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Qualquer que fosse o resultado do jogo de hoje, os jogadores da equipa de sub-19 do Benfica teriam sempre de ser vangloriados pela extraordinária prestação que tiveram na Uefa Youth League – a mais prestigiada competição europeia de clubes entre os mais jovens. Os excelentes resultados da equipa de juniores do Benfica são motivo para orgulhar os benfiquistas e, acima de tudo, para descansar os portugueses quanto ao futuro das nossas selecções nacionais. Personalidade, maturidade e qualidade técnica são traços que caracterizam uma equipa recheada que valores que encantou, ao longo desta campanha europeia, adeptos de futebol por toda a Europa.

Depois de uma fase de grupos tranquila, os pupilos (muito bem) orientados pelo técnico João Tralhão encontraram um Áustria de Viena que se tinha apurado num grupo que contava com F.C.Porto ou Atlético Madrid e esmagaram os austríacos com um contundente 4-1. O sonho das jovens águias ganhavas asas à medida que a confiança se apoderava da equipa, e a vitória perante o poderoso Manchester City, nos quartos-de-final da prova, fez aumentar os índices motivacionais no seio do grupo. Seguiu-se o Real Madrid nas meias-finais. Era o último obstáculo até à grande final e os encarnados não vacilaram e golearam os merengues com um expressivo 4-0. Goleada, exibição de alto nível e o sonho ali tão perto.

Apesar das muitas oportunidades criadas, o Benfica não conseguiu marcar Fonte: Facebook oficial do Sport Lisboa e Benfica
Apesar das muitas oportunidades criadas, o Benfica não conseguiu marcar
Fonte: Facebook oficial do Sport Lisboa e Benfica

Ontem foi o dia da grande final. Benfica e Barcelona, dois históricos do futebol mundial, encontraram-se para decidir o vencedor da primeira Champions League sub-19. Num jogo sem favoritos, imperou a eficácia de um Barça que nunca dominou o jogo e que apenas ganhou porque foi mais eficiente no capítulo da finalização. E como no futebol ganha quem marca mais golos e não quem joga melhor, foi a equipa blaugrana que se sagrou campeã europeia sub-19. Para quem viu o que se passou hoje em Nyon, Suíça, o resultado de 3-0 a favor do Barcelona é claramente exagerado e enganador. Parece que foi a equipa espanhola quem praticou melhor futebol e criou mais oportunidades, mas não foi isso que se passou.

No relvado do Estádio Colovray, disputou-se um fantástico jogo entre miúdos cheios de talento que apenas se preocuparam em praticar o futebol puro e genuíno que têm nos pés. O facto de se tratar de uma final de uma recente, mas consagrada, competição não amedrontou os jogadores encarnados, que apenas se preocuparam em impor o seu jogo fluído e tricotado. A personalidade com que a equipa do Benfica entrou na partida foi a mesma durante os noventa minutos e as melhores oportunidades de golo pertenceram aos meninos da Luz. Desde penaltys a lances isolados, os jovens encarnados construíram um leque de oportunidades de golo suficiente para saírem da Suíça com o troféu, mas o desacerto da finalização foi demasiado cruel.

Nem o facto de o Barcelona ter entrado praticamente a ganhar, com um golo antes dos dez minutos, abalou o Benfica, que reagiu de forma muito positiva à desvantagem. A confiança que a equipa respirava permitia-lhe encostar o Barcelona às cordas e colocar em sentido a defesa adversária. A verdade é que as ocasiões de golo não eram concretizadas – nem mesmo de grande penalidade – e o resultado ia-se mantendo favorável ao conjunto espanhol. A primeira e a segunda parte tiveram praticamente o mesmo filme: Benfica a jogar e Barcelona a marcar. Aproveitando a velocidade e apurada técnica dos três avançados, a formação blaugrana jogou quase sempre em transições e tentou explorar todo o talento desse trio composto por El Ourachi, El Haddadi e Traoré. O segundo, um jogador de altíssimo nível, apontou dois dos golos do Barcelona, e Traoré, atleta que já se estreou na equipa principal, foi sempre uma seta apontada à baliza encarnada. Tirando esses rasgos individuais, pouco mais se viu deste Barcelona, quase sempre diminuído perante a pressão encarnada.

Ao Benfica não se pode apontar falta de dinâmica, fluidez ou agressividade; apenas falta de eficácia. A exibição dos pupilos de João Tralhão foi de um nível fantástico, não só a nível táctico como também técnico. A qualidade de jogo desta equipa é algo que fascina qualquer adepto de futebol e ver jogar jovens como Gonçalo Guedes, Romário Baldé ou Nuno Santos é um regalo para a vista. Quem, como eu, acompanha com especial atenção a evolução desta equipa que tem vindo a amealhar títulos nacionais há já alguns anos, não se surpreende com a categoria destes jovens, mas estou certo de que, depois desta campanha, estes meninos vão ser mais valorizados e vistos como o futuro da nossa selecção.

Olhando para os jogadores que compõem este plantel, são poucas as dúvidas que existem quanto ao futuro destes atletas. Se continuarem a exibir-se a este nível, terão um futuro risonho pela frente. Theirry Graça é um guardião forte e muito seguro; os centrais João Nunes e Alexandre Alfaiate são altos, rápidos e fortes no capítulo do passe; os laterais Rafael Ramos e Pedro Rebocho exploram o flanco como poucos e possuem uma qualidade técnica admirável; no meio campo, Estrela é um poço de força que não falha um passe e Rochinha e Guzzo são donos de uma qualidade de passe acima da média e de uma inteligência notável; na frente de ataque, há pérolas que encantam qualquer fã de futebol. Nuno Santos, Guedes e Baldé são virtuosos, rápidos e tratam a bola como ninguém.

Romário Baldé e Nuno Santos são duas das unidades mais influentes nesta equipa Fonte: Facebook oficial do Sport Lisboa e Benfica
Romário Baldé e Nuno Santos são duas das unidades mais influentes nesta equipa
Fonte: Facebook oficial do Sport Lisboa e Benfica

Depois de uma quase perfeita prestação na competição de clubes mais importante do futebol jovem na Europa, várias questões se levantam sobre a forma como estes prodígios vão ser aproveitados pela estrutura do Benfica. Na verdade, os resultados obtidos neste percurso só vêm confirmar que a formação encarnada possui atletas de um infindável talento e que a política de aproveitamento destes jovens tem de ser repensada. Por aquilo que vejo enquanto fanático por futebol, tenho a certeza de que quatro ou cinco jogadores que brilharam nesta Youth League vão ser jogadores de excelência do futebol nacional. Estou também convicto de que a direcção encarnada não será inconsciente ao ponto de ignorar tanto talento e de não incluir, a curto prazo, estes meninos nos quadros do plantel principal. Como disse Luís Filipe Vieira após a final de hoje, estes jovens “têm um futuro cheio de vitórias pela frente”.

O presidente do SLB, Luis Filipe Vieira, mostrou-se orgulhoso com a campanha dos Benfica sub-19 na Uefa Youth League Fonte: ASF (Miguel Nunes)
O presidente do SLB, Luis Filipe Vieira, mostrou-se orgulhoso com a campanha dos Benfica sub-19 na Uefa Youth League
Fonte: ASF (Miguel Nunes)

Porque os tempos são de crise e sobretudo porque (meu deus!) estes rapazes são tão bons jogadores, o Benfica não pode continuar a cometer barbaridades e desperdiçar estes produtos da formação. Estas gerações de 94, 95 e 96 estão recheadas de valores seguros e isso, como benfiquista e português, deixa-me totalmente descansado.

Parabéns, miúdos. Foram grandes!

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