A derrota do Benfica na Luz, frente ao Tondela, veio acabar com qualquer réstia de esperança que os adeptos encarnados ainda pudessem ter. Um Benfica pobre e pouco criativo, totalmente dependente de Jonas, veio provar que é também dependente de Fejsa.

Mas desengane-se quem julga que os problemas começaram no jogo frente ao FC Porto. Ainda não havia começado o campeonato e já se previa uma enorme dificuldade no caminho para o penta. Saídas de Nélson Semedo, Ederson e Mitroglou assustaram, mas a vinda de Douglas, Seferovic, Gabriel Barbosa (ainda estou para perceber a alcunha de “Gabigol”) e Bruno Varela geraram o pânico. Isto sem falar de André Horta ou Salvador Agra. E não, não me falem de poucas oportunidades. Não me falem do amor de André à camisola. De ser adepto de um clube a ter qualidade para lá jogar, vai uma longa distância. Se o amor ao clube bastasse, eu assumia o lugar de Fejsa.

A política de desinvestimento ao longo dos últimos dois anos tem sido notória e este momento que se vive haveria de chegar, mais cedo ou mais tarde. Com certeza que o azar também tem sido algum: Krovinovic lesiona-se num momento em que fazia a equipa mexer e perdeu-se muito tempo até que Zivkovic funcionasse como solução. A lesão de Jonas no aquecimento frente ao Vitória premeditou a desgraça, pois, quer se queira quer não, o clube da Luz vive em função de um senhor de 34 anos. Pizzi simplesmente não está a ser Pizzi – o que é normal. Nenhum jogador aguenta 90 sobre 90 sempre no mesmo nível de excelência.

Um clube que fatura 131.12 milhões de euros e apenas gasta 9.35, em jogadores maioritariamente medianos e que vêm para serem automaticamente emprestados, não pode esperar nada (para além de uma redução óbvia, e importante, do passivo). Atenção, se o Benfica precisa de reduzir o passivo, se equilibrar as contas do clube é prioritário, quem sou eu para criticar? Mas uma coisa é certa: não se pode afirmar que o Benfica é candidato ao título, que está na luta pelo penta, se perdemos qualidade futebolística em detrimento de gestão financeira.

O desinvestimento não é, no entanto, o único problema. E é neste momento que chamo Rui Vitória à conversa. Desde o início da temporada que quando o Benfica se encontra em vantagem, o treinador mexe na equipa, tira um avançado e coloca um homem no meio campo, independentemente de tudo – e, como se isto não fosse suficientemente mau, tivemos de lidar com Felipe Augusto durante quase metade da temporada. As coisas correm mal e, a partir daí é tudo ao molho e fé em Deus na frente de ataque. Ao terceiro ano, é inadmissível que Rui Vitória ainda faça experiências táticas durante a época desportiva. E aqui, julgo que o erro foi assumir o trabalho de Jorge Jesus, em vez que traçar o seu próprio plano, no seu típico 4-3-3, tática usada na primeira pré-temporada que fez pelo Benfica.

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As exibições dos encarnados têm deixado muito a desejar este ano e, as coisas correrem todas bem, era sorte a mais. Desde as derrotas “parvas” do início da temporada, à desgraça da Champions League. O princípio do fim já havia começado em Agosto, sem ninguém notar. Criticou-se Varela, a derrota com o Boavista. Escondeu-se a cara contra o Basileia e criticou-se RV e Svilar frente ao United. Depois, tudo pareceu animar. Krovinovic fez os olhos de todos brilharem, para depois os fazer chorar. Zivkovic devolveu uma alegria e festejou-se como um título a derrota do FC Porto em Belém. O Benfica, depois de uma época inteira fora da primeira posição, recuperou-a e passou a depender só de si. E, para isso, bastava não perder com o rival na Luz. O Benfica não pode perder com o FC Porto na Luz. Nunca. Mas, ainda assim, a esperança não morreu – afinal, estatisticamente falando, a equipa de Sérgio Conceição teria de ir à Madeira e a Guimarães, onde seria provável perder pontos. O Benfica, teria de ir a Alvalade e jogar para ser campeão.

Se o Benfica tem vindo a conseguir alguma coisa nos últimos anos, é graças à união entre a equipa e entre os adeptos
Fonte: SL Benfica

Deslocação ao Estoril: três pontos e uma derrota. Três pontos tirados a ferro e pouco merecedores. Exibição miserável frente ao clube que é dono da última posição. E recorde-se a dificuldade sentida também no Bonfim.

Receção ao Tondela: Grimaldo, Fejsa, Rúben Dias e Jardel em risco de ficarem de fora frente ao Sporting devido a acumulação de amarelos. Isto claro, porque o jogo do Estoril não permitiu que houvesse espaço para essa gestão. Solução: Fejsa e Jardel de fora frente ao Tondela, para não arriscar a suspensão em Alvalade. Resultado: Tondela eficaz e Benfica sem ideias. Benfica marca cedo e o resto é o habitual, adormecer. Tondela marca e Rui Vitória tira o melhor em campo (Zivkovic) para nos dar um Seferovic que pouco ou nada fez. Isto, sem falar de um Luisão que não era titular (nem tão pouco pisava o relvado) desde o dia 13 de Dezembro.

O tetra-campeão português, assumidamente candidato ao penta, deixou todos com um sentimento de vergonha alheia. É impossível aceitar uma derrota em casa frente ao Tondela.

O Benfica só se pode queixar de si mesmo. Se o penta fugiu, a culpa é do Benfica. E aqui não há isenções. O FC Porto está agora a um ponto de voltar a sagrar-se campeão e, mais importante que isso, Fejsa está a um ponto de não ser campeão pela primeira vez na sua carreira.

E agora, Benfica?

Acabar a época e planear a próxima. Planear, com tempo e calma, com cabeça. E, das duas uma, ou se fazem mudanças, se assentam os pés na terra e se investe, ou se deixa claro que não lutamos pelo primeiro lugar. No entanto, é preciso não esquecer o seguinte: a Champions pode ser e é uma fonte de receitas. Mas para haver lucro, é preciso haver investimento. O “made in Seixal” não é solução para tudo e penso que isso ficou mais que claro. Quanto a Rui Vitória, a saída é quase certa. Resta saber se Luís Filipe Vieira arranja a pessoa certa para o lugar ou se vai continuar a brincar aos clubes.

Quanto ao que falta da época, que todos os benfiquistas acendam uma velinha, rezem um terço e vão a pé a Fátima – pode ser que assim dê para manter o segundo lugar.

Foto de Capa: SL Benfica