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Até há meia dúzia de meses, morava na Luz um treinador que, quando questionado sobre a evidente falta de aposta em jogadores portugueses e atletas da formação, respondia desta forma: “Como não aposto? O que é a formação? São os jogadores que só estão no Benfica? Para mim não! Formar é trabalhar jovens, sejam eles portugueses, chineses, brasileiros…” (Record, 10/10/2014). Resposta errada. Não é tudo igual. Entre um sérvio de qualidade que o scouting descubra no Partizan e um jovem português formado no Seixal, com boas indicações dadas nos escalões de formação e que faça a mesma posição, a minha tendência será sempre escolher o segundo. O facto de ser português tem de pesar em caso de dúvida perante dois jogadores com idêntico valor. É obrigatório que assim seja.

A diferença está na mística. O tal sérvio de que falava, só para exemplificar, há de conhecer a rivalidade entre o Partizan e o Estrela Vermelha mas, quando chegar a Lisboa, o discurso da mesma eterna rivalidade, mas entre Benfica e Sporting, dir-lhe-á pouco. Antes de se preocupar com isso, tem de aprender a língua, conhecer a cidade, adaptar-se. E isso demora. Uns adaptam-se, outros não. Por outro lado, um jogador made in Seixal não tem este tipo de problemas. A mística foi crescendo com ele: quando via o pai festejar as vitórias; quando recebeu o seu primeiro cachecol; quando os pais o inscreverem nas escolinhas do Benfica e aí aprendeu a jogar; na escola, quando o “picavam” no dia seguinte a uma derrota do glorioso e ele fazia o mesmo aos amigos de outros clubes quando eles perdiam. Com 18/19 anos, todo este acumulado de emoções conta e faz toda a diferença, porque, antes de ser atleta, é adepto.

O mesmo treinador que nos deixou uma maldição que até hoje não foi quebrada, Bela Guttman, também cometeu a difícil proeza de tentar definir a tal “mística benfiquista”. E fê-lo de uma forma magistral: “Chove? Está frio? Está calor? O que importa!? Nem que o jogo seja no fim do mundo, entre as neves das serras ou no meio das chamas do inferno. Seja pela terra, pelo mar ou pelo ar, eles aí vão, os adeptos do Benfica atrás da sua equipa”. Com isto não quero, contudo, dizer que a mística não se ganha. Nada disso. Basta olhar para Gaitán ou Luisão. Para Aimar ou Cardozo. Jogadores “à Benfica”, que, ao longo dos anos, engrandeceram o nome do clube, deram tudo o que tinham em campo. Foram aprendendo a amar o Benfica.

A mística incorpora-se desde pequenino Fonte: SL Benfica
A mística incorpora-se desde pequenino
Fonte: SL Benfica

Felizmente, Rui Vitória, benfiquista de nascença, veio com o espírito de valorizar o Seixal. Contando com um apoio incondicional do Presidente (que esperava por esta mudança há pelo menos cinco anos), está a conseguir dar continuidade aos bons resultados, salvo alguns percalços, que se devem fundamentalmente ao facto de ser a sua primeira época a treinar um dos grandes, devido às mudanças que, ao contrário do que muitos dizem, operou na equipa e às saídas de jogadores habitualmente titulares na última época, como Lima ou Maxi. Mas o mais importante é que o atual treinador consiga aliar os objetivos traçados no início da época, ou seja, vencer todas as competições a nível interno (o campeonato ainda vai no adro, a Taça da liga ainda não começou e só a Taça de Portugal já não é alcançável) e passar a fase de grupos da Champions (feito, quando ainda falta uma jornada) com a progressiva entrada de jogadores vindos da formação na equipa principal. Foi isto que o treinador anterior nunca fez. Terá sido por medo de que corresse mal? Ou por falta de vontade? Talvez uma mistura das duas. Mas isso agora pouco importa.

Entrámos numa nova fase. Desengane-se quem pensa que o objetivo da estrutura é construir um Athletic de Bilbao português, com uma equipa totalmente vinda da formação, mas sim fazer aproveitar a juventude e energia dos mais jovens e manter a experiência dos jogadores mais velhos: “Este é o rumo, é por aqui que vamos, e tenho a certeza de que a médio e longo prazo vamos ser reconhecidos pela opção tomada. Mas apostar nos jovens não significa esquecer os símbolos, ou dispensar a experiência dos jogadores que sentem a responsabilidade de vestir esta camisola” (LFV, 07/11/2015).

Aos que ainda hoje duvidam de que grandes clubes europeus tenham pago 15 milhões de euros por quatro jogadores da cantera encarnada (André Gomes, Bernardo Silva, Ivan Cavaleiro e João Cancelo), eu peço que olhem para Gonçalo Guedes ou Renato Sanches e admitam que estes são jogadores valem, ou poderão vir a valer, tanto ou mais que isso. O Benfica é, há algum tempo, o clube português de onde saem mais jogadores para as seleções jovens. A aposta foi feita e agora está a dar frutos. São sinais dos tempos e o futuro começa agora.

Foto de Capa: Facebook Caixa Futebol Campus

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