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O futebol encerrou, há uma semana, mais uma página dourada da sua bonita história. Se voarmos por entre as folhas desse longo passado encontramos registos incríveis e nomes como os de Pelé, Ghigia, Sócrates, Zico, Eusébio, Maradona, Beckenbauer, Voller, Cruijff, Van Basten, Yashin, Romário, Baggio, Ronaldo, Zidane, que de uma forma ou de outra, com títulos, golos ou magia, conquistaram o Olimpo deste desporto. O mesmo, na minha opinião, sucede com Pablo Aimar, que terminou a sua carreira na passada quarta-feira e agora se junta a este conjunto de nomes, e muitos mais, que nunca mais ninguém terá o prazer de ver jogar, mas que todos teremos o gosto de contar às próximas gerações a sua valia e falar sobre as saudades que teremos de os ver em ação.

O caro leitor deve estar a perguntar por que motivo estou a falar de Pablo Aimar e não da atualidade semanal do Benfica. Mas permita-me fazer aqui uma exceção e esquecer os nossos artistas por uns dias e dedicar umas linhas ao génio argentino que marcou a nação encarnada e nos deu grandes alegrias.

Recuo até 2008, quando Pablito chegou à Luz e Rui Costa lhe passou a camisola 10. A expetativa criada foi grande, mas as dificuldades físicas que sempre assolaram Aimar obrigavam a que existisse alguma cautela. Como se confirmou, El Mago não foi brilhante na sua primeira época. O Benfica de Quique Flores apenas ganhou a Taça da Liga e talvez muitos tenham pensado que o argentino vinha aqui ganhar a sua reforma, dadas as suas condições físicas. Mesmo assim, nunca esquecerei, nessa primeira época, alguns momentos técnicos que só Aimar me deu de águia ao peito. Alguém se lembra daquela Rabona em Guimarães, atrás do meio campo, que isolou Suazo?

Brilhou de águia ao peito, num total de 179 jogos Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Brilhou de águia ao peito, num total de 179 jogos
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

É de acrescentar que o técnico espanhol nunca soube moldar a equipa para fazer sobressair Aimar, e o número 10 é um daqueles jogadores que devem ter uma equipa em função dele. Quem percebeu isso foi Jorge Jesus e montou um 4-4-2 losango, que colocava Aimar no seu lugar predileto e o fazia sentir-se como um peixe na água. O trabalho do departamento médico do Benfica foi também muito importante (nesta segunda temporada aumentou significativamente o número de jogos, de 29 para 41) e contribuiu para que o argentino fizesse uma época estrondosa, sendo um dos grandes responsáveis pelo “rolo compressor” e pela nota artística do Benfica naquele ano. Foi, sem sombra de dúvida, o melhor Benfica que eu vi desde que nasci, e Pablo Aimar era o maestro de uma orquestra tão bem afinada.

Depois dessa época continuou de águia ao peito e, embora o Benfica não tenha feito uma época tão boa, até porque perdeu alguns elementos e a tática foi um pouco alterada, Aimar continuou a ter a sua importância e ninguém me tira da cabeça aquela meia-final da Liga Europa contra o Braga, em que na primeira mão o argentino viu um amarelo injusto (o livre deu o golo do Braga) e ficou afastado do segundo jogo. Com Pablito tínhamos sabido ultrapassar os minhotos!

Aimar iria abandonar Lisboa dois anos mais tarde (no final de 2012/13) e rumar a caminhos do petróleo, agora sim em fase final de carreira. Deixou marcas no terceiro anel e um cântico que o colocava ao lado de Eusébio e Rui Costa, como um 10 imortal. A Luz não esquecerá Aimar, como Aimar não esquecerá o Benfica e os seus adeptos, como várias vezes faz questão de lembrar. Todos sabemos que o mago argentino não é benfiquista, o seu clube é o River Plate e por isso foi lá que quis pendurar as botas, mas temos a certeza de que o Benfica ficou no seu coração.

Aimar realizou o último jogo com a camisola encarnada na derrota da Final da Taça de Portugal em 2013, entrando perto do fim Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Aimar realizou o último jogo com a camisola encarnada na derrota da Final da Taça de Portugal em 2013
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

O Benfica deu muito ao futebolista, numa fase menos boa da sua carreira, e Aimar retribuiu com qualidade no seu jogo, com magia, com carinho e entrega. Pablito deu aos benfiquistas a oportunidade de ver na Luz um daqueles jogadores com um perfume raro, com um toque de bola de génio e uma visão de jogo acima da média. Aimar é um daqueles poucos jogadores que pensam mais rapidamente que o adversário e que já sabe o que fazer quando o esférico ainda nem chegou aos seus pés. Hoje em dia, são muitos os jogadores apelidados de génios, até eu o faço frequentemente, mas Aimar é mais que isso! Aimar é um Deus do futebol, e todos sabemos que, se não fossem as suas frequentes lesões, a carreira do argentino teria tocado a perfeição e os grandes títulos individuais.

“Pablo Aimar é o único jogador por quem pagaria bilhete para ver jogar”, disse Maradona durante o Mundial 2006, quando Aimar era um dos jogadores da seleção argentina.

“Quando eu tinha 13 ou 14 anos adorava ver jogar o Aimar. Ele é brilhante, eu divertia-me imenso a vê-lo”, disse Leo Messi, assumindo que El Mago era o seu ídolo.

As duas maiores figuras de sempre do futebol argentino sempre teceram grandes elogios a Aimar e têm certamente a noção de que o jogador estaria ao seu lado no Olimpo argentino, não fossem as debilidades físicas. Aimar também terá essa noção, mas para quê falar de tristezas na semana em que um dos jogadores mais brilhantes da história do futebol termina a carreira? Aimar deu muitas alegrias aos adeptos, que o digam os do Valencia, e brindou os amantes do desporto com pormenores fantásticos. Era um jogador que traduzia na perfeição aquilo que pretendemos do jogo: magia, emoção e qualidade.

Chegou a ostentar a braçadeira de capitão e será, para sempre, uma das figuras do Benfica Fonte: Facebook Sport Lisboa e Benfica
Chegou a ostentar a braçadeira de capitão e será, para sempre, uma das figuras do Benfica
Fonte: Facebook Sport Lisboa e Benfica

Pessoalmente, Aimar sempre foi um ídolo, mesmo muito antes de o ver vestir o manto sagrado, e foi um dos responsáveis por ter ganhado tanto amor a este desporto. Nunca me habituarei a não o ver nos grandes palcos porque os melhores fazem sempre falta, independentemente dos craques que surjam. Pablito cativou-me também por outra coisa: pela sua personalidade e humildade. Um verdadeiro cavalheiro, que raramente encontrou inimigos dentro de campo.

Agora que pendura as botas, agradeço-lhe como benfiquista por ter vestido a nossa camisola (tão bem que ela lhe ficava) e por tudo o que nos deu, mas sobretudo agradeço-lhe como adepto de futebol por momentos de magia maravilhosos com que ao longo de 18 anos nos foi presenteando. Resta-nos ficar com os seus vídeos e mostrá-los aos mais novos para que se baseiem em Aimar para crescerem como futebolistas. Se eles quiserem ser como ele já estarão mais perto do sucesso, mas têm de ter sempre a ideia de que não poderão ser El Mago, já que Aimar só há um e não existem cópias!

Obrigado, Ídolo!

 Foto de capa: Facebook Sport Lisboa e Benfica

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