Gonçalo Ramos confirma ser, pela segunda temporada consecutiva, um símbolo da possível mudança de paradigma que acaba por nunca se concretizar. Com a lesão de Rafael Leão e a consequente chamada em sua substituição para o Europeu sub-21, terá oportunidades para brilhar o que ainda não brilhou durante a temporada – onde foi ostracizado e quase ignorado, passando mais minutos na bancada da equipa principal do que a completá-los pela equipa B (ou por outra equipa), como seria desejável.

O rendimento no Europeu sub-21 servirá como diagnóstico na avaliação da temporada 2020/21: caso repita as façanhas do Europeu de sub-19, onde foi o melhor marcador, tornar-se-á num dos argumentos primordiais na contestação a Jorge Jesus – o papel secundário num ataque recheado de boas valias será visto como natural, por uns, e final prova quanto à normalidade do seu talento por aqueles que ainda esperam de Darwin a explosão que demora em acontecer.

Já muito depois do brilharete na Arménia, onde marcou quatro golos na campanha portuguesa até à final perdida com a Espanha, Gonçalo estreia-se na equipa principal dos encarnados numa vitória por 4-0 frente ao CD Aves, no tal jogo em que bisou em seis minutos. As soluções que oferecia (e oferece) dentro de campo ao nível do posicionamento, fruto de uma etapa formativa onde deambulou por todas as zonas de ataque, foram pólvora na definição do bode expiatório responsável pela segunda volta catastrófica.

Afirmava-se que Gonçalo Ramos poderia ter sido o João Félix da temporada, criando efeito semelhante no rendimento geral da equipa se introduzido oportunamente no lugar de Chiquinho, a solução encontrada por Bruno Lage depois de gritar desesperadamente por Luca Waldschmidt. Era com grandes expectativas, portanto, que se olhava para a época 2020-21 e para Jorge Jesus como potenciais fatores capitais no desenvolvimento sénior do prodígio. No entanto, foram esperanças em vão.

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Esquecendo as naturais apetências do técnico português para ignorar a formação (há poucas exceções como Gelson Martins ou Reinier), a aposta em Gonçalo ficou sempre para segundo plano em detrimento de Seferovic ou Darwin.

Gonçalo Ramos reclama por mais oportunidades na equipa principal.
Gonçalo Ramos reclama por mais oportunidades na equipa principal.
Fonte: Diogo Cardoso/ Bola na Rede

As dispensas de Jota, Florentino ou Tomás Tavares – companheiro da geração de 2001, onde se incluem os nomes de Tiago Araújo, Úmaro Embaló, João Ferreira ou Gonçalo Inácio, do Sporting CP – já o previam, sinais significativos do futuro a curto prazo quanto ao aproveitamento dos talentos do Benfica Campus.

Em março, os minutos de utilização são escassos e as notícias de um possível descontentamento acumulam-se. Afirma-se sobretudo uma intenção do jogador em consolidar tempo de jogo, em qualquer que seja a equipa – Gonçalo quer é jogar, acumular minutos nas pernas e dar continuidade à sua evolução.

Ao serviço da equipa B, conta com oito golos em seis jogos – por hoje, o lote de melhores marcadores (Abubakari do Casa Pia AC, Cassiano do FC Vizela e Bouldini da Académica OAF) contam dez com um mínimo de 20 jogos. Cedo se percebeu a urgência de outro contexto competitivo, oportunidade que surge em janeiro com a iminente e apetecível troca com Rodrigo Pinho (curiosamente, um empréstimo ao CS Marítimo foi também equacionado para João Félix), situação onde sairiam todos a ganhar.

O SL Benfica, que veria chegar aos seus quadros um real concorrente às duas únicas soluções viáveis aos olhos de Jesus; e para Gonçalo, que teria a primeira chance de real crescimento longe do Seixal, ajudando um CS Marítimo periclitante na Primeira Liga a alcançar resultados mais satisfatórios.

Com a permanência no plantel, nada mudou e foram-se sucedendo as chamadas à equipa principal que, na maioria das vezes, significariam contributo zero. O mal de uns é a sorte de outros – Rafael Leão, elemento importante na época positiva do AC Milan, lesiona-se e abre espaço a Gonçalo, que verá o Europeu como oportunidade de justificar outra importância e desafiar a avaliação de Jesus.

As circunstâncias de uma hipotética titularidade são difíceis dado o lote de concorrentes. Francisco Trincão, Francisco Conceição, Tiago Tomás ou Danny Mota formam o leque disponível na enxaqueca de Rui Jorge. Sabemos todos que, escolhendo Gonçalo como um dos dois da frente e, considerado o hipotético sucesso deste, um atestado de incompetência será passado a Jorge Jesus e ao modelo de gestão de ativos encarnados.

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