Publicidade

Jupp Heynckes | O primeiro treinador alemão do SL Benfica

Pedro Cantoneiro · 8 min

Jupp Heynckes
Fonte; FC Bayern

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Como classificas o trabalho de Jupp Heynckes na Luz?

 

A chegada de Roger Schmidt não é um exclusivo histórico em nenhuma vertente, apesar de ser um corte transversal com a recente política do clube em relação a treinadores – portugueses  desde 2008 – e de significar uma esperança em recuperar terreno para a vanguarda europeia, contratando alguém da mesma escola de alguns da moda como Rangnick ou Klopp.

Em 1999, o contexto desportivo do clube era tudo idêntico ao actual: não se vencia títulos há três anos, não se era campeão há cinco. Depois de Graemme Sounness, Vale e Azevedo arregaçou as mangas e foi recuperar o campeão europeu de 97-98 do ano sabático.

Jupp Heynckes, o alemão que fez o Real Madrid regressar ao topo da Europa 32 anos depois, fora despedido na semana seguinte a esse triunfo – além do medíocre 4º lugar no campeonato (a 11 pontos do Barcelona de Van Gaal, primeiro classificado), perdera o balneário dos ainda não galácticos. Pelo menos foi essa a razão apontada por Lorenzo Sans, presidente madridista.

Sentindo-se injustiçado pela exigência espanhola e desconsiderado pelo próprio sucesso, tirou férias. Obviamente que não se sentiu valorizado, ele que sempre estivera habituado aos maiores palcos – como treinador e jogador, já que levou o Borussia Monchengladbach às costas nos anos 70, com 218 golos em 309 jogos.

Quatro Bundesligas (três seguidas), uma Pokal e a UEFA de 1974-75, numa final onde despacha o Twente com hattrick e 5-1 no placard. Ainda perde uma final da Liga dos Campeões para o demolidor Liverpool de Shankly e Dalglish, em ’77.

A lenda também se construiu na selecção: com a Maanschaft é campeão europeu (1972) e mundial (1974), acumulando 39 internacionalizações e 14 golos. Sim, poderia ser melhor se não coabitasse com Gerd Muller, o mesmo que lhe tirou três troféus de melhor marcador da Bundesliga.

Como treinador, mantém a bitola. Aos 34 anos – estamos em 1979 – substitui o lendário Udo Lattek no banco do Monchengladbach. Um ano depois, é finalista da Taça UEFA – que perde frente ao Eintracht Franfurt. Está no clube até 1987, onde acumula boas campanhas internas e façanhas europeias, como os 5-1 ao Real Madrid em 1985-86, mas acaba sem títulos.

Isso não impede o Bayern de o ir buscar e é com os bávaros que se estreia nos troféus: duas Bundesligas e duas Supertaças. Em 1992 ruma a Bilbau para treinar o Athletic, em 94 volta á Alemanha para treinar o Frankfurt, experiência que lhe correu mal pela sua tendência de pôr tudo em causa pelos anárquicos métodos de liderança no balneário – Okocha e Yeboah já não o podiam ver à frente.

Naturalmente, pois, volta no ano seguinte à La Liga, assentando as malas nas Ilhas Canárias com o Tenerife à sua espera. É o trabalho meritório – meias-finais da Taça UEFA, além dum 5º lugar – que lhe dá o emprego em Madrid. Portanto, até 1999, já fora campeão alemão e europeu, além de registos respeitáveis em clubes de segunda linha. Sabia o que era ganhar e manter-se no topo.

Muitas bocas abriram-se de espanto então pelo coelho tirado da cartola por Vale e Azevedo, que conseguiu atrair para aquele Benfica moribundo alguém habituado a ganhar consecutivamente há duas décadas.

O dinheiro em falta nos cofre não permitiu grandes remodelações de plantel, pelo que as adições feita cingiram-se a regressos de emprestados – Maniche, Marco Freitas e José Soares – , contratações a custo zero como Chano, de baixo custo como um ainda desconhecido Robert Enke ou empréstimos: Okunowo, vindo do Barça, Tote – e não Totti, como se pensou inicialmente na comunicação social – do Real Madrid.

Preud’Homme despede-se no jogo de apresentação, entregando a baliza a Bossio e a um verdinho Enke. Um prenúncio do que aí viria – não levado a sério pelos adeptos, eufóricos pelas circunstâncias de início de época e por um começo de campeonato avassalador, com seis vitórias e um empate nos primeiros sete jogos – um recorde que só Jorge Jesus, em 2009-10, superou.

O SL Benfica era primeiro no final de Outubro. Milagre. A equipa ia bem por cá e lá fora, com vitórias em Bucareste (0-2) frente ao Dynamo (que tinha como dupla atacante Marius Niculae e Adrian Mutu) e em Salónica (1-2) frente ao PAOK.

Ia tudo de vento em popa até Jaime Pacheco pôr água na fervura e vir à Luz com o seu Boavista dividir pontos. Estávamos na 8ª jornada, a 24 de Outubro. O início do fim.

Na noite de Halloween, o Benfica foi ao Ribatejo ser massacrado pelo Alverca. 1-3. A 4 de Novembro, recebe o PAOK para uma segunda mão que se pensava confortável – errado, que os gregos fizeram-se efectivamente gregos e arrancaram um resultado em espelho do da primeira mão, obrigando o jogo a ir para os penalties. O Benfica lá se safou com Enke em destaque: duas defesas, que não teriam sido feitas soubesse ele o que se seguiria.

Mas antes, e dando fôlego para o ciclo infernal, vitória frente ao Braga (2-1) e ao Torres Novas (1-0) para a Taça. Ufa, fixe. Pena que o próximo passo fosse a visita às Antas, o que nos anos noventa significava quase sempre derrota: sim, outra, por 2-0. Nem foi preciso voltar a Sul a seguir que a meio da semana havia competições europeias ali perto. Em Vigo, nos Balaídos.

E pronto, estávamos a 25 de Novembro com a época perdida. No final do pesadelo, Vale e Azevedo atira culpas para os jogadores, obrigando João Vieira Pinto a dar a cara em conferência de imprensa caricata. O clube estava em reboliço, o escândalo instalou-se e nunca  se vira algo assim. Era o fundo do poço para o Benfica, que ironicamente estava… em primeiro lugar do campeonato: 10ª jornada, mais quatro pontos que o FC Porto e cinco que o Sporting, que – spoilers – viria a ser campeão.

Se não era visível ainda o completo descalabro, espera-se cinco jornadas: à 15ª, derrota em Guimarães contra o Vitória de Quinito, que resulta em quatro pontos de distância para o FC Porto, que agora já era primeiro. O Sporting, que estivera a cinco, estava três acima. O Benfica era último do pódio em Janeiro.

Com a abertura do mercado, o Benfica reteve da eliminatória com o PAOK dois craques. Sabry, que marcara de livre na Luz, e Machairidis, médio de equilíbrios. Vieram os dois e veio João Tomás, uma promessa farta de acumular golos na Segundona.

Vinham juntar-se a um plantel no qual destoavam Nuno Gomes, João Vieira Pinto ou Poborsky, por terem tanta qualidade relativamente aos restantes colegas. O contraste era notório. E sim, as movimentações simularam, por instantes, um efeito positivo – entre a 18ª e a 22ª jornada, série de cinco vitórias consecutivas, que aguentavam o Benfica no comboio do título.

A 27 de Fevereiro, porém, o destino futebolístico orquestrou uma brincadeira dos infernos: e que tal meter Jorge Jesus – treinador do Estrela da Amadora – a atropelar o Benfica e a acabar com as esperanças patetas dum título impossível? 3-0 na Reboleira, com Gaúcho e Verona a dinamitarem a defesa encarnada. Acabava tudo ali.

Até final, mais três derrotas e um empate nas 11 jornadas restantes. O único momento válido de restituir parte da muita dignidade perdida foi o livre de Sabry a gelar Alvalade, numa noite em que o Sporting poderia ser campeão. O Benfica rejeitou o papel de bobo da corte e empurrou os festejos para a última jornada.

O final da época trouxe o erro histórico da dispensa de João Pinto e o definitivo choque entre massa adepta e o treinador alemão, remetido a moço de recados na disputa entre jogador e presidente. Ao treinador alemão faltou tino, faltou a identificação com a realidade benfiquista e assim tomou o lado errado. João Pinto dava a sua versão em 1999, no dia que anunciou ser jogador livre e que iria desempregado ao Euro 2000, uma situação inimaginável aos dias de hoje.

«Foram eles (Vale e Azevedo e Jupp Heynckes) que me dispensaram. O treinador julgo que disse á admnistração da SAD que prescindia dos meus serviços. Por isso..»

Quando questionado sobre se tinha falado com qualquer um deles, atirava um «Não. Porque o treinador não me disse pessoalmente isso, visto que teve oportunidade de o fazer. Disse previamente a todos os outros meus colegas que foram dispensados e no último dia que trabalhei no Benfica despedi-me dele, normalmente, e ele não teve a coragem de me dizer na cara que me dispensava».

Para um alemão, geralmente estereotipados como cautelosos e ultra racionais, foi um erro de palmatória ir contra o símbolo do balneário e ídolo dos adeptos. Foi um Verão dificil para Heynckes, que se manteve no cargo e tentou acautelar a saída do capitão e de Nuno Gomes com as chegadas de Van Hooijdonk, Marchena ou Fernando Meira.

O plantel era (pouco) melhor que o anterior, mas o inicio catastrófico impediu qualquer oportunidade de redenção na segunda época: primeiro, uma derrota frente a um semi-profissional Halmstads, na Suécia (1-2).

Depois, uma esforçada vitória em casa frente ao… Estrela da Amadora. Heynckes reagiu a quente no rescaldo à partida («Já não aguento mais isto neste clube. Se quiserem que vá embora, vou-me já amanhã») e no dia seguinte já não era treinador encarnado. Seria substituído por um tal de José Mourinho.

Foi um desencontro penoso. Lamentavelmente, um técnico da sua estirpe merecia um Benfica mais estável e mais capacitado de lhe conseguir fornecer o material para o sucesso – como teve no Bayern uma década depois, onde perdeu tudo primeiro para ganhar no ano seguinte, numa das histórias mais bonitas dos tempos recentes e que, ironicamente, o Benfica repetiu logo a seguir.

Foi um treinador geracional, que quebrou recordes recorrendo a um 4-4-2 de vertigem que tentou implementar na Luz – mas a matéria prima disponível estava longe de conseguir replicar as suas ideias. Era como treinador o que foi como ponta-de-lança: incisivo, voluntarioso, criterioso mas com um feitio difícil. Que, olhando de relance pelas muitas peripécias da carreira, foi o que o impediu de ser ainda maior.

Pedro Cantoneiro

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Luuk de Jong | O que poderia ter sido no Dragão sem lesões

A passagem de Luuk de Jong pelo FC Porto deixa uma sensação de que poderia ter sido muito mais marcante se as lesões não tivessem surgido pelo caminho. Apesar das dificuldades físicas que enfrentou, o avançado neerlandês demonstrou qualidades que justificavam a confiança depositada nele e que faziam acreditar num contributo importante para a equipa azul e branca. Luuk de Jong é um ponta de lança com características muito próprias. A sua capacidade de jogar de costas para a baliza, a força no jogo aéreo, o sentido de posicionamento e a eficácia na finalização fazem dele um avançado capaz de resolver jogos e oferecer soluções diferentes no ataque. Num clube como o FC Porto, habituado a lutar por títulos e a competir ao mais alto nível, estas qualidades poderiam ter sido fundamentais, sobretudo nos momentos em que a equipa precisava de alguém capaz de transformar cruzamentos e oportunidades em golos.

Miguel Costa · 2 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.