Não, não é um texto sobre carros antigos. Trata-se de uma tentativa de analisar e antever a importância de um clássico entre SL Benfica e FC Porto jogado num momento precoce da temporada. É mais do que um jogo? Vale mais do que os pontos em disputa? Pode revelar-se um ponto marcante ou até de viragem no campeonato?

A expetativa que o precede, a romaria ao estádio que gera, o impacto mediático que causa, a qualidade das equipas que o disputam e a dimensão dos clubes em questão impedem qualquer pessoa de menosprezar um clássico com chavões do género “É só um jogo”. É mais que isso. É uma festa – muitas vezes arruinada por quem utiliza o futebol como um subterfúgio para expor as suas competências violentas e as suas incompetências civilizacionais (par inseparável) –, é um hino ao futebol quando bem jogado, é a reunião de 159 títulos nacionais e internacionais (incluindo 65 ligas portuguesas e quatro Taças dos Campeões Europeus/Liga dos Campeões), é o confronto de duas histórias e dois historiais por poucos clubes igualados e por menos suplantados no panorama futebolístico mundial.

Sendo tudo isto – e mais –, reveste-se inevitavelmente de uma importância muito grande para todos os envolvidos. O resultado e a performance, por esta ordem, podem ditar o futuro próximo de treinadores, jogadores, dirigentes. Nesse sentido, pode ser decisivo. No entanto, como temos visto nos últimos anos, vencer ambos os clássicos não é sinónimo de conquista do campeonato. Assim, dificilmente um clássico – ou mesmo os dois – é decisivo para a conquista do campeonato. Importante, claro, mas não decisivo numa maratona de 34 jogos.

Olhando para o clássico da próxima jornada percebemos isso. Uma vitória do FC Porto deixa os rivais igualados a 31 jornadas do fim. Um empate deixa uma brecha de três pontos entre ambos e uma vitória do SL Benfica abre uma vantagem de seis pontos favorável ao clube da Luz, mas que não é irrecuperável, como vimos em anos anteriores. Todavia, olhando para o contexto em que surge percebemos também a importância do jogo para o futuro dos envolvidos, como referi acima.

No último clássico realizado na Luz, Seferovic foi o autor do único golo
Fonte: SL Benfica

A má entrada na época por parte do FC Porto torna uma vitória azul e branca na Luz quase uma obrigação, podendo uma derrota portista ter repercussões que se poderão fazer sentir em toda a estrutura do vice-campeão. Por outro lado, uma derrota encarnada pode ter o condão de arrefecer os ânimos benfiquistas e tirar a graça ao estado em que se encontram os encarnados. Um mau resultado, por se tratar de um jogo que é mais do que isso, terá que ser compensado na jornada seguinte. Assim, não é despiciendo o facto de nessa jornada o FC Porto receber o Vitória SC e o SL Benfica visitar o SC Braga. Vencer o clássico ganha ainda maior carácter de urgência.

No meio de tudo isto, importa não descurar os “direitos de gabação” que estão em jogo, na perspetiva dos adeptos e associados dos dois clubes. Vencer um campeão europeu por duas vezes aumenta o ego e orgulha qualquer adepto. Vencer um rival tem o mesmo efeito. Vencer um rival campeão europeu por duas vezes tem um efeito que é mais do que a soma dos efeitos em separado – é um dos raros casos em que 1+1 não é igual a 2.

Posto isto, o clássico vale mais do que os pontos em disputa e é mais do que um jogo, podendo ser um ponto marcante ou de viragem no campeonato e na época. No entanto, não sendo o único, não poderá ser considerado o momento decisivo. No dia 24 de agosto, a partir das 19 horas, disputa-se no Estádio do SL Benfica um jogo que é e vale mais do que um dito normal, um jogo a que vale a pena assistir, um jogo com potencial para ser um dos jogos do ano, mas que não decide o campeonato. Após o jogo, o foco, de um lado e do outro, terá que estar no que faltará jogar. Mas até lá, as atenções estarão centradas num jogo que é… um clássico!

Foto de Capa: SL Benfica

artigo revisto por: Ana Ferreira

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