Bruno Lage chega ao comando principal do Sport Lisboa e Benfica numa altura em que o futebol encarnado se encontrava apático e com uma total ausência de jogo interior.

A equipa atuava num 4-3-3 clássico – quatro defesas, um meio-campo construído por três homens de caraterísticas complementares, dois extremos bem abertos e um ponta de lança junto aos centrais adversários. Neste sistema atuava Fejsa como médio mais posicional e defensivo, Gedson como o médio mais vertical e responsável por ligar os sectores e por transportar a bola e Pizzi enquanto construtor de jogo – o homem da bola.

Bruno Lage, assim que chegou, optou por favorecer o talento explorando um 4-2-2 enquanto sistema mais liberto de amarras e dinâmico. Abdicou do médio defensivo mais posicional e deu vida a uma dupla de meio-campo responsável por dominar a zona. Além disso, lançou um segundo avançado que viria a funcionar como um “jogador total” – basicamente é o craque da equipa, o antigo ’10’ e o novo ‘9,5’. O jogador da mobilidade, da inteligência, do jogo interior e da criatividade. O jogador da técnica para construir, para combinar, para ler e para aparecer a finalizar. A dupla de médios construída por Samaris e Gabriel – sempre com a opção Florentino em aberto – oferecia à equipa maior poder de choque, mais capacidade de pressão alta e também mais qualidade na primeira fase de construção. Dois jogadores com qualidade para distribuir jogo e para explorar o espaço interior, local onde iriam aparecer os mais criativos da equipa.

Foi este o sistema que notabilizou Bruno Lage no comando técnico do Benfica. Contudo, no arranque desta nova época, parece que as saídas de Félix e Jonas – os craques maiores – criaram uma lacuna que o técnico ainda não conseguiu decidir como resolver.

Fica a questão: o que procura Bruno Lage do meio-campo da sua equipa?

A temporada 2019/20 já leva dois meses de competição e, até ao momento, já assistimos a quatro abordagens diferentes do actual treinador do SL Benfica.

Um 4-4-2 constituído por dois médios mais posicionais e dois pontas de lança a procurar mais as zonas de finalização. Aqui a lacuna foi óbvia: falta de criatividade na zona de construção e um total abandono do jogo interior – Gabriel (Florentino), Samaris (Florentino), RDT e Seferovic.

Um 4-4-2 constituído também por dois pontas de lança, mais de área, e um meio-campo entregue a uma dupla de menor choque, mas maior criatividade. Aqui, apesar da maior criatividade na zona de construção, a lacuna base manteve-se – pouca qualidade no jogo interior devido a distância dos sectores: Florentino (Samaris), Taarabt, RDT e Seferovic.

Um 4-4-2 formado por um ponta de lança, um médio posicionado no ataque e dois médios a preencher o meio-campo. Aqui foi o primeiro reconhecimento de Bruno Lage das lacunas apresentadas pelo futebol da equipa. Assim, abdicou de um dos pontas de lança, de maior presença em zonas de finalização, e colocou um médio de transição a jogar mais avançado no terreno. Com Taarabt já tinha maior criatividade na zona de construção e com este novo médio, Gedson, procurou providenciar maior capacidade de pressão alta à equipa e também presença para o jogo interior. Contudo, apesar de Gedson Fernandes trazer essa maior capacidade de pressão e presença interior, não oferece a criatividade necessária para tratar a bola nessa zona do terreno.

Taarabt continuou como o responsável pela primeira fase de construção e assim a sua criatividade e talento mantiveram-se longe das zonas de decisão
Fonte: SL Benfica

Por fim Bruno Lage apresentou a sua última opção no jogo da Rússia. Recuperou o meio-campo mais posicional original, Fejsa e Gabriel, e manteve em campo Taarabt. Era expectável que, através desta opção, seria utilizado o 4-4-2, onde Taarabt surgiria como o craque criativo das ligações de ataque, mas o que se viu foi um retorno ao 4-3-3. Vamos ignorar o facto de termos Fejsa a jogar lado a lado com outro médio – vocação que o sérvio não tem – e olhar para o posicionamento de Taarabt. O marroquino, em vez de jogar em frente aos médios, criando aproximações ao avançado e às zonas de finalização, jogou nas costas destes. Neste jogo, Taarabt continuou como o responsável pela primeira fase de construção e, assim, a sua criatividade e talento mantiveram-se longe das zonas de decisão. A consequência voltou a ser a total inexistência da exploração do jogo interior, pelo simples facto de não existir um jogador a procurar o espaço “entre-linhas”.

Assim, repito: o que procura Bruno Lage do meio-campo da sua equipa? O futebol anteriormente praticado surgia das ideias e trabalho técnico ou da simples existência de dois craques no plantel?

A saída de Jonas e João Félix não foram acauteladas por responsabilidade técnica ou directiva? Será que a lesão do suplente, e recém-chegado, Chiquinho pode explicar tudo?

Ou será que Bruno Lage realmente quer optar por um sistema mais aberto nas alas, na procura da linha de fundo e com maior presença posicional nas zonas de finalização? Se assim for, é inexplicável a utilização de Pizzi à direita, o desaparecimento de Cervi, a pouca utilização de Caio Lucas e a venda de Salvio.

O que procuras, Bruno? É que o treinador do Sport Lisboa e Benfica nunca pode ter dúvidas no assumir das suas ideias para o futebol da equipa.

Foto de capa: SL Benfica

Artigo revisto por Joana Mendes

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