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A profecia está perto de se concretizar. Depois das muitas promessas é hora de dar. De deixar cair o pano. De coroar o(s) rei(s). Fazer jus à fantástica época que pintou de encarnado o universo do futebol português, qual amor de arrebatar que nos torna cegos ou invisuais a outra qualquer cor que não aquela que é só nossa…sendo agora de todo o mundo. É isto o Benfica. E este ano foi à Benfica. Mais e melhores virão.

Enquanto pensamos neste presente e nesses futuros é hora de lembrar aqueles que nos acompanharam nesta caminhada, lembrando, acima de tudo, os seus eternos e incomensuráveis esforços. Tenhamos, ainda assim, o atrevimento de poupar no papel porque ainda que o Benfica seja o nosso grande amor, a (triste) vida a sério obriga-nos a economizar também no tempo. Dessa forma, os pequenos mas deliciosos minutos que aqui vos cozinho servirão para tirar o chapéu e fazer a vénia a uma das revelações deste plantel. Um homem que chegou sem grandes esperanças. Um português que vinha mais para fazer número do que para jogar à bola. Um emprestado sem grandes perspectivas que precisava de provar o seu valor. Um reforço para o lugar mais contestado do Benfica nas últimas épocas.

Falo-vos de Sílvio. Hoje, depois das muitas euforias vividas desde o terceiro minuto contra o AZ Alkmaar, é dia de honrar a ausência e de agradecer a presença do “nosso” incansável miúdo de 26 anos. Sílvio foi uma das pedras basilares para este esquema táctico e organizacional de Jesus. Tanto dentro de campo, como fora dele. Permitiu a rotação do plantel e a continuação das boas exibições. Ele e outros como ele. No entanto, é do português que falamos porque é impossível não sentir um aperto no coração ao pensar que, logo quando atravessava um excelente momento de forma, acaba por cair numa longa e dolorosa fase de recuperação depois de partir a perna num choque acidental com o “Girafa”.

O internacional português já foi operado e parece estar a saber lidar saudavelmente com este contratempo, mas vê-lo longe dos relvados é um tiro no pé para as aspirações do Benfica…mas não só. Sílvio servia essencialmente para encher o campo em jogos em que o caudal ofensivo adversário ameaçava inundar o meio-campo encarnado, sufocando assim o trabalho de Fejsa e limitando em consequência a reposição de bola de Enzo. Siqueira é um óptimo jogador – nunca pensei vir a dizer isto, pelos apontamentos do princípio da época –, mas não dá a maior das tranquilidades ao processo defensivo do Benfica. Aí, Sílvio surgia como uma lufada de ar fresco e um activo plenamente capaz de dar (não só) ao lado esquerdo uma estabilidade de movimentos e de constante recuperação ao ponto de nem ser necessário meter a jogar à sua frente um génio como Gaitán. Contudo, sendo justo, falta ao português o atrevimento para subir com pompa e circunstância no terreno. Precisa de mais pulmão. Mais pernas. Mais jogo. Os cruzamentos são precários e o jogo criativo é algo previsível. É um fantástico lateral à antiga num jogo que é demasiado moderno. Não deixa, ainda assim, de ser um fantástico lateral. Um fantástico lateral que nos dava um fantástico jeito.

Uma bonita mensagem de apoio dos companheiros colchoneros Fonte: Site oficial do Atlético de Madrid
Uma bonita mensagem de apoio dos companheiros colchoneros
Fonte: Site oficial do Atlético de Madrid

Vamos sentir a sua falta, tanto na esquerda como na direita. A falta dessa polivalência que não é para todos. A necessidade de o ter nos confrontos europeus, como aconteceu na Liga dos Campeões e na Liga Europa, em que nos presenteou com exibições de luxo contra PAOK e Tottenham. Seria mais um trunfo na deslocação a Turim, mas agora há que saber lidar com o seu afastamento…não esquecendo a sua possível permanência. O Benfica deve apostar nos portugueses que têm valor e, ainda que Sílvio tenha rumado à Luz por empréstimo sem opção de compra, é, para mim, fundamental contactar o Atlético de Madrid na tentativa de garantir o lateral para os anos vindouros. Os números não são conhecidos, mas visto que os colchoneros mantêm uma relação de proximidade com o Benfica, graças às benesses que Luís Filipe Vieira lhes tem oferecido ao longo dos anos – Simão Sabrosa a preço de saldo; Reyes “reconstruído” e relançado no Benfica para voltar depois a casa; e toda a negociata de milhões em volta do guarda-redes Roberto –, talvez não seja impossível sonhar com um Sílvio por menos de cinco milhões de euros. Até porque o brasileiro Filipe Luís tem-se afirmado como insubstituível no lado esquerdo da defesa do Atlético – veja-se o enorme jogo contra o Barcelona, para a Liga dos Campeões.

Com tudo isto dito, uma última reflexão: e o Mundial? Não serei com certeza o único a querer ver Sílvio substituir João Pereira. É mais do que merecido (e/ou necessário). Mas tal como o Benfica terá de fazer das tripas coração para sobreviver a este desaire, assim terá Paulo Bento de fingir que o lateral português até nem atravessava o melhor período da sua carreira. Lei de Murphy, para que te quero…

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