Terceiro Anel

E pronto! As minhas preces foram ouvidas, e, assim sendo, o Sport Lisboa e Benfica sagrou-se campeão nacional pela 33ª vez no seu historial. De Norte a Sul de Portugal, nas ilhas, em toda a nação onde se fala português ou onde o contingente luso é grande, gritou-se bem alto pelo nome do maior de Portugal!

Sim, eu sei que sou useiro e vezeiro nestas dissertações sobre a grandeza do Benfica, mas não me peçam para fugir a isso nesta altura do ano em que o meu ego benfiquista já atingiu as dimensões da Austrália. E ainda para mais depois de ter estado presente naquelas celebrações de dimensões bíblicas, no Marquês de Pombal. Meus amigos, aquilo foi transcendente! Cheguei a sentir-me como um miúdo de cinco anos que se perde dos pais na Costa de Caparica, numa qualquer tarde de Agosto. Não se via asfalto, só se viam seres humanos, completamente transbordantes de alegria, esquecendo muitas dessas pessoas as agruras que têm durante todo o ano, em termos pessoais ou profissionais. Dei por mim emocionado, embevecido, olhando para o céu, para os lados, para a estátua, para todo o jogo de luzes, para toda a parafernália de coisas preparadas para os festejos. E só pensava em como aquilo não podia ser real! Mal terminou o Benfica vs Olhanense, foram aos milhares e milhares de pessoas que acorreram àquele salão de festas lisboeta, que depressa se transformou num imenso mar vermelho.

Não escondo. Durante toda a noite mais pareci uma criança na Disneyland, completamente irrequieto, sem me conseguir conter. Mas voltaria a fazer exactamente o mesmo! Olhava para um lado e via casais felicíssimos; olhava para outro lado e via idosos imparáveis, totalmente sorridentes; olhava mais em diante, e deparava-me com pais a mostrarem aos seus filhotes como o Benfica consegue unir tanta e tanta gente; olhava  mais acolá e via gente que, sem se conhecer de lado nenhum, interagia como se já conhecessem há décadas.

Estátua do Marquês equipada com o manto sagrado, dois “alpinistas” a trepar o ex-libris alfacinha, restaurantes e barracas de venda de cerveja a facturarem como nunca, crise nacional esquecida, DJ a passar uma série de músicas para alegrar toda aquela massa humana, um enorme burburinho, cada vez maior à medida que o tempo passava, enquanto se aguardava pela chegada da comitiva benfiquista.

Isto é uma montagem, não é? Simplesmente incrível! Fonte: Antena Lusa
Isto é uma montagem, não é? Simplesmente incrível!
Fonte: Antena Lusa

E depois… o  tal momento que não me sai da cabeça. O tal clímax que proporcionaria algumas das imagens mais espantosas que já vi em toda a minha vida.  Ia eu todo contente da vida, em busca de mais uma cervejinha, quando do nada vejo o autocarro panorâmico com a equipa que eu mais amo. A compra da bebida alcoólica foi completamente esquecida! Só me importava estar junto dos meus ídolos, dos homens que me fizeram vibrar, rir, chorar, gritar, saltar, desesperar, ao longo de todos estes últimos meses. O veículo engalanado para a festa ia andando, e o céu iluminava-se com fogo de artificio, enquanto todo o espaço em volta do Marquês de Pombal ficou debaixo de uma monumental névoa, fruto de um espectáculo de tochas digno de uma qualquer manifestação nas ruas de Atenas. Aquilo era incrível, inexplicável, soberbo, inquietante! Ninguém parava, o ambiente era infernal! Jogadores como Siqueira, Garay, Markovic, Sulejmani, entre outros, completamente estarrecidos com toda aquela apoteose. E eu, ao constatar isso, fiquei deslumbrado, orgulhoso, ciente de como o Sport Lisboa e Benfica é importante para tantas, mas mesmo para tantas pessoas.

Festa encerrada, venha a Liga Europa! A Juventus é uma equipa fortíssima, mas não imbatível! E este Benfica também já mostrou ser capaz de derrubar obstáculos bem complicados, pelo que eu me apresento com confiança para estas meias-finais. De certeza que o plantel trabalhou com total afinco desde segunda-feira, independentemente das naturais ressacas que tenham apoquentado os jogadores, depois da noite dominical de folia. O que eu sei é que, se fosse treinador do Sport Lisboa e Benfica, nos tempos de palestra, teria abdicado de muita conversa e teria, isso sim, investido na visualização de imagens. E que imagens seriam essas? Pois bem, imagens que se reportam à festa do título nas ruas de Bragança, de Viseu, de Coimbra, de Évora, do Funchal, de Paris, de Bruxelas, do Luxemburgo, de Luanda, do Mindelo, de onde quiserem. Pelo menos eu, se fosse jogador do Benfica, e se não estivesse tão identificado com o clube, pensaria de certeza: “bem, eu não sou empregado de um simples clube, sou empregado de uma instituição que mexe com o íntimo de milhões de pessoas”.

Obrigado, Sport Lisboa e Benfica. Agradeço, do fundo do meu coração, a todos os que compõem a estrutura do clube, por me terem dado esta enorme felicidade.

E depois, a sensação mais fantástica: deitar-me todas as noites sabendo que Eusébio da Silva Ferreira e Mário Coluna, onde quer que estejam, estão felizes e orgulhosos, por tudo aquilo que o clube do seu coração tem feito.

Comentários