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A História está recheada de homens bons que, inevitavelmente, acabaram engolidos pela sombra dos seus adversários. A experiência ensina-nos que a polidez do gesto e do discurso – mesmo que isso contrarie toda e qualquer lógica – nem sempre destrinça aquilo que um grupo pode fazer de melhor; por outro lado, uma postura guerrilheira fortalece o ânimo, muitas vezes relegando para segundo plano os aspectos técnicos e tácticos, no caminho para a vitória. Esta breve introdução poderia versar sobre as artes da guerra ou da política: nesse caso, concluiria o texto afirmando que os cemitérios estão cheios de pacifistas. Porém, o assunto é futebol; apenas o futebol português e a sua actualidade. Basta-me, portanto, recordar que este jogo não é para meninos.

1. Rui Vitória merece treinar o Benfica – é o mínimo que, neste momento, se poderá dizer. Provou-o junto à relva, graças a um percurso ascendente, sem atalhos, cumprido com a paciência dos humildes e uma competência eficiente. Triunfou e, com naturalidade, chegou ao topo. Na casa de partida, Rui Vitória inverteu radicalmente o discurso do seu antecessor (na forma e no conteúdo), evitando o feitio e as palavras truculentas. Das suas lições de cavalheirismo notou-se, essencialmente, a ausência do que ficou por dizer – recados fundamentais para fora, e alguns também para dentro.

Rui Vitória cumpriu a sua era do optimismo ingénuo e da crença; é quando confiamos na bondade alheia e supomos que nos chegará, naturalmente, o que julgamos merecer por mérito próprio e justiça. Rui Vitória calou publicamente. E fê-lo durante um mês, perante todos os temas importantes: a pré-época (poucos se recordam que foi o próprio Julen Lopetegui a abdicar de participar na International Champions Cup, evitando ter uma equipa impreparada para o início das provas oficiais), os reforços (com o campeonato em andamento, é ainda fundamental contratar) e, sobretudo, as questões que surgiram antes e depois da Supertaça, envolvendo Jorge Jesus. Rui Vitória fugiu ao confronto – com a estrutura e com os rivais – desconhecendo, à altura, que são raros os caminhos para a glória feitos de paz e tranquilidade.

Rui Vitória merece treinar o Benfica Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Rui Vitória merece treinar o Benfica
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

2. Com as primeiras desilusões – o resultado da Supertaça foi, na verdade, o mal menor desse jogo – surge-nos um novo sentido do real. É quando dolorosamente nos apercebermos de que o (nosso) mundo nem sempre gira de forma regular e em crescendo. E que, por vezes, é injusto. Se Rui Vitória quer, de facto, ver o Benfica “a entrar nos eixos” tem de arregaçar as mangas e, ao jeito da sua terra, pegar o toiro pelos cornos. E compreender – mais cedo que tarde – que, por muitos conhecimentos que tenha, para triunfar neste patamar é necessário, primeiro que tudo, abdicar de ser ele próprio, tornando-se muito mais com aquilo que se espera de si aos olhos do grupo de trabalho que lidera e, consequentemente, do universo de adeptos. Este mundo não é para os bondosos e simpáticos: é para os Brian Clough e os José Mourinho (e sim, para os Jorge Jesus!). É para os que podem porque falam e falam porque podem. Rui Vitória tem de o perceber rapidamente e começar a falar e agir em conformidade.

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P.S.: O 4-0 ao Estoril é enganador. No entanto, Rui Vitória já começa a dizer qualquer coisa, tal como se viu na antevisão da partida. Se já falasse tudo, porém, diria no final deste jogo, para que todos o ouvissem: há seis anos que o Benfica não ganhava um jogo a partir do banco. Sem medos e com toda a confiança.

Foto de Capa: Facebook do Sport Lisboa e Benfica