Osvaldo Nicolás Fabián Gaitán – Nico Gaitán – é um prodígio de técnica, um raro exemplar de inteligência em campo.

Pessoa tímida que sempre teve no relvado o mundo onde expressar as suas emoções, sempre de bola no pé, sempre emocionalmente ligado ao fenómeno que é o futebol. O argentino nunca conseguiu esconder das bancadas os seus sentimentos. Os seus toques, os seus passes, as suas fintas, tabelinhas e remates sempre foram um espelho da sua alma.

Já vimos um Nico triste de futebol desinspirado, já vimos um Nico feliz de futebol alegre e já vimos um Nico realizado e de futebol entusiasmante.

Chegou ao Estádio da Luz no Verão de 2010. Chegou para substituir o seu compatriota Ángel Di Maria. Dois mágicos, um mais desequilibrador pela linha em velocidade e outro pelo centro em classe.

Foram seis anos de águia ao peito. Meia dúzia de anos onde actuou pela esquerda, pelo centro e pela direita. Chegou mesmo a ser um Simão da ala direita. Enfrentou lesões e problemas de confiança (talvez também pessoais) que durante ano e meio condicionaram o seu futebol. Nos primeiros três anos de vermelho e branco não sentiu o sabor de ser campeão. Foram anos de maturação. Foi abaixo e levou o seu futebol consigo, voltou à tona e elevou o futebol do Sport Lisboa e Benfica.

Quando saiu foi como tricampeão. Deixou na Luz e na memória dos adeptos momentos épicos que irão perdurar para sempre. Juntamente com Pizzi, Jonas e Mitroglou formou um quarteto mágico de sonho.

Era capaz de resolver um jogo por si, com um remate impensável ou uma arrancada imparável. Era capaz de vencer pela forma como fomentava o colectivo da equipa, provocando os seus colegas a serem melhores, entendendo-os e encontrando-os em qualquer pequeno espaço onde se encontrassem.

No Sport Lisboa e Benfica foram 253 jogos, 41 golos e 88 assistências. Conquistou três títulos de campeão nacional, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga, uma Supertaça e ainda foi duas vezes vice-campeão da Liga Europa.

Nico Gaitán formava um quarteto de luxo com Jonas, Mitroglou e ainda Pizzi
Fonte: SL Benfica

Não dá para esquecer Nico Gaitán de vermelho e branco a criar a vitória do Benfica em pleno Vicente Calderón. Na segunda-parte, já depois de ter concretizado o golo do empate, o argentino desenhou uma jogada de futebol de rua. Arrancou da área encarnada, tabelou na linha com Jonas, em velocidade tirou uma garrafa de água do caminho, puxou para dentro batendo o seu marcador e de pé direito encontrou a desmarcação de Gonçalo Guedes para o golo da vitória.

Em jogo de Liga Europa conseguiu na Luz, frente ao PAOK, batizar um livre com o seu nome. Uma “panenkada” de fora da área a sobrevoar a barreira até se aninhar no conforto das redes. Um golo impensável. Um golo só possível no mundo maravilhoso de um virtuoso como Nico Gaitán.

E para todo o sempre ficará o bailado em pleno Estádio José Alvalade. Impossível descrever. No momento em que recebe a bola deu-se um clique na cabeça do argentino e de repente descobriu o fogo e criou a teoria da relatividade. O golo nasceu assim que tocou na bola. A partir daí foi bailado. Dançou, avançou, tabelou com Enzo que lhe devolveu de primeira pelo ar e Nico, sem deixar a redonda tocar no relvado, tocou também de primeira para Lima, ao primeiro toque, finalizar no ar um golo pintado pelo fantástico maestro que Gaitán se tornara.

Em 2016 procurou um campeonato com outra qualidade, mas acabou por escolher uma casa que não o compreendia. Nico Gaitán respira e vive Futebol. Sem bola é um homem triste, um jogador apático. No Atlético de Madrid perdeu a alegria. Seguiu-se a China e a MLS, desparecido num mundo que não era seu.

Agora, a fazer 32 anos, poderá voltar a encontrar em França a felicidade e o prazer do jogo. Bom campeonato, boa equipa para o seu futebol e um clube que está a lutar pelo pódio francês. No Lille OSCM poderemos voltar a ver o Nico fantasista que vive feliz a vender fantasias aos adeptos do Futebol.

Eu estou desejoso por o ver renascer. O futebol de Nico Gaitán é pura emoção na ponta da chuteira.

Foto de capa: SL Benfica

Revisto por: Jorge Neves

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