-me acreditar em  que o jogador que mais potencial tinha – pelo menos para mim -, que mais gozo e gosto dava ver jogar e tocar na bola, foi vendido sem nunca jogar um jogo inteiro no clube do seu coração. É preferível apostar em Patric e Luis Felipe do que pôr Bernardo Silva a jogar?

Bernardo, sei que, provavelmente, nunca vais ler este texto, mas espero que saibas que todo o mundo benfiquista só quer o teu melhor, que te tornes um jogador (ainda mais) fenomenal e que comproves que a formação do Benfica tem tudo para dar frutos. Se conseguisses, daqui a um par de anos, fazer com que o Presidente do Sport Lisboa e Benfica se arrependesse bastante de te ter vendido (algo de que não duvido), também seria algo que mereceria uma ovação. Com isto, despeço-me, triste, com mágoa e a querer acreditar que o comunicado feito tenha sido um erro e que se estivesse a vender o José Luiz Fernandez em vez de ti. Muito obrigado pelos anos de casa, pelo suor que deitaste por todos nós, pela vontade e garra que trouxeste a cada desafio, e por teres representado, sem nunca jogar no plantel principal, aquela que é uma mística que transcende tudo e todos. Aparentemente, o jantar, que cheirava tão bem, não era para nós…

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Foto de Capa: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

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