«O Benfica poderia ter-me valorizado mais» – Entrevista BnR com Armando Sá

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– Jogar fora de portas: Espanha e Inglaterra –

BnR: E como vais parar ao Villarreal CF?

AS: Nessa época (2003/2004), devido à vinda do Camacho, recuperei a minha confiança e o meu espaço na equipa, jogava a lateral direito ou lateral esquerdo e era uma aposta segura do treinador. Nas competições europeias, tive bons jogos que me marcaram e me deram outra visibilidade para poder jogar noutros clubes. As coisas correram bem, ganhámos a Taça de Portugal que foi um recuperar da minha confiança e estava realmente em alta. Penso que o Benfica me poderia ter valorizado mais, porque nem o próprio Benfica acreditava que havia clubes interessados em mim. Lembro-me que o Saint-Étienne, o Villarreal e outros clubes europeus estavam interessados, e o Benfica não estava à espera de que alguém me contratasse. Entretanto, apareceu realmente o Saint-Étienne e o Villarreal, e eu próprio tive de telefonar ao (Luís Filipe) Vieira a dizer “Presidente, tenho aqui um clube interessado em mim” (risos). Lá depois ele apercebeu-se disso. Isto para dizer que chego ao Benfica com 26 anos, vou para Espanha com 28/29 anos e só posso sentir-me orgulhoso por conseguir dar o salto para a Liga espanhola com essa idade, além de ter conseguido com que o Benfica ficasse a ganhar financeiramente comigo na ida para Espanha. Sinto que retribui o investimento que foi feito. Chego a Espanha ao Villarreal que, para mim, é um dos melhores clubes espanhóis e com grande tradição.

BnR: Como foi essa adaptação ao futebol espanhol? Foi fácil?

AS: Chego ao Villarreal e sabia que era um clube grande e que estava a deixar a sua marca no Futebol espanhol. Mas quando chego lá, entro numa cidadezita que faz parte da província de Castellón, e vou para o treino. Estava habituado ao Estádio da Luz, um estádio enorme e lindo, e chego ao treino e vejo os jogadores daquela dimensão como Riquelme, Forlán e Sonny Anderson, a adaptação foi fácil, porque quando tu jogas com jogadores daquele nível tudo se torna mais fácil. Consegui-me adaptar muito bem e, como costumo dizer, a bola chegava “redondinha” (risos). Não tinha de trabalhar muito, a bola chegava em condições aos pés, porque tinha jogadores de grande qualidade.

Fonte: Facebook de Armando Sá

BnR: Nesse ano, vencem a Taça Intertoto e ficam em terceiro na Liga, só com Barcelona e Real Madrid à vossa frente. Qual foi o segredo para essa época tão bem conseguida?

AS: Era o espírito de grupo que nós tínhamos. Apesar de serem jogadores com a sua história, o seu ego e prestígio, estávamos ali todos para o mesmo e gostávamos de vencer, pois tínhamos uma mentalidade vencedora. O Manuel Pellegrini era o treinador e só teve de juntar as peças e implantar um futebol tecnicamente que nós tínhamos. O estilo de jogo dele adaptava-se muito facilmente à qualidade que nós tínhamos. Aquele espírito vencedor, com os jogadores que tinham vindo no início da época – como o Forlán que veio do Manchester United – e que estavam habituados a ganhar alguma coisa e juntá-los ali. O grande segredo foi o espírito de equipa que tínhamos. Entrávamos em campo com uma confiança tão grande para jogar. Jogávamos “taco a taco” com todas as equipas, lembro-me até que ganhámos 3-0 ao Barcelona em casa. A confiança toda veio quando fomos campeões da (Taça) Intertoto que dá acesso à Taça UEFA, onde acabámos por ser eliminados pelo AZ Alkmaar nos Quartos-de-final, mas fomos muito mal eliminados (risos).

BnR: Apesar do bom ano, acabas por sair em definitivo para o RCD Espanyol de Barcelona. O que esteve na origem para essa saída?

AS: Estava no Villarreal e lembro-me que comecei a receber uns telefonemas do Camacho a dizer que ia ser treinador do Espanyol. Ele tem uma parte nisto tudo, pois antes falou com o Villarreal na altura em que o (Juliano) Belletti vai para o Barcelona, e eles estavam à procura de um lateral direito. O Camacho diz-lhes para me contratarem, que seria uma boa opção. Entretanto, ele liga-me e diz que vai para o Espanyol, devido às eleições que iam decorrer no clube, e caso o candidato dele ganhasse, ele ia assumir a equipa e queria que fosse para lá. Eu acreditei 100% no Camacho e acabei por forçar um pouco a minha saída do Villarreal, convencido de que ele ia ser o treinador do Espanyol (risos). Saí também porque o Villarreal foi buscar outro lateral direito, estava nesse momento com 30 anos e optei por ir para lá.

BnR: E como é jogar no Dérbi da Catalunha, ainda para mais a vigiar de perto um tal de Ronaldinho Gaúcho?

AS: É engraçado isso (risos). Quando chego ao Espanyol, lembro-me que tinha um treinador, o (Miguel Ángel) Lotina, que ficou conhecido por estar durante dois anos sem nunca repetir o mesmo onze inicial – o que acho incrível (risos) -, e torna complicado para um jogador manter o seu ritmo de jogo. Na primeira jornada não jogo, na segunda contra o Real Madrid jogo, em que ganhámos por 1-0, e na terceira jornada não jogo.

BnR: Era sempre um “entra e saí”, o que dificulta a vida de um jogador.

AS: Sim, mas não era só comigo, com os outros jogadores também era assim, mas eram as opções dele. Tínhamos o (Pablo) Zabaleta, o Juanfran que eram praticamente os meus suplentes (risos), e depois conseguiram chegar ao Manchester City e Atlético de Madrid, respetivamente. Havia também o Iván de la Peña, o (Raúl) Tamudo… Tínhamos uma grande equipa. Há depois o famoso “Dérbi da Catalunha” em que tive a missão de marcar o Ronaldinho (risos).

BnR: Tarefa difícil certo? (risos).

AS: É e por vários motivos: primeiro pela qualidade que tinha e segundo era o meu ídolo. E marcá-lo não é uma tarefa fácil, porque ele era forte fisicamente, rápido e tinha uma visão de jogo de outro mundo, mas tive de “ir para a guerra” e enfrentá-lo (risos). Marquei-o e fui considerado o jogador que melhor marcou o Ronaldinho em Espanha. Para ser sincero, considero-me sortudo, porque se ele estivesse num daqueles dias com a “ficha ligada”, ninguém o para. Nesse jogo, a ficha não estava bem ligada e tive essa felicidade (risos). Mas é uma tarefa complicada, pois não sabes o que ele pensa e antes de receber a bola, ele já viu três ou quatro opções. Por acaso, jogámos bem, mesmo perdendo por 1-2, e recordo-me que era o Ronaldinho num lado, o Messi no outro e também estava o Deco a jogar que era um jogador que admiro muito. Já o tinha apanhado no Salgueiros e no Porto, e foi um dos melhores jogadores que vi jogar.

Fonte: Facebook de Armando Sá

BnR: A tua experiência em Espanha terminou com a conquista da Taça do Rei. Foi importante vencer este troféu emblemático?

AS: Sem dúvida. Foi um fechar de época com “chave de ouro”, ainda mais porque o Espanyol já não ganhava a Taça do Rei há algum tempo. Chegámos à final, e, como português, só o Paulo Futre e o Luís Figo tinham ganho essa Taça até essa altura, e poder jogar no Bernabéu, que é um grande palco, não havia melhor sítio para conquistar a Taça. Subi as bancadas para levantar a Taça e isso fez-me lembrar muito a subida para erguer a Taça de Portugal que venci pelo Benfica. Foi muito especial.

BnR: Segue-se depois o Leeds United. Como é que acabas por ir para lá?

AS: Então, estava no Espanyol, chega um novo treinador, o (Ernesto) Valverde, que faz algumas mudanças e não estava muito nos planos dele. Falei com ele, que foi sincero comigo ao dizer que não estava nos seus planos, e se eu pudesse arranjar um clube era o melhor a fazer. Antes de sair ainda venci a Taça da Catalunha frente ao Barcelona, que foi o último jogo que fiz pelo clube, mas não fazia parte dos planos do Valverde. Tive a possibilidade de regressar a Portugal, ir para a Rússia – e nesse tempo os portugueses iam quase todos para lá jogar -, e tinha uma enorme paixão e vontade de jogar em Inglaterra. Queria jogar lá, apareceu o Leeds United e decidi aceitar o desafio. Um clube histórico e um dos mais antigos de Inglaterra, onde passaram craques como o (Éric) Cantona. Cheguei lá e tinham umas condições fantásticas com uns sete campos relvados e era incrível. Tinha como treinador o Dennis Wise e o Gustavo Poyet como adjunto, que me ajudaram a adaptar ao clube.

Fonte: Facebook de Armando Sá

BnR: E que tal o futebol inglês?

AS: É uma loucura, porque eles vivem cada jogada, o som que fazem. Depois os adeptos estão perto do relvado, a adrenalina é outra. Cada disputa de bola é como se fosse a última, é de outra dimensão. Também tive de me habituar a jogar às vezes ao meio-dia (risos), pois só estava habituado a jogar à tarde e/ou à noite, e nem sabia se devia tomar o pequeno-almoço ou almoçar antes do jogo (risos). Gostaria de ter jogado mais tempo em Inglaterra e de ter chegado um pouco mais cedo lá, mas, no geral, gostei muito da experiência.

Guilherme Costa
Guilherme Costahttp://www.bolanarede.pt
O Guilherme é licenciado em Gestão. É um amante de qualquer modalidade desportiva, embora seja o futebol que o faz vibrar mais intensamente. Gosta bastante de rir e de fazer rir as pessoas que o rodeiam, daí acompanhar com bastante regularidade tudo o que envolve o humor.                                                                                                                                                 O Guilherme escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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