camisolasberrantes
Nada. À semelhança do que a mesma é em toda a sua extensão. Um vazio. Uma multidão de choros descompassados. Um par de olhos secos e perdidos no céu. Um dia como há poucos. Um que não queremos que se repita. Porque há corações que param e outros que, de tão frágeis e leais, sabem-se incapazes de aguentar tais perdas ao ponto de quererem seguir o exemplo dos primeiros. Primeiro, porque nem sempre em primeiro vimos nós. Segundo, porque não há morte nenhuma que não mate um pouco de nós.

Já lá vai um ano. Lembro-me que o dia também se mostrava soalheiro e tão frio ao ponto de levantar a perguntar “para quê o sol?”. Ainda para mais quando uma das mais nobres almas (quase) portuguesas partia para não mais se juntar a nós naquela que é a malandrinha azáfama do Estádio da Luz, fidedignamente representando tudo o que é o Benfica. E tão bem que ele o fazia! Com uma classe e dignidade tais que às vezes me pergunto se o que mais dói é já não o ter ou só o ter na memória. Quantos de nós transpiramos, honramos e envergamos assim Benfica?

Sinto a tua falta, Eusébio. Sinto saudades. Daquelas que só nós, portugueses, sabemos falar. Com uma guitarra portuguesa a acompanhar o sôfrego canto da corcunda mulher que se deixa reconfortar por um xaile bordado à mão numa qualquer cozinha onde cheira sempre a sopa acabada de fazer. Saudades de um homem que era um rei. Que vivia isto como eu vivo. Com lágrimas. Com riso. Com crises cardíacas. Com um copo sempre à mão porque, mesmo que não o admitamos, há dores que precisam de ser afogadas para que não sejam as mesmas a afogar-nos. Tanto que, ironicamente, a chuva veio, no dia do teu funeral, tentar afogar uma Lisboa depressiva e deitada abaixo. Ou, se a morte tiver algo de bonito, talvez a chuva tenha vindo para, com as suas nobre gotas, disfarçar as nossas sinceras lágrimas.

A admiração por Eusébio é intemporal Fonte:
A admiração por Eusébio é intemporal
Fonte: UEFA

Ó, Eusébio, porquê? Porque és imortal, mas pereceste como só mais um de nós? Seria humildade? Devoção? Simpatia? Nobreza? Foste tu. Somente tu. Tão capaz de atirar às redes como nenhuns foram, tal como tão capaz de chorar por o que ficou por conquistar naquele ano de 66 como tantos foram. Misturavas-te como todos e como ninguém no meio de todos nós. Homem simples, traquina, apaixonado e cheio de Benfica. Benfiquista dedicado e único. Nosso. E com a capacidade de nos unir e de nos fazer destilar amor. Por ti e uns pelos outros. Eusébio, tu tiraste de casa Portugal. Eusébio, já nem na rua havia espaço. Eusébio, até os outros muito chorados mortos disseram lá de muito longe, onde ninguém chega, “sirvam-se da minha campa para que ele não tenha de caminhar até lá sozinho”. Eusébio, a Luz quase que veio abaixo no jogo contra o Porto…e tão assustadoramente bonito que foi.

O mais bonito e sentido jogo que a Luz já viu Fonte: UEFA
O dia em que ninguém guardou na memória os golos
Fonte: AFP

Nesse dia, nessa hegemónica missa futebolística de sétimo dia, Rodrigo e Garay fizeram os golos e eu fiz – imagina lá tu – uma mão cheia de amigos que levarei para a campa com a mesma graciosidade com que tu nos levaste até à tua. E talvez seja isso que a morte tem de bonito. A sua capacidade de nos despedaçar, fazendo-nos unos nos e com os pedaços daqueles que de nós não desistem. Assim também nós não desistimos da vida. Não desistimos de sentir saudades tuas.

Não desistimos de escrever sobre ti. Sobre os teus pontapés. Sobre os teus golos. Sobre o nosso herói. Não desistimos de te escrever, qual passe de desmarcação que em surdina rezamos que até ti chegue. A ferida ainda permanece aberta, mas o sangue que dela brota é hoje mais vermelho, mais encarnado do que qualquer coisa que o meu coração benfiquista já tinha visto, vivido ou bebido nestes 23 anos e meio. Não com a minha boca, mas com esta alma que se alimenta de um borbulhar caótico como se viu naquela panela de pressão que foi o Marquês em Abril.

Talvez. Talvez nada tivesse sido tão magnífico. Tão único. Tão nosso. Talvez nada tivesse valido assim a pena se não fosse por ti. Pela tua morte. Ó, meu querido Eusébio. Agora que me apercebo, desculpa-me. Desculpa. Porque ainda que custe ver um grande homem partir, há também que não esquecer que quando um grande homem parte grandes coisas acontecem. É aí que tiro o “talvez”, me desculpo e te agradeço por, sem egoísmos – como só tu –, teres partido e teres deixado o que deixaste. Num futuro que já não é teu, este nosso futuro a ti pertence. E é assim que sabemos que até no campo da vida, a tua última e já esforçada finta foi das mais bonitas a que pudemos assistir…sabendo, ainda assim, que amanhã já lá não estarias para a repetir, derretendo-nos.

Obrigado, King.

Foto de capa: Uefa

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