Por vezes deparamo-nos com situações inesperadas que por mais que reflitamos não conseguimos determinar uma razão pela qual o momento não sucedeu como era previsto. À primeira vista é isto que parece estar a acontecer com a afirmação de Jota.

O jovem jogador parece ter todas as condições para dar certo: Qualidade inegável, um potencial elevadíssimo, provas dadas em todos os escalões e seleções, uma maturidade (extracampo) muito acima da média etc. Mesmo com todos estes bons indicativos, João Filipe tarda em afirmar-se na equipa sénior dos encarnados.

Depois da excelente campanha no europeu de sub19 em 2018, onde ajudou a equipa das quinas a conquistar o título e arrecadou o prémio de melhor marcador (juntamente com Trincão do SC Braga), Jota colocou-se debaixo dos holofotes da atenção mediática. Nesta altura o, ainda júnior, transformou-se na grande bandeira da formação dos encarnados, gerando mesmo mais burburinho do que o próprio João Félix.

Jota faria ainda uma época na equipa B (um espaço que, para mim, é fundamental no desenvolvimento de um jogador) onde, ao serviço do próprio Bruno Lage, foi um dos melhores jogadores da segunda liga. No final da temporada, lá surgiu a estreia do novo “menino bonito” do Seixal.  Dentro de campo, parecia ainda um diamante em bruto. Eram observáveis pormenores não alcançáveis ao comum dos mortais, mas faltava qualquer coisa para ser um jogador de equipa grande. O tempo e a experiência iriam certamente conduzir Jota pelos melhores caminhos.

No início desta temporada, Jota integrou os trabalhos da equipa principal na pré-época e acabaria mesmo por ser inserido no plantel. Com o decorrer dos minutos, sobretudo por terras americanas, Jota demonstrou estar pronto para assumir papeis de maior responsabilidade na equipa das águias.

A espaços pareceu mesmo ser um dos melhores jogadores dos encarnados. Marcou vários golos, fez diversas assistências, trazia sempre uma nova dinâmica ao jogo e impunha um ritmo diferente cada vez que pisava o relvado. Mesmo atuando no papel de segundo avançado, uma posição que lhe era estranha até à data, Jota demonstrou versatilidade e partiu como um dos favoritos ao lugar.

Jota impressionou no início da pré-época, mas não conseguiu afirmar-se de forma definitiva
Fonte: SL Benfica

No início das competições oficiais a aposta na frente recaiu sobre Seferovic e Raul de Tomás, adiando assim a entrada do jovem português no 11. Com o baixo rendimento da dupla de ataque, Bruno Lage começou a explorar novas opções. Jota teria a sua oportunidade a titular no jogo frente ao RB Leipzig, aparecendo nas costas do espanhol Raul de Tomás.

O jogo do internacional sub21 português foi desastroso. Perdeu controlo da bola 19 vezes, não conseguiu executar um único um remate durante os 67 minutos que esteve em campo e teve muita dificuldade para realizar qualquer tipo de desequilíbrio ofensivo.

Ficou mais do que comprovada a inaptidão de Jota para a posição. Apesar de ter algumas características que facilitam a sua colocação num posicionamento mais central, o caracter vertical do jogo de Jota, a sua falta de experiência e a sua dificuldade em soltar a bola dificultam o sucesso desta aposta. Para poder aumentar a percentagem de sucesso a sua utilização deveria ser como extremo, sobretudo esquerdo.

Assistindo a um jogo de sénior de Jota, ficamos na dúvida se estamos num jogo do campeonato, no Estádio da Luz, ou num torneio interturmas de uma qualquer Escola Secundária. João Filipe entra sempre nas partidas com um nervosismo evidente e com uma vontade excessiva, por vezes imatura, de mostrar a sua qualidade. Nas suas ações com bola pensa em fazer tudo, mas acaba muitas vezes por não executar nada, exagerando sempre nos dribles e nos toques de “classe”. A qualidade em bruto está lá, mas tem que ser trabalhada e sobretudo tem que aparecer de forma natural.

Voltando ao paralelismo entre João Félix e Jota, as diferenças são gritantes. Logo nos primeiros jogos viu-se que Félix tinha capacidade para fazer diferença. A forma como entrou de rompante na equipa das águias é algo bastante raro, mas é um excelente exemplo para determinarmos o que falta a Jota para ser bem-sucedido ao mais alto patamar. A grande diferença entre os dois está sobretudo na maturidade do seu jogo e na tomada de decisão. Cada vez que Félix recebia o esférico era notável a confiança com que executava as ações e sobretudo a inteligência com que diferenciava os momentos do jogo.

A perceção do jogo que Jota tem parece estar ainda demasiado dependente da ideia básica típica de um extremo vertical: desequilíbrio individual- cruzamento ou remate. Diga-se que nada há de errado com jogadores mais verticais, mas para Jota ser bem-sucedido num cenário de equipa grande, sobretudo no sistema de Bruno Lage, o seu jogo terá que ter uma maior dimensão.

Jota tem uma qualidade inegável, mas tem que crescer ainda muito enquanto jogador
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Jota é ainda nesta fase um jogador muito “verde”. A qualidade emana dos seus pés, mas qualidade não chega para alcançar patamares mais altos de rendimento, é necessário adquirir experiência. É precisamente deste processo de adquirição de experiência, que o futuro a curto prazo de Jota está dependente.

Neste momento o jogador parece ter desaparecido das opções para segundo avançado, e para extremo não é o primeiro nome a sair do banco. Sem tempo de jogo significativo dificilmente o jogador evoluirá e a estagnação é sempre um perigo iminente na carreira de jovens jogadores que ainda estejam num estado de desenvolvimento embrionário. Os 188 minutos que o jogador tem, espalhados por 8 jogos, são ainda muito insuficientes para se poder exigir o que quer que seja ao jogador.

Não sei até que ponto não seria positivo para o atleta ir tendo alguns minutos na equipa B, ou mesmo que passasse por um período de empréstimo numa equipa competitiva, de maneira a manter a boa forma física e continuar o seu processo de desenvolvimento. No entanto, a lesão de Rafa, que deve afastar o internacional português dos relvados durante alguns meses, pode surgir como uma oportunidade de ouro para Jota.

Para já, Cervi é o dono da posição, mas mantendo a boa postura e a dedicação conhecida nos treinos Jota poderá ambicionar ocupar o lugar ou pelo menos apresentar-se como uma alternativa válida. Será que Bruno Lage vai apostar seriamente no camisola 73, ainda esta época? Fica a dúvida no ar.

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira

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