Cá estamos nós outra vez… Jorge Jesus está de regresso a Portugal e ao SL Benfica. O clube encarnado anunciou esta sexta-feira na CMVM a contratação do técnico ao CR Flamengo, minutos depois de os brasileiros anunciarem a saída do técnico português nas redes sociais.

Jorge Jesus abandonou o Sporting CP em julho de 2018. Desde esta data, o treinador português pairou como uma sombra sobre SL Benfica e FC Porto. Cada vez que alguma destas equipas atravessava uma fase menos positiva, surgia sempre o nome do treinador natural da Amadora. Desta vez a especulação é mesmo realidade.

Jorge Jesus, ainda mais depois dos êxitos no CR Flamengo, atingiu um estatuto de quase divindade no futebol português. O seu nome surge sempre associado a grande futebol e a grandes equipas. É absolutamente inegável que o treinador português é um grande treinador. Os êxitos no Brasil, as finais europeias, a transformação no Sporting CP, etc. Mas, terá o seu impacto no SL Benfica sido assim tão grande para justificar todo este estatuto?

Anúncio Publicitário

No clube encarnado, foi campeão três vezes em seis épocas. 50% de vitórias. Pondo os números em perspetiva, é a mesma percentagem de Rui Vitória ou Bruno Lage. As finais da Liga Europa e as boas caminhadas na Liga dos Campeões são uma das grandes bandeiras do treinador.

No entanto, o que mais deixou saudades nos adeptos encarnados foi de certeza a qualidade de jogo apresentada. Quase todas as equipas, mas sobretudo as de 2009/2010 e 2013/2014, atropelavam todo e qualquer adversário a nível nacional e na Europa batiam o pé a qualquer tubarão. É perfeitamente aceitável exigir um treinador que provoca tantas memórias de bom futebol, num momento em que a equipa só venceu quatro dos últimos 15 jogos.

Olhando para as coisas de forma menos sentimental: será Jorge Jesus, neste momento, o treinador ideal para o SL Benfica?

Lá está, a qualidade do treinador de 65 anos é inegável. Com a sua chegada a Portugal, passa a ser, sem qualquer dúvida, o melhor técnico no nosso campeonato. Contudo, convém relembrar que Jorge Jesus abandonou os encarnados, há cerca de cinco anos, por não encaixar no perfil ideal para dar continuidade ao “projeto desportivo” do clube das águias. A verdade é que vai regressar.

Esta decisão levanta variadíssimas questões sobre a seriedade ou planeamento deste tal “projeto desportivo”… Relembrar ainda que Luís Filipe Vieira, há pouco mais de um ano no auge da “era Bruno Lage”, afirmou numa reunião com sócios que, enquanto fosse presidente, Jorge Jesus nunca mais treinaria o Benfica. No entanto, cá estamos nós… Curioso a decisão do presidente do clube encarnado ser tão perto das eleições onde se prevê a maior contestação no seu “reinado”.

A chegada de Jorge Jesus trará certamente uma coisa: investimento. O treinador já fez transparecer que não trabalhará com este plantel, o qual considera limitado. Já se fala da chegada de Bruno Henrique e Gerson, dois jogadores que poderiam acrescentar muito, e de orçamentos de transferências na ordem dos 100 milhões de euros. Numa altura de incerteza provocada pelo covid, este tipo de investimento pode parecer algo precipitado e pouco pensado.

Não sou o único a ter este tipo de pensamento. Aliás, Domingos Soares de Oliveira concorda. O CEO do SL Benfica disse recentemente numa entrevista que não se previam “grandes investimentos” e que contratações acima dos 10 milhões de euros seriam todas cirúrgicas. Ainda bem que a direção do clube encarnado mantém a sua palavra e parece ter este “projeto desportivo” completamente delineado.

Com Jorge Jesus no banco, o aumento do nível exibicional da equipa encarnada é um dado adquirido. O já experiente treinador conseguirá, com toda a certeza, extrair muito mais de certos elementos do plantel. No entanto, acredito que vários atletas desaparecerão completamente das opções. É aqui que entra a questão da formação.

Talvez o grande defeito que todos apontam a Jorge Jesus. A sua carreira ficará para sempre marcada pelo erro de Bernardo Silva. Se é verdade que não é conhecido por apostar na formação, também é mentira que pura e simplesmente exclua os jovens jogadores das suas opções. Reinier, André Gomes, Ivan Cavaleiro, Gelson Martins ou Paulo Oliveira demonstram que este argumento não é totalmente verdade. Contudo, todos estes jogadores foram lançados sobre circunstâncias muito especiais. Devido a crises de lesões, falta de melhores opções ou grande concentração de jogos, como foi o caso de Reinier.

Conseguirão Paulo Bernardo, Tiago Dantas ou Ronaldo Camará conquistar lugar numa equipa que conta com Weigl, Florentino, Taarabt, Gabriel, Samaris, Gerson (se for concretizado), um possível regresso de Gedson e até David Tavares, mesmo admitindo que haja saídas? O mesmo se pode dizer para Jota ou Gonçalo Ramos. O possível investimento irá certamente tirar minutos a estes jovens prodígios. Este “projeto desportivo” parece-me extremamente volátil….

A questão da formação deixa alguns benfiquistas receosos em relação ao regresso de Jorge Jesus ao clube
Fonte: SL Benfica

A chegada de Jorge Jesus trará certamente muita qualidade ao SL Benfica e ao campeonato português. Mas é Jorge Jesus a opção ideal? Não, longe disso. Existiam opções melhores, mais baratas e que trariam algo de novo ao emblema das águias. Para isto acontecer o SL Benfica tinha de ser gerido como um clube desportivo e não uma empresa.

Creio que o ciclo de Jorge Jesus no clube encarnado já terminou há bastante tempo e com razões válidas. Jorge Jesus continua a não encaixar no perfil de treinador para o “projeto europeu”, “construído através da formação”. Isto é culpa do treinador português? Óbvio que não. Nesta altura acho que todos sabem de quem é a culpa…

Artigo revisto por Joana Mendes