A janela de transferências invernal dos encarnados começou com uma das mais inesperadas investidas do mercado e finalizou no consumar de uma paixoneta antiga, no cúmulo de um divagar sobre a posição ‘9’ e as incongruências pelo qual tem passado o planeamento do clube para a posição.

Desde a primeira aproximação do Benfica a Dyego Sousa, em Janeiro da época passada, e quando era o melhor marcador da Primeira Liga, foram vários os pontas de lança que integraram o carrossel das águias, mas tantas voltas se deram que… se voltou à posição inicial. A querida Ana Bacalhau cantava que o que tem de ser tem muita força, numa simples e engraçada reflexão sobre o destino das coisas, que se aplica a muitas das contratações do clube.

Quando, nos idos de Dezembro, os benfiquistas se depararam com as cogitações no sentido da contratação de Julian Weigl, o mundo era um lugar feliz. Era o Benfica de volta às contratações de renome e à aposta em jogadores de craveira internacional como complementação à estratégia de foco no Seixal. A receita perfeita e o concretizar da promessa de Rui Costa, que a 22 de Maio, e na ressaca das comemorações do título, afirmava que a intenção do clube seria “apostar em menos contratações, mas mais valiosas” e que alavancassem a qualidade individual do plantel para níveis superiores, concluindo: “serão jogadores de nível, até porque na simbiose entre jogadores mais experientes e mais jovens que pretendemos na equipa, os mais jovens estão em casa e é neles que queremos apostar. Isto não quer dizer que não avancemos se aparecer no mercado um jovem com talento ou para uma posição para a qual não temos em casa“.

Foi uma pedrada no charco naquilo que é e era a estratégia do clube de há uns anos a esta parte e o regresso ao investimento a sério. A capacidade de um clube português ir buscar um titular a Dortmund era cenário inimaginável há anos e foi a confirmação de que a venda de João Félix dotou os encarnados de uma capacidade negocial muito acima dos restantes clubes nacionais, apesar de não existir ainda tradução para a qualidade do plantel, curto e aquém dos objectivos do clube.

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A verdade é que o dinheiro despendido no Verão confirmou essa ideia de Rui Costa. Raúl de Tomás e Vinícius foram contratações acertadas e de valor avultado, e ao espanhol só faltou adaptar-se para explanar toda a sua qualidade e assumir-se como titularíssimo da equipa.

Com a contratação de Weigl ainda em Dezembro, pensou-se ser abordagem para manter durante toda a janela, já que, a seguir ao internacional alemão, as capas de jornal foram tomadas de assalto pela entretida novela de Bruno Guimarães, o craque do Athletico Paranaense por quem os responsáveis benfiquistas se enamoraram durante todo o mês, sem nunca conseguirem acordo total com Mário Celso Petraglia, presidente brasileiro que supostamente “roeu a corda” do acordo que teria com Luís Filipe Vieira e preferiu negociar com o Lyon, por razões que só o tempo nos dirá.

Eventualmente, durante todo o processo e sem grande alarido, chegariam à Luz Yony González, Elias Pereyra e Derlis Mereles: nenhum dos três com projecções para a equipa A, nenhum com reais capacidades para dotar o plantel de melhores soluções.

Portanto, no dia de hoje é de estranhar a falta de soluções na baliza (Zlobin esteve francamente mal sempre que jogou e Svilar deve continuar a sua evolução meritória nos B), no eixo defensivo (Jardel perdeu o comboio, Morato precisa de tempo) e no eixo atacante, onde só Chiquinho se perfila como a única opção natural para jogar atrás do ponta de lança. Lacunas graves de uma equipa que vai agora entrar num ciclo infernal de jogos até Abril e que se assume como candidata à Liga Europa, no consumar da promessa de um “Benfica Europeu”.

Dyego Sousa lutará com Seferovic e Vinícius pela vaga de homem mais adiantado: no Shenzhen, cumpriu 10 jogos – três golos e três assistências

Ainda assim, já é motivo de valorização a estabilidade que a prosperidade financeira trouxe ao plantel. O núcleo duro da equipa manteve-se, mais blindado que nunca parece estar, com a manutenção de todos os titulares, das principais alternativas e da renovação de contrato de alguns casos que se estendiam há meses, como Jota, que teve de se juntar à armada Gestifute e prolongou o vínculo até 2024.

A permanência do extremo português e de Florentino foi o redobrar da confiança depositada nas suas qualidades, apesar da fase menos fulgurante a nível competitivo dos dois. Os excedentários, que em Setembro já o eram, tiveram finalmente a possibilidade de tratar do seu futuro: Gedson, Caio Lucas, Conti e Fejsa decidiram novos caminhos nas suas carreiras, lugares onde serão pensados como soluções reais ao onze.

O trabalho de limpeza do quadro de atletas, tão pedido por Bruno Lage a favor da sua preferência por um plantel mais curto, só não ficou completo devido à irredutível vontade de Zivkovic em permanecer às ordens do técnico, apesar dos 61 minutos de utilização em 2019-20. A isso, junta-se a reconhecida peculiaridade do seu contrato (com o exponencial aumento de salário anual, independente do rendimento desportivo) que é mais um dos obstáculos à cedência por empréstimo: o Olympiakos de Pedro Martins foi o mais sério pretendente, mas estaria apenas disposto a assumir parte da folha salarial. Caso bicudo a tratar pela direcção benfiquista, que vê o jogador permanecer mais um semestre sem competir.

Só a sucessão de jogos a ritmo frenético que marcará grande parte da segunda metade da temporada desvendará a verdadeira qualidade do plantel, que alia a abundância de talento individual com lacunas nas segundas linhas, onde uma trivial lesão de última hora nas posições já enumeradas colocaria os objectivos da época em risco. Tem a palavra Bruno Lage e a sua equipa técnica.

Foto de capa: Carlos Silva/Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira

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