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Pior do que errar, é não reconhecer essa inevitabilidade humana. Pior ainda do que não a reconhecer, é insistir nela e continuar a ver luz ao fundo desse túnel. Túnel que encontrou a mais dura das escuridões há quase um ano. Desde que chegou, Jorge Jesus habituou-nos a futebol vertiginoso, apaixonante, “carrega para cima deles”, “porquê dar 2 se podemos dar 5?”, desmesuradamente ofensivo. O outro lado da moeda na outra metade do campo. Coração nas mãos, tal a enxurrada de oportunidades de golo que os adversários tinham. E ao verem Artur na baliza, motivação ainda maior. Se este futebol atacante deleitava os nossos olhos e os da Europa, mentir seria dizer que isso se traduziu em títulos.

2013/14 e mea culpa de Jesus. Que meteu um travão em si mesmo e na sua veia ofensiva, porque a veia de títulos dos benfiquistas é a que precisa de ser alimentada novamente. 1-0 chega-nos, 2-0 é óptimo. Vamos a factos: desde 15 de Dezembro do passado 2013 que o Benfica não sofre um golo de bola corrida. Desde então, 2 golos sofridos: em Barcelos, de canto (e logo haveria de ser esse a tirar-nos pontos…) e em Londres de livre directo. 17 jogos, dois golos encaixados. Quem pudesse sequer pensar em números destes com Jorge Jesus, seria logo acusado de uma certa falta de inteligência e discernimento. E o que mudou desde 15 de Dezembro? Desde logo, Oblak. E com ele a calma, a confiança e a segurança de que a equipa necessitava e não encontrava em Artur. Com a saída de Matic, o aparecimento de Fejsa. E com ele, o gosto por defender, apenas e só defender. Algo que não acontecia com Matic, que marca a diferença por ser um jogador que enche todo um meio-campo e gosta de avançar no terreno. Fejsa não. Fixa-se, compreende as suas limitações e equilibra a equipa. Luisão, numa forma soberba, agradece. Garay diz o mesmo, Siqueira e Maxi acenam lá de trás. Para Enzo, um descanso.

Luisão e Rodrigo, expoentes máximos da nova face do Benfica Fonte: ofuraredes.blogspot.com
Luisão e Rodrigo, expoentes máximos da nova face do Benfica
Fonte: ofuraredes.blogspot.com

Também Rodrigo, Lima, Markovic e Gaitán merecem elogios nesta coesão defensiva. Os dois primeiros formam uma primeira linha de pressão agressiva a partir da saída de bola do adversário. Com Cardozo, isso seria impensável. E mérito de Jesus para a transformação de Markovic: do estado selvagem que nos encantava com a bola no pé e nos desesperava sem ela, para um jogador solidário e que disputa bolas no meio-campo defensivo. O mesmo serve para Gaitán, que está a realizar a melhor temporada desde que chegou.

Não deixa de ser irónico estar(mos) a elogiar Jorge Jesus e os jogadores pela qualidade defensiva que tem sido por demais evidente em 2014. Do vendaval ofensivo, passámos a ser um exemplo do bem defender. Espero não me enganar ao dizer que está, finalmente, encontrada a fórmula certa para o Luisão acariciar troféus. Tantas goleadas e jogos de encher o olho no passado, quando no presente nos deixamos encantar por este Benfica cínico, que se sente confortável a defender. Lá à frente, a qualidade individual continua a fazer tremer qualquer adversário. 3-1 em White Hart Lane sem Salvio e com Enzo e Gaitán apenas a meio da segunda parte. A perfeição no futebol é algo muito difícil de ser alcançado. Mas se este Benfica não está perfeito, pouco faltará. Esse pouco são os títulos.

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