Domingo, 12 de Janeiro de 2014. Passava, exactamente, uma semana desde o falecimento de Eusébio da Silva Ferreira, figura mítica e incomparável do Sport Lisboa e Benfica. O País e a Nação Benfiquista ainda digeriam o desaparecimento de um dos maiores nomes do Futebol português e já um Clássico entre Águias e Dragões se aproximava. O Estádio da Luz seria palco de um dos jogos mais emocionantes da época desportiva, com a adição de ser o primeiro jogo que o SL Benfica disputaria depois do desaparecimento da sua lenda.

Toda a gente sabia de antemão que o jogo seria disputado sob uma elevadíssima carga emocional, principalmente por parte dos Benfiquistas. Lembro-me que nessa manhã, ao acordar, já só desejava que a hora do jogo chegasse. Mais do que o habitual, sentia o SL Benfica nas veias; a cada pulsação, o meu coração parecia dizer o nome de Eusébio. Só queria ir para o Estádio. A hora do jogo aproximava-se e fiz-me à estrada. Numa carruagem do metro completamente lotada ouvia-se: “SLB SLB SLB SLB SLB, GLORIOSO SLB, GLORIOSO SLB!”.

Cantávamos todos, em uníssono. Saímos no Colégio Militar/Luz e começámos a caminhada rumo à imponente Catedral. Enquanto atravessava o túnel de acesso ao Estádio, via um menino de 5/6 anos a ir de mão dada com o seu pai. Admirei aquela imagem. Via a satisfação e a curiosidade do petiz, olhando para aquelas paredes vermelhas onde podiamos contemplar figuras como Ángel Di Maria, Óscar Cardozo ou Axel Witsel – heróis que, muito provavelmente, fizeram com que aquele menino se apaixonasse pelo Manto Sagrado. Passei por eles e este olhou para mim. Sorri-lhe e fiz-lhe um “fixe”, enquanto dizia “Força, Benfica”. Ele baixaria os olhos, envergonhado, mas sorrindo ao mesmo tempo. O pai sorria para mim, orgulhoso.

Entrei no Estádio. Ao passar os torniquetes, visualizei do lado de lá as bancadas gloriosas e o nosso bonito relvado. Subia as escadas, enquanto escutava o barulho que vinha de dentro do recinto. Atravessei o corredor, subi o pequeno lance de escadas e contemplei, finalmente, aquele palco maravilhoso que é o nosso Estádio da Luz. Como esperado, a atmosfera estava emocionalmente pesada.

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Os ecrãs passavam imagens de Eusébio. O SL Benfica jogava, mas ao contrário de um dia normal aquele dia não era de festa. Sorrisos e festejos estariam guardados para o final, caso conseguissemos dar a vitória ao nosso Rei. Os rostos estavam fechados e havia lágrimas nos olhos daqueles que, durante tantos anos, viram um Eusébio cheio de vida e força. As crianças – como aquela com que me cruzei no túnel –, agarravam-se aos braços dos seus pais e das suas mães, sem perceber bem o que ali se passava; afinal de contas, para elas, era mais um dia em que iam ao estádio ver o SL Benfica.

“Eu sou Benfica e vou morrer Benfica” – uma frase de Eusébio da Silva Ferreira que ficou para sempre na memória de todos e que foi lembrada neste inesquecível Clássico
Fonte: SL Benfica

O SL Benfica entraria para este jogo com o seguinte 11 inicial: Jan Oblak, Maxi Pereira, Luisão, Ezequiel Garay, Guilherme Siqueira, Nemanja Matić, Enzo Pérez, Lazar Marković, Nico Gaitán, Lima e Rodrigo. Apresentar-nos-iamos com o nosso 11 mais forte e aquele que iria homenagear o Rei, ao entrar em campo com o nome de Eusébio nas costas. Seria o jogo que ficaria para sempre na História como “ O Jogo dos 11 Eusébios”.

Antes do início da partida, cumpria-se a cerimónia de um minuto de silêncio em memória do “Pantera Negra”. A carga emocional continuava nos píncaros e a adrenalina aumentava a cada segundo que passava. Durante aquele minuto de silêncio, passaram-se anos. Durante aquele minuto de silêncio, Eusébio chegava a Portugal num avião, estreava-se pelo SL Benfica, vencia troféus nacionais e europeus, encantava o Mundo e tornava-se no futebolista encarnado com o maior número de golos de sempre e, talvez, para sempre. Durante aquele minuto de silêncio, não só se passaram 15 anos – o tempo que Eusébio vestiu o Manto Sagrado –, como se passou toda uma vida dedicada ao SL Benfica; fosse como jogador, como membro da equipa técnica ou da comitiva. Foi um minuto de silêncio de décadas; o mais longo da minha vida.

O jogo iniciava-se com a equipa do SL Benfica, naturalmente, por cima. Afinal de contas, jogava em casa e tinha a missão de dignificar o Emblema que o Rei elevou. Aos 12 minutos de jogo, depois de um mau passe de Lucho González, Markovic recuperava a bola no meio-campo Portista e disparava em direcção à baliza de Hélton, numa arrancada que parecia uma recriação dos tempos em que o “Pantera Negra” decidia jogos sozinho. Ao aproximar-se da linha defensiva dos comandados de Paulo Fonseca, viu  uma “aberta” entre Otamendi e Danilo e soltou na profundidade para Rodrigo. O hispano-brasileiro recebeu, encarou Hélton e rematou.

Neste momento, eu agarrava-me à cadeira, de pernas encolhidas e completamente imóvel e em suspenso. Naquela bola rematada por Rodrigo, não ia só a força do remate e o material de que a mesma feita; ia Eusébio, os 62.508 que estavam no estádio e as restantes 6 milhões de almas Benfiquistas. Hélton não foi capaz de a defender; nenhum Guarda-redes neste Mundo seria. GOLO! O estádio explodiu, num grito que fez lembrar o rugido de uma pantera. O SL Benfica encontrava-se na frente do marcador e faria uma primeira parte de grande nível.

Os jogadores souberam honrar a memória de Eusébio; dignficaram o Emblema e pareciam completamente imbatíveis
Fonte: SL Benfica

Na segunda parte, a história do jogo não se alterou. O SL Benfica voltava a entrar por cima e, após mais uma bela arrancada de Markovic, ganharia um canto que seria cobrado no lado direito por Gaitán. No seguimento desta bola parada, o SL Benfica voltaria a ganhar novo canto e a bola não mais dali sairia sem beijar as redes. Desta vez  seria cobrado desde o lado esquerdo, por intermédio de Enzo e para o coração da área, com Garay a aparecer fulminante, antecipando-se a Mangala e Hélton e dizendo “sim” à bola, enviando-a para dentro da baliza que nem um torpedo.

O estádio parecia um vulcão. Os fantasmas estavam vencidos. O FC Porto nem respirava, tamanha era a superioridade do SL Benfica: do tamanho de Eusébio, infinito. Até ao final do jogo, a vantagem poderia ter sido aumentada, tivesse havido mais razão e não tanta emoção. Ainda assim perfeitamente explicável, tendo em conta o contexto em que os jogadores estavam inseridos. O SL Benfica vencia o jogo e Eusébio sorria, junto de nós. No céu de uma tarde de Inverno, viamos reflectido aquele sorriso de menino que será para sempre lembrado.

Em 26 anos de idade, não foram muitas as vitórias que pude assistir do SL Benfica sobre o FC Porto. Mas esta vitória não foi só uma vitória sobre um dos nossos grandes rivais. Esta vitória foi à SL Benfica, saída dos nossos livros de História. Naquele dia 12 de Janeiro de 2014, houve algo que tocou no coração de todos os que estavam presentes naquele estádio. Hoje, recordo este jogo de forma arrepiada e imediatamente me vêem as lágrimas aos olhos. Pelo que vivi, pelo que senti, pelo SL Benfica que estava naquele estádio e em cada um de nós, este foi, sem qualquer dúvida, o Clássico que mais me marcou.

Foto de Capa: SL Benfica

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Alfacinha de gema e Benfiquista por natureza, Bruno é um obcecado por Futebol e foi através da escrita que encontrou a melhor forma de dar a conhecer essa sua paixão pelo desporto-rei. É capaz de estar desde Segunda-feira até Domingo à noite a ver todos os jogos que passam na TV. Terá sido em pequeno que toda esta loucura futebolística foi despertada pelo seu Pai e pelo seu tio que, respetivamente, o levavam ao Estádio do Restelo e ao Estádio da Luz. Bruno não suporta facciosismos e tenta sempre ser o mais crítico possível para com o seu clube.                                                                                                                                                 O Bruno não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.