Veríssimo (vero+íssimo), adjetivo: muito verdadeiro; exatíssimo. É este o significado do apelido do homem que vai, por ora, suceder a Bruno Lage. Mas não pode ser, não pode ser “verdadeiro” nem “exatíssimo” este enunciado! Sem desprimor nem desrespeito para Nélson Veríssimo, apostar no técnico que adjuvou Lage nesta época e meia (ou meia e época) ao leme da principal equipa do SL Benfica é (mais) um enorme tiro nos pés da direção sem direção encarnada.

Era (é!) o momento de apostar em algo que comporte novidade, algo fora da caixa na qual os jogadores têm estado confinados nos últimos tempos. E, num momento como este, o que faz a estrutura destruturada das águias? Não vai buscar alguém fora da caixa, nem sequer alguém adjacente ao exterior da mesma; vai, sim, apostar em alguém que todo este tempo esteve dentro da dita caixa!

Podia escrever que este é um ato de má gestão. No entanto, estaria a assumir que há de momento no seio dos encarnados gestão, algo que não me parece crível. A escolha de Veríssimo para assumir o comando técnico da equipa não o é, não é uma escolha. No “Preço Certo”, há um jogo no qual o concorrente tem que empurrar uns cubos com números até ficar com (aquele que acha ser) o valor do prémio em jogo. É isto que me parece acontecer de momento no SL Benfica.

Luís Filipe Vieira não escolheu Veríssimo, simplesmente ficou com o segundo cubo da sequência, após a queda do primeiro. Muito provavelmente, se Veríssimo se demitir, o próximo homem do leme será o treinador de guarda-redes, depois o fisioterapeuta, depois o tipo que trata das águias, depois o tratador da relva, por aí adiante até acabar a linha de sucessão ou a época 19/20, o que chegar ao seu fim primeiro.

Nélson Veríssimo é um dos treinadores da “estrutura”, tendo trabalhado sobretudo nos escalões de formação
Fonte: SL Benfica
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Dois parâmetros estavam, estão e estarão em causa na escolha de um novo treinador nesta fase conturbada: capacidade para “meter os gajos a jogar à bola, pá!” e/ou capacidade para abanar psicologicamente o grupo de trabalho. Nélson Veríssimo, creio, não terá nem uma nem outra.

O simples (mas tão estapafúrdio) facto de Veríssimo assumir a equipa depois de um ano e meio no posto de treinador-adjunto torna irrealista a assunção de que o vila-franquense de 43 anos vai conseguir mudar o deprimente estado psicológico dos jogadores e do coletivo.

A sua capacidade para imprimir qualidade ao jogo dos encarnados é mais difícil de avaliar, uma vez que Veríssimo ainda só por uma partida foi treinador principal (contra o RB Leipzig, na primeira jornada da fase de grupos desta edição da Liga dos Campeões, por castigo de Bruno Lage). Pouco sabemos sobre os inputs dados por Veríssimo ao trabalho de Lage. Todavia, há uma coisa que sabemos.

As bolas paradas da equipa da Luz têm sido da sua exclusiva responsabilidade. Podemos, então, avaliar o trabalho do ex-defesa central por este prisma. E a verdade é que o SL Benfica nas bolas paradas não tem sido mau. Tem sido péssimo. Nesta vertente do jogo, os encarnados têm sido ofensivamente inócuos e defensivamente passivos, ingénuos e infantis e têm revelado imensas lacunas táticas e estratégicas na abordagem defensiva a este tipo de lances.

Conseguirá Veríssimo mostrar na equipa principal o que demonstrou nos escalões de formação do SL Benfica?
Fonte: SL Benfica

Como tal, é irrisório acreditar que Veríssimo será capaz de colocar a equipa a praticar bom futebol. Assim sendo, o assumir de novas funções do técnico que está no clube desde 2012 surge, penso, num de dois cenários cujos contornos são ainda pouco claros.

Primeiro cenário

Nélson Veríssimo assume a equipa até final da temporada, dando então lugar a um novo técnico. Um cenário possível e até provável, mas que não me agrada. Faz sentido trazer um novo timoneiro apenas na próxima temporada e ter um interino a comandar a embarcação até lá. No entanto, não faz sentido absolutamente algum que esse interino seja Veríssimo e não Renato Paiva.

Num cenário em que os dirigentes encarnados sabem (sabem alguma coisa?) que o interino vai assumir a equipa até ao final, esse interino tem que ser Renato Paiva. Não pode, nem deve, tem de ser, pela qualidade já demonstrada, por ser um treinador principal e não adjunto e por ser uma cara “nova” e estranha ao grupo de trabalho.

No entanto, devo deixar a ressalva de que Renato Paiva pode ter sido o escolhido e ter rejeitado assumir as rédeas da equipa nesta fase. Duvido bastante que tal tenha sucedido, mas se foi esse o caso parabenteio Paiva pela coragem para dizer “Não!” a uma chefia cada vez mais à deriva e cada vez mais autoritária.

Renato Paiva era a escolha mais expectável para assumir interinamente a equipa, mas foi preterido por Veríssimo
Fonte: SL Benfica

Segundo cenário

Veríssimo assume a equipa apenas nos próximos dias (talvez defronte o Boavista FC) e o próximo treinador entra em funções ainda esta temporada. Este cenário, longe de ser o ideal, é mais aceitável do que o primeiro. Uma das razões que facilitam essa minha aceitação é o facto de, neste cenário, fazer sentido que não se chame Renato Paiva para liderar o grupo por uns meros dias, o que não seria respeitoso para com o técnico da equipa B.

Além disso, a chegada precoce de um novo técnico – que não faz sentido algum – será sempre mais aceitável do que enfrentar os cruciais seis jogos finais da época com uma incógnita que tem maiores probabilidades de fracassar do que de ter sucesso.

Neste cenário, há algo que sobeja e solenemente me irrita e desconcerta. Por que ridícula razão é que Vieira acreditava que Lage podia e devia completar a época (não chegando a despedi-lo) e agora sente uma súbita e premente necessidade de encontrar um técnico consagrado que assuma já os comandos da equipa?

O (ainda) presidente do SL Benfica teve a oportunidade (que deveria ter capitalizado) para despedir Bruno Lage com antecedência e contratar um treinador que assumisse no imediato os destinos da equipa, fazendo ainda mais de uma dezena de jogos pelo clube da Luz esta temporada (antes da retoma, por exemplo). Não o fez e deixou cair Lage até patamares antes inimagináveis. Agora, vai a correr atrás do tempo e do prejuízo.

E, no meio da correria, o tempo para pensar é curto. Como resultado disso, Vieira tomou a decisão, tudo indica, ridícula, de nomear Nélson Veríssimo como treinador interino da principal equipa do Sport Lisboa e Benfica. Podem chamar o Tiririca; de facto, pior do que está, não fica…

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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