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Estou terrivelmente mal habituado. Não o digo no sentido tradicionalmente dado à expressão, o que configuraria, futebolisticamente falando, numa quebra emocional perante um resultado negativo e inusitado e imprevisto. Refiro-me, isso sim, à situação inversamente oposta: as dúvidas e os temores surgem, desta vez, na sequência de boas práticas, ansiadas há anos, mas que, até hoje, raramente haviam existido – chegando eu, conspirativamente, julgar isso ocorrer por meio de decreto oficial e secreto. Onde estão, neste defeso, as rotinas capazes de atirar para os níveis mais baixos toda a confiança e ambição trazidas do campeonato precedente? Os costumados maus resultados? As exibições paupérrimas? Onde pára aquele reforço sul-americano, futebolista de DVD, atleta gordinho, com rins de cimento e pés de tijolo e futuro suplente do Paysandu (com o devido respeito pela citada instituição, vítima inocente da aleatoriedade da escrita)?

Não me queixo de barriga cheia. Não se trata de falsa modéstia e muito menos duma prepotência de tricampeão. A reflexão é honesta e despretensiosa – juro-o por Cosme Damião, por Eusébio e por todos os Deuses e Deusas. Obviamente, que me agrada ganhar; que me agradam as boas exibições (as individuais e, sobretudo, as colectivas). Porém, sou incapaz de ignorar a importância que, em anos anteriores, a soma das trapalhadas precoces e involuntárias teve no balanço final. É ridículo requisitar cumprir pré-épocas sofríveis, quanto a transferências e resultados, mas convém, no entanto, admitir que os erros acumulados, tortura estival a que me fui afeiçoando, permitiram sempre compreender quanto era urgente agir, que correcções fazer, quando, onde e como actuar, reduzindo decisivamente a margem para erros e despertando toda a estrutura – de dirigentes a jogadores –, perante o carácter alarmante do momento; garantindo a disposição certa para o futuro.

Viver no melhor dos mundos, mas temos de nos manter alerta Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Viver no melhor dos mundos, mas temos de nos manter alerta
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

Para mim, um defeso positivo do Benfica, como aquele em que actualmente nos encontramos, com boas vendas, boas compras e a inalterabilidade da qualidade de jogo, é algo perto do brotar do Dente-de-leão em pleno Inverno, do florescer da Camélia no Verão – e sim, caro leitor, isto foi realmente googlado, pois, lamentavelmente, os meus conhecimentos botânicos roçam a mediocridade –, algo contranatura; sem utilidade prática. Não se trata duma preferência masoquista, duma apetência esquizofrénica, bem pelo contrário, trata-se, somente, da constatação de factos que em muito têm contribuído para que a recente história literária do futebol português seja escrita, por linhas tortas e brilhantemente, em tons de ouro e encarnado.

Trago-lhe agora ao texto três breves exemplos, um para cada título consecutivo, capaz, cada um por si, de comprovar a minha modesta teoria e de, espero eu, minimizar o estatuto de palerma que, aos seus olhos, três parágrafos me devem já ter garantido: foi a péssima pré-época que evitou a saída de Óscar Cardozo (em 2013), a entrada de Jonas (em 2014) e, no defeso dos defesos, na pré-época das pré-épocas, a promoção de Renato Sanches (em 2015).

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Por mim, inverter-se-ia, de imediato, a situação. Contudo, se é para insistir nesta qualidade, se os resultados e exibições persistirem, se os reforços garantirem, como assim parece, soluções de primeira, então, agradeço desde já que não adormeçam – dirigentes a jogadores –, nem caiam num registo de relaxamento e ingenuidade. Na verdade, os nossos bons resultados, as nossas boas exibições, importam tanto, por esta altura, como os maus resultados e as más exibições dos nossos adversários. Rui Vitória sabe, por experiência própria, que isto não é como começa, mas sim como acaba – o problema é que, neste capítulo, só Jorge Jesus o sabe melhor (e por se ter esquecido há um ano, não significa, necessariamente, que repetirá o erro).

Concluindo, e apesar da bonança que marca a estação, deixo o alerta, apontando ao que importa, ou se preferir, ao que está menos bem: há jogadores do Benfica que são intransferíveis; e há um médio-centro, substituto de Renato Sanches, que deve ser contratado – o resto, são, na minha opinião, lirismos dos que crêem que quando tocam o rio, tocam sempre na mesma água.