Jorge Jesus | Coentrão como exemplo na roda das adaptações

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16 de Agosto, 2009. Estamos no primeiro fim-de-semana da Primeira Liga 2009/2010 e é a estreia oficial de Jorge Jesus ao comando das águias. O contexto ajuda, já que FC Porto e Sporting CP se tinham estreado com perda de pontos e, na Luz, o convidado é o CS Marítimo.

Estava tudo reunido para continuar a surfar na onda vermelha, criada por uma pré-temporada como há muito já não se via e com resultados empolgantes, como a vitória esclarecida no Torneio de Amesterdão.

Ninguém estaria à espera, portanto, que os insulares fossem os primeiros a inaugurar o marcador logo aos 23 minutos, num penálti exemplarmente marcado pelo brasileiro Alonso com recurso a paradinha anacrónica, daquelas que nos dias de hoje não contam e que, à altura, davam conversa. Rocambolesca a forma como Quim é enganado.

Os minutos foram passando e nada de remontada. A ansiedade crescia, as jogadas iam saíndo e o perigo era realidade assente nas imediações da área de Peçanha – mas o guarda-redes brasileiro estava em tarde inspirada e nem as bombas de Cardozo passavam.

Jesus, que tinha começado com David Luiz à esquerda, vê-se desesperado por soluções vindas do banco. Mete Weldon para ajudar nas últimas definições e tira Sidnei, que até aí fazia companhia a Luisão no eixo defensivo. Para arrumar a casa, e como o jogo permitia esse tipo de ousadia, mandou Coentrão recuar para a posição antes ocupada por David. Não se portou mal o português nesse papel, ajudou (e muito!) à criação de jogadas e foi ele o assistente para o golo do empate já perto do fim. Soube a pouco.

Avançamos no tempo. 26 de Outubro. Outra vez visita insular, desta feita os que equipavam de alvinegro. Vinha aí o Nacional da Madeira de Manuel Machado, némesis de Jorge Jesus – os dois mantinham relação díficil, numa deliciosa dicotomia entre o aprumado bom falante e o gingão despreocupado com adornos triviais desse tipo – e a oportunidade era perfeita para marcar posições na rivalidade e alimentar egos. T

Tracção à frente, pensou Jesus ao olhar para a tabela classificativa: o Benfica era primeiro e contava 24 golos marcados à sétima jornada. Shaffer, o titular até aí, estava lesionado e César Peixoto ressente-se de alguma coisa no aquecimento. Óptimo, deve ter pensado Jesus, quando se lembrou do jogo frente ao Marítimo e da possibilidade de jogar com Coentrão e Di Maria em simultâneo.

Aconteceu e correu tão bem (6-1), que o português irreverente das Caxinas passou a ser a principal opção para aquele lado. Se é verdade que em jogos de maior gabarito era protegido no banco de suplentes (Braga, Liverpool, Dragão), na época seguinte Fábio assumiu-se como a principal figura encarnada, conclui época de enorme sucesso e reclama voos maiores que chegam pela mão de José Mourinho, rumo a Madrid. Ficaram 30 milhões de euros nos cofres, o valor da claúsula de rescisão.

Fábio Coentrão é a adaptação mais bem sucedida de Jorge Jesus

Coentrão é o maior exemplo do vasto leque de adaptações de Jorge Jesus, que brilhou nesse aspecto ao comando dos encarnados com outros dois nomes – Matic e Enzo – e que tentou replicar com outros – Melgarejo ou André Almeida – sem resultado qualitativo semelhante, embora tenham ajudado o clube em diversos momentos. Sabendo de antemão da grande tendência do técnico em procurar em casa o que precisa, há possibilidades várias para a próxima temporada que não podem ser vistas como más ideias, ainda que os tempos sejam outros e as condições disponibilizadas por Luis Filipe Vieira sejam diferentes para melhor, pelo menos na folga financeira com que são abordados os mercados de transferências.

Em 2014-15, foi Jesus quem pegou em Pizzi para suprir a ausência de Enzo Pérez, embarcado para Valência em Janeiro. Pegou no até aí extremo português e deslocou-o para zonas centrais – esse campeonato é terminado com ele à frente de Fejsa e no apoio a Jonas, com resultados incríveis no que à nota artística diz respeito.

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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