Há jogadores que ficam na nossa memória para todo o sempre. Eu tenho alguns que, pela sua forma característica de jogar, pela sua contribuição ou pela sua imagem, me marcaram. Mas depois houve Robert Enke. Se me perguntarem porque é que me marcou tanto, não irei saber explicar. Mas que senti uma empatia muito forte por ele desde o início, isso sim.

Enke chegou ao Sport Lisboa e Benfica na temporada de 1999/2000, talvez muito por força da vinda do conceituado técnico alemão Jupp Heynckes para Lisboa. O guarda-redes alemão chegava para fazer esquecer (quase como que numa tarefa hercúlea!) o ex-internacional belga Michel Preud’homme, que havia então posto um ponto final na sua carreira. O SL Benfica passava por uma fase em que qualquer jogador estrangeiro que chegava era motivo para desconfiar; foram muitos os jogadores de qualidade duvidosa que assinaram pelo Glorioso nesta altura, mas Enke mostrava ser diferente. Enke irradiava uma luz (a Luz?) que, salvo num jogador ou outro, pouco viamos. E talvez tenha sido aí que começou a minha adoração para com ele.

Os primeiros tempos não iam ser fáceis, devido à pesada herança de “Saint” Michel. Ainda assim, Enke pegou de estaca e deslumbrou os Benfiquistas com as suas capacidades. Guarda-redes de uma elasticidade e reflexos incríveis, era também muito inteligente e perspicaz na hora de adivinhar para onde poderia cair o remate do adversário, fazendo dele um especialista no 1×1 e também a defender grandes penalidades. Tinha também uma distribuição longa de qualidade, à imagem dos melhores guarda-redes alemães da actualidade, como Manuel Neuer ou Marc-André ter Stegen.

Só mesmo a sua morte trágica parou Enke e o impediu de ser uma das maiores referências nas balizas da Maanschaft
Fonte: Robert-Enke-Stiftung

Foi durante três temporadas que Robert Enke encantou as bancadas da velhinha Luz. Grandes exibições ali ficaram, grandes defesas que impediram tantos golos certos… O guarda-redes alemão cumpriu 93 jogos com o Manto Sagrado e as suas prestações levaram-no a dar o salto para o Futbol Club Barcelona. Infelizmente, o peso da camisola poderá ter sido decisivo e Enke cumpriu somente quatro jogos oficiais nos blaugrana, não se conseguindo impor ao seu principal concorrente, o internacional argentino Roberto Bonano. Na temporada seguinte e com a chegada do internacional turco Rüştü Reçber, acabou emprestado ao Fenerbahçe Spor Kulübü na primeira metade da temporada, seguindo depois para as Ilhas Canárias para representar o Club Deportivo Tenerife, até final de 2003/2004. Enke passou por algumas dificuldades de adaptação a mais uma nova realidade e acabou, assim, por regressar à sua terra natal na temporada de 2004/2005 para assinar pelo Hannoverscher Sportverein von 1896 (Hannover 96). E por aqui ficaria o resto da sua carreira, até ao seu trágico desaparecimento no ano de 2009.

Robert Enke estava, nesta altura, bastante debilitado psicologicamente devido à morte da sua filha, em 2006. Foram três anos de bastante sofrimento e onde nunca conseguiu verdadeiramente lidar com essa perda, agravando a depressão que, segundo a sua esposa, vinha já a ser clinicamente vigiada desde 2003. A 10 de Novembro de 2009 e após deixar uma nota, Enke acabaria por se suicidar.

16 anos se passaram desde que Enke partiu da Luz e 9 anos se passaram desde que partiu deste mundo. Por vezes, ainda espero vê-lo regressar e ser feliz junto de nós. Gostaria de vê-lo terminar de vez com aquela depressão e sofrimento que sentia e abrigar-se no calor das bancadas da Luz – a nova, aquela que ele nunca chegou a conhecer enquanto nosso jogador. Gostaria de voltar a ver aquele sorriso sincero e aquela defesa impossível que me encantaram desde o primeiro momento. Enke era o jogador que, enquanto criança, eu tentava imitar quando jogava à bola com o meu Pai. Nunca me irei esquecer da frase: “Pai, chuta alto para fazer uma defesa como o Enke”. Tal como nunca me irei esquecer do dia em que o tive à minha frente e onde recebi um autógrafo do meu ídolo em grande destaque, num boné do Glorioso. “Assina aqui em grande, Enke. Ele gosta de ti.”, disse-lhe o meu Pai. E Enke sorriu, como se tivesse entendido. E aquele sorriso sincero ficará na minha memória para todo o sempre.

Descansa em Paz, amigo Robert.

Foto de Capa: SL Benfica

 

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Alfacinha de gema e Benfiquista por natureza, Bruno é um obcecado por Futebol e foi através da escrita que encontrou a melhor forma de dar a conhecer essa sua paixão pelo desporto-rei. É capaz de estar desde Segunda-feira até Domingo à noite a ver todos os jogos que passam na TV. Terá sido em pequeno que toda esta loucura futebolística foi despertada pelo seu Pai e pelo seu tio que, respetivamente, o levavam ao Estádio do Restelo e ao Estádio da Luz. Bruno não suporta facciosismos e tenta sempre ser o mais crítico possível para com o seu clube.                                                                                                                                                 O Bruno não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.