Estádio da Luz, minuto 64: o Benfica vai empatando a zero com um Vitória Futebol Clube muitíssimo recuado. Na sequência de um pontapé de canto batido por Grimaldo, no meio da confusão da grande área, o esférico sobra para Carlos Vinícius que pica a bola sobre Makaridze e finaliza à meia volta de forma sublime, tendo este sido o golo que deu a vitória aos encarnados.

Este era o segundo golo de Vinícius no campeonato em apenas 68 minutos de jogo, mas o mais impressionante foi ter precisado apenas de dois remates para fazer as redes abanarem por duas vezes. Esta eficácia aparece como uma lufada de ar fresco para os adeptos benfiquistas, numa altura em que a dupla Raul de Tomas e Seferovic leva ainda poucos golos.

Mas, afinal, quem é Carlos Vinícius e o que motivou o Benfica a pagar 17 milhões de euros pelo seu passe? E estará o brasileiro pronto para a titularidade?

Vinícius começou a sua carreira futebolística ao serviço das camadas jovens do Santos, onde jogava, surpreendentemente, a defesa central. Transferiu-se subsequentemente para o Palmeiras, atuando na equipa B do “verdão”.  Foi aqui que Vinícius, sem espaço no centro da defesa, foi avançando no terreno até chegar à sua posição atual – ponta de lança.  No entanto, não se destacou no gigante brasileiro e seguiu para clubes de menor dimensão: Caldense e Anápolis.

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Em 2017, chegaria a Portugal pela mão do Real Sport Clube – pequeno clube das freguesias de Massamá e Queluz-Belas -, que tinha sido recém-promovido à segunda liga. Na estreia em Portugal, Vinícius chegou, viu e venceu.

Os realistas viriam mesmo a ser a lanterna vermelha do campeonato, mas Vinícius foi o segundo melhor marcador da liga, com 19 golos (o Real marcou apenas 47), e foi mesmo eleito o melhor avançado do campeonato. Demonstrou, ao longo de toda a época, ter qualidade para integrar projetos mais ambiciosos, tendo características muito próprias.

Para mim, foi estranho não ter surgido qualquer interesse por parte dos três grandes no jogador, que demonstrou ter qualidade para, pelo menos, evoluir numa equipa B. No entanto, quem esteve bastante atento à sua época foi o Nápoles. O clube napolitano avançou para a sua contratação, emprestando-o posteriormente ao Rio Ave.

Ao mais alto nível em Portugal, Vinícius comprovou tudo o que lhe era apontado. Marcou 14 golos em vinte jogos, incluindo golos a cada um dos três grandes.  No Dragão, recebeu uma bola em profundidade, deixou os centrais para trás, ultrapassou Casillas e colocou a bola no fundo das redes. Esta jogada resume na perfeição o que é Carlos Vinícius. Apesar do sucesso, o brasileiro ficaria apenas meia época no clube de Vila do Conde, tendo seguido para o AS Mónaco na janela de transferências de janeiro.

No clube do Principado, Vinícius não se destacou tanto, tendo feito apenas dois golos em 16 jogos. Todavia, esta foi uma fase muito instável do clube monegasco, o que pode ter afetado negativamente o jogador. Esta segunda parte de época mais fraca não impediu o Benfica de abrir os cordões à bolsa e contratar o futuro camisola ’95’.

Vinícius destacou-se no Real Sport Clube e comprovou a sua qualidade no Rio Ave
Fonte: Real SC

Vinícius traz ao Benfica uma série de qualidades e características distintas dos demais avançados do plantel encarnado.

A sua capacidade física é, provavelmente, uma das suas melhores armas. Um jogador incansável e muito trabalhador, que pressiona, sempre de forma muito agressiva, a primeira fase de construção da equipa adversária. Encaixa como uma luva na ideia defensiva de Bruno Lage. Ter jogado a defesa central, numa fase embrionária da sua carreira, deu-lhe uma capacidade de compreensão, acima da média, dos movimentos defensivos do adversário.

Apesar da sua boa estrutura física (1,90 metros de altura), Vinícius é surpreendentemente móvel. Sempre em constante movimento, aparece muitas vezes nos corredores laterais, podendo fazer diagonais, com muito perigo, em direção à baliza do adversário.

A maior arma ofensiva de Vinícius é, precisamente, a procura do espaço. Muito forte e veloz na desmarcação, encontra, quase sempre, o espaço nas costas da defesa, procurando constantemente a profundidade, seja através de movimentos verticais ou diagonais vindo das alas. Esta procura do espaço pode ser aproveitada de forma positiva por Gabriel ou Pizzi, jogadores de qualidade no capítulo do passe longo. Neste sentido, o brasileiro é algo semelhante a Seferovic: ambos são avançados móveis que procuram frequentemente o espaço.

Com o espaço encontrado, Vinícius foi, ao longo de toda a sua carreira em Portugal, sempre extremamente eficaz em frente à baliza. Demonstra ter uma rara frieza no momento do um-para-um com o guarda-redes, finalizando com categoria ou ultrapassando o guardião com relativa facilidade. O camisola ’95’ tem também habitualmente um bom sentimento posicional ofensivo, utilizando de forma eficaz a sua compleição física para ganhar posição. Tem um bom pé esquerdo, mas tem ainda muita margem de progressão com o seu pé mais fraco (o direito).

Daniel Ramos, treinador de Vinícius no Rio Ave, apontou o jogo aéreo como a área a melhorar por parte do jogador do Benfica. Apesar da sua elevada altura, Vinícius é ainda pouco efetivo com a cabeça. Tem poucos tentos de cabeça e tem uma baixa taxa de sucesso nos duelos pelo ar. É sem dúvida uma área a melhorar.

Outro ponto menos positivo (ou melhor, menos consistente) é a sua qualidade técnica. É um jogador capaz de conduzir a bola durante vários metros, ultrapassar adversários no momento individual e ter pormenores interessantes em frente à baliza, mas faltam-lhe ferramentas mais básicas do jogo. Vinícius tem ainda alguma dificuldade em receber a bola entres setores. Muita desta dificuldade deve-se à forma como coloco os apoios (pés sempre muito paralelos), dificultando assim uma receção orientada, vendo-se obrigado a efetuar um passe para trás ou mesmo a ceder o esférico ao adversário. Esta dificuldade na receção e o fraco jogo aéreo fazem com que seja difícil a sua utilização como um avançado fixo e de referência, exigindo assim um companheiro mais técnico e menos móvel ao seu lado. Já lá iremos.

No momento da construção, Vinícius é também algo limitado, não sendo um exímio passador. Mesmo recebendo a bola de costas para a baliza, tem alguma dificuldade em combinar com os colegas de equipa. No entanto, creio que Vinícius tem condições para melhorar nestas aéreas e irá certamente consegui-lo ao serviço do Sport Lisboa e Benfica.

Vinícius traz ao jogo dos encarnados uma dimensão diferente de qualquer outro avançado: não é um jogador muito dotado tecnicamente, mas é exímio na finalização e trabalha imenso para a equipa. Pondo as suas características em perspetiva, parece poder formar uma boa dupla com Raul de Tomas. O espanhol pode colmatar as lacunas de Vinícius na receção e na construção de jogo e o brasileiro pode explorar o espaço habitualmente criado por de Tomas. Ambos têm, igualmente, qualidade para colocar a bola na baliza inúmeras vezes.

A dupla parece boa no papel, mas terá que ser testada. Provavelmente, os dois jogadores irão a jogo frente ao Cova da Piedade, naquela que será a quinta dupla atacante dos encarnados.

Estará, neste momento, Carlos Vinícius preparado para assumir a titularidade indiscutível no Benfica? Creio que ainda não, mas tem certamente qualidade para lá chegar num curto espaço de tempo.

Foto de capa: SL Benfica

Artigo revisto por Diogo Teixeira

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O Gonçalo é atualmente aluno da Escola Superior de Comunicação Social, onde persegue o seu sonho de ser jornalista. Descobriu a emoção do desporto quando assistiu, juntamente com o seu pai, ao clássico entre o Glasgow Rangers e o Celtic. A partir desse momento o desporto tornou-se uma parte fundamental da sua vida. Apaixonado pela prática desportiva, segue o futebol em geral e a NBA religiosamente. Tem dois clubes de coração o Benfica, e o Clube Atlético de Queluz clube da terra, no qual é atleta desde os 6 anos.                                                                                                                                                 O Gonçalo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.