Pizzi | O reflector da realidade encarnada

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A noite de passagem de ano costuma ser um período temporal quase impermeável quanto ao poder humidificante do realismo, o chamado ‘banho de realidade’ – a total idependência entre a realidade e a consciência de cada um de nós, já bêbedos de esperanças e champanhe em promoção.

As promessas vãs que se fazem nesse dia são definidas como “tradicionais” pela tentação de mudança anual e facilidade do adjectivo, apesar de sabermos que a esperança fútil num futuro melhor será apenas uma ilusão que nos agarra perante o vazio existencial. “Muito dinheiro!” é muitas vezes procedido do ternurento “que o meu chefe valorize o meu trabalho”, que contrasta com o imediato “ah, e muita saúde” – num reflexo bonito de altruísmo e vontade puritana, para não nos tornarmos materialistas também aos olhos de Deus ou quem quer que lá esteja em cima.

Não se sabe onde estava Pizzi nesse dia, nem onde festejou o Reveillón (ainda que não tenha tido muita liberdade para o fazer, com o treino aberto realizado no dia 1), mas supõe-se que tenha passado em boa companhia e num lar inundado de alegria, onde familiares e amigos o sufocaram com elogios quanto ao seu rendimento na temporada.

Os agradecimentos que soltou, com risos orgulhosos à mistura, foram proferidos sobre uma confortável almofada onde os 19 golos e as dez assistências acomodaram a paciência do Terceiro Anel nas 24 aparições vistas até esse momento. Era o rosto de um Benfica dominador, a luz gerada por uma eficiente máquina que fazia valer a sua qualidade individual e colectiva para atropelar todos com quem se encontrava dentro de portas.

Estava no primeiro lugar e tinha atingido as meias-finais da Taça de Portugal, os principais objectivos internos e a recente aposta na dupla Taarabt-Gabriel a meio-campo tinha elevado sobremaneira a nota artística. Em Dezembro, os encarnados jogavam um futebol próximo daquele que se vira em 2018-19, com a final consolidação da dupla e do onze base.

Só no campeonato, Luís Miguel contava 11 golos e sete assistências em 14 jogos, números que o tornavam no melhor e mais preponderante jogador da Liga. Na Champions League, faz duas assistências e marca por três vezes – o que sextuplica a sua influência em golos na prova.

Em toda a sua carreira, era habitual a qualidade futebolistica de Pizzi ofuscar-se quando ouvia o fantástico hino interpretado pela Orquestra Filarmónica Real de Londres no perfilar dos onzes: em 30 jogos, tinha um único golo.

Podemos então supôr que aos 29 anos, o médio português tinha finalmente encontrado a disposição certa para enfrentar a pressão de um desafio continental, num claro processo de evolução até ao Ubermensch profetizado por Nietschze: um dos passos essenciais, para o filósofo alemão, seria a reavaliação de ideais antigos e a criação de novos, suportados por uma ambição desmedida e pela incomensurável vitória sobre o niilismo. Foi a definitiva vitória do português sobre si próprio, numa demonstração de força espiritual e que fazia supor uma época ainda mais inesquecível que a anterior.

Suposição que a chegada de Julian Weigl fortaleceu. Impensável no Verão passado, a chegada do internacional alemão foi uma lufada de ar fresco no plano de transferências de Luís Filipe Vieira e uma mudança de paradigma. Adicionar um craque internacional alemão a um grupo com Fejsa, Samaris, Florentino e a dupla que até aí vinha comandando o Benfica a um reencontro com as boas exibições era panóplia luxuosa para Bruno Lage organizar.

É fácil afirmar que a introdução de Julian de forma algo apressada possa ter levado a um interregno na criação de rotinas e na estabilização dos titulares, ainda que não haja provas concretas quanto a isso.

O certo é que a equipa entrou em espiral negativa, começou a cair de rendimento e a maioria das peças que até aí se exibiam a bom nível começaram a desistir da carreira como jogadores de futebol – Pizzi, em especial, viu-se em Janeiro apoquentado por uma gigantesca quebra física, ainda mais que noutras temporadas. A acompanhá-lo com grande destaque esteve Ferro e Grimaldo, os dois a meio caminho entre o colapso emocional e a desaprendizagem total das suas competências.

Mas o foco, enquanto grande figura da equipa, recairá sempre sobre os ombros do médio direito. Tal como outros craques, será sempre o reflexo de todos os elementos que o acompanham no onze – Gabriel, sim, é o responsável e o único com a competência devida para pôr a máquina a trabalhar.

E, se podemos afirmar com clareza que a ausência do brasileiro tem continuamente efeitos nefastos na consistência do onze (como foi vísivel na parte final de 2018-19), o rendimento do português alia-se às boas e más fases da equipa, de mão dada com a avassaladora capacidade ofensiva demonstrada entre Novembro e Dezembro ou com a monumental inépcia de Fevereiro.

Pizzi lutou contra a sua própria estatística em contexto internacional e saiu vitorioso, apesar da queda da equipa para a Liga Europa
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O que é visível assinalar é a ligação entre a sua produção ofensiva e a estabilidade no duplo-pivot. A sua melhor fase começa precisamente a 2 de Novembro, na recepção ao Rio Ave (2-0), quando Florentino e Gabriel assentavam arraiais na titularidade, e a reconhecida capacidade de leitura de jogo e reacção à perda da dupla permitiam a Pizzi uma liberdade que Taarabt não lhe consegue oferecer.

Ainda assim, a qualidade do marroquino no capítulo ofensivo ajudou Pizzi a chegar à sua melhor forma de sempre. Tudo começa em Leipzig (2-2), a 27 de Novembro, quando Lage o introduz como novo companheiro de Gabriel e mantém a parceria durante o último mês do ano, até ao jogo em Guimarães (0-1) a 4 de Janeiro – foi o melhor mês de sempre para Pizzi, com seis golos e cinco assistências em sete partidas, entre Champions League, Primeira Liga e Taça de Portugal.

Desde aí, os números do craque português caíram a pique. Desde a desarrumação tática provocada pela chegada de Weigl e a lesão de Gabriel, o português contabiliza sete golos e duas assistências em 15 jogos realizados. O que são números razoáveis quando não esmiuçados perante as circunstâncias: na Liga, os três golos foram de penálti; na Taça de Portugal, finaliza mais uma vez de penálti e marca em Famalicão de bola corrida; na Liga Europa, repete de penalidade em Kharkiv, marcando bonito golo na Luz em boa jogada individual. Em termos de passes para golo, não oferece em território nacional qualquer oportunidade desde 14 de Janeiro (!!!), na vitória frente ao Rio Ave para a Taça.

É tentador então discernir que o rendimento de Pizzi é proporcional à estabilidade da dupla do meio e das suas qualidades. Enquanto a importância de Gabriel na recuperação se torna essencial no sistema de Lage, com provas várias nesse sentido, o parceiro que melhor complementou as suas qualidades foi Taarabt, parceria que alavancou toda a frente de ataque e escondeu fragilidades defensivas que são, agora, constantemente postas à prova. Pizzi servirá sempre como reflector dos momentos da equipa: o protagonismo de diferenciador e peça essencial do xadrez será sempre entregue a Gabriel.

Com a lesão do brasileiro, a 6 de Fevereiro, foi visível ainda mais a quebra de uma equipa já à beira do precipício e o jogo no Dragão, dois dias depois, foi a estocada final num grupo de jogadores longe da sua melhor forma.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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